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sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Protestantismo no Brasil: Atuações Econômicas de James C. Fletcher


Adido Comercial
Fletcher foi sempre um missionário atípico, pois sua visão era extraordinariamente ampla para os seus dias. Hoje muito se fala que os missionários devem interagir com a sociedade em que desejam comunicar a sua mensagem evangélica e que isto pode ser feito através do exercício de uma profissão ou ofício. Fletcher já desenvolvia este conceito, quando se utilizou de sua função de Adido Comercial Americano para entre tantas outras coisas comunicar a sua mensagem evangélica. Escrevendo em 1862 uma carta ao Journal of Commerce de New York, ele expõe de forma muita clara sua concepção do trabalho missionário:
“Sei que alguns podem dizer que não é papel de um clérigo missionário estar envolvendo-se com negócios. Mas creio que tenho uma visão mais alta do que o mero interesse mercantil do meu país, pois sou dos tais que crêem que a religião e o comércio são servos que, unidos com a bênção de Deus, servem para a promoção dos interesses mais nobres e mais altos da humanidade”.[1]
                        O seu trabalho como Adido da Legação Americana no Brasil foi negociado com o governo brasileiro pelo então Enviado Extraordinário e Ministro Plenipotenciário dos Estados Unidos para o Brasil e Argentina, Robert Cumming Schenck, que deste modo procurava dar ao recém chegado missionário uma “proteção oficial”.
            Pouco tempo depois, Ferdinand Coxe, até então Secretário da Legação necessita pedir uma licença e indica Fletcher para substituí-lo interinamente. Assim, ele passa a responder por esta importante função diplomática, sob as ordens diretas do então Cônsul americano na Corte Edward Kent, que havia sido Governador do Estado de Maine.
            Escrevendo ao seu pai Calvin Fletcher,[2] ele deixa transparecer sua grande disposição e motivação em ser um instrumento missionário do evangelho, mas também em propiciar ao Brasil a oportunidade de alcançar um “progresso” tanto em seu desenvolvimento econômico, cientifico e tecnológico, que tanto os Estados Unidos quanto a Europa já haviam alcançado.
            Em 1853 o General William Trousdale assume o Ministério da Legação Americana e minimiza toda e qualquer sugestão de Fletcher quanto aos assuntos de interesse americano e brasileiro, e por fim acaba o destituindo da Legação[3]. Sem nenhuma diplomacia, mas transpirando arrogância e prepotência Trousdale conseguiu em pouco tempo inflamar profundamente toda a diplomacia brasileira, que naquele momento já estava insultada com uma expedição não autorizada de mapeamento do Rio Amazonas, feitas por militares americanos e por vários artigos produzidos nos jornais de Washington, criticando abertamente o Governo brasileiro por não permitir a abertura do Rio Amazonas.
            Fletcher fica pasmo e profundamente irritado com as atitudes grosseiras e desastradas do então Ministro. Ele sabia que esta atitude estapafúrdia de Trousdale traria grande retrocesso nas relações Brasil-Estados Unidos. E de fato isto ocorreu, pois até então o Brasil estava disposto a ampliar os laços com os americanos para fugir da pressão dos ingleses, como o próprio Fletcher havia informado em sua correspondência ao New York Daily Times:
“O Brasil estava preparado para se atirar nos braços dos Estados Unidos da América do Norte e, provavelmente, sem consultar o Gabinete de Washington, revelou tal intensão ao Ministro Britânico”.[4]
            Afastado da sua função da Legação ele volta agora para sua única ocupação de Capelão dos Marinheiros, mas em momento algum perde suas aspirações sociais e missionárias. 
Feira Industrial
            Em 1853 sua esposa Henriette Fletcher, após o nascimento do segundo filho, fica muito adoentada e após vários tratamentos infrutíferos eles são aconselhados pelo médico a se mudarem para um clima mais frio. Apesar de suas dificuldades financeiras Fletcher consegue embarcar no navio Yankee Blade, de volta aos Estados Unidos via costa oeste, passando por Valparaíso, Colômbia e Panamá, onde faz baldeação e toma outro navio até New York (Fletcher e Kildder, p.239).
            Pouco tempo depois estavam morando em Washington. Fletcher encontra a Capital ainda em efervescência com as noticias daqueles acontecimentos envolvendo a diplomacia americana e brasileira. Um ano antes havia chegado a Washignton Francisco Inácio de Carvalho Moreira, conhecido mais tarde por Barão de Penedo, que assumira como Ministro Plenipotenciário brasileiro. O Ministro diariamente procurava quaisquer informações escritas sobre o Brasil e imediatamente respondia junto ao Departamento de Estado americano protestando contra qualquer insinuação de invasão do Amazonas, incluindo as pseudas expedições que não tinham outro objetivo a não ser invadir aquela região brasileira.
            Em 1854 Fletcher está pronto para retornar ao Brasil e agora vem como o primeiro agente nomeado pela Sociedade Bíblica Americana para o Brasil. Mas fiel à sua visão missionária e progressista se propõe a realizar uma exposição industrial de produtos americanos, no rio de Janeiro. (Fletcher e Kidder p. 239).
            Anuncia nos jornais americanos que levaria para expor no Brasil, sem qualquer custo para os doadores, artigos que fossem enviados ao seu endereço. Ele diz que estes artigos seriam posteriormente presenteados ao Imperador D. Pedro II, bem como as associações literárias e científicas brasileiras. Seu apelo foi bem sucedido e ele recebeu inúmeros artigos manufaturados para serem usados em sua Exposição no Rio de Janeiro.
            Uma companhia de navegação de Baltimore lhe forneceu passagem e frete gratuitos e o então Ministro brasileiro em Washington, Carvalho Moreira, deu-lhe uma apresentação que liberou sem transtornos alfandegários as mercadorias que seriam expostas no Brasil. (Fletcher e Kidder p.239-240).
            Em 16 de Maio daquele ano a Exposição promovida por Fletcher foi inaugurada no espaço do Museu Nacional com a presença do próprio Imperador D. Pedro II, e uma grande comitiva, que examinaram atentamente todos os artigos trazidos. A exposição industrial ficou aberta para o público por dois dias e foi um grande sucesso.
Ferrovias
            Em seu esforço em ver o “progresso” brasileiro, Fletcher divulga e informa aos responsáveis pela nascente estrada de ferro que havia uma locomotiva de fabricação americana que suportaria aclives íngremes, facilitando assim o avanço deste fundamental transporte para o desenvolvimento da economia brasileira. Com necessidade de retornar aos Estados Unidos, procurou de todos os meios atrair o Barão de Mauá àquele país (Fletcher e Kidder p. 302), mas o Barão tinha grande ligação com os ingleses. Apesar disto, sem que se possa precisar se foi de fato o esforço de Fletcher, o então presidente da Estrada de Ferro Dom Pedro II, convidou o americano Coronel C.F.M. Garnett para assumir a função de engenheiro chefe daquela linha. Deste modo, a linha tornou-se inteiramente “americanizada” não apenas pelo pessoal, mas porque o material rolante era todo de fabricação americana (Bastos – Cartas, p.513; Fletcher e Kidder p.302).
Agricultura
            De uma forma muito interessante Fletcher trouxe uma enorme contribuição para a agricultura cafeeira brasileira. Em 1862 conseguiu atrair para o Brasil John H. Lidgerwood, neto do fundador da Lidgerwood Manufacturing Company de New York, que veio com o objetivo de solicitar concessões para vender sua máquina de despolpar café. Por intermédio dele o industrial teve acesso direto ao Imperador Dom Pedro II, que impressionado pela utilidade da máquina autorizou a concessão, registrando inclusive em seu diário. Ao menos em seus primeiros anos a máquina de Lidgerwood foi de grande influência na economia cafeeira do Brasil. Em uma de várias viagens que Lidgerwood fez pelo pólo cafeeiro das então Províncias do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais ele declara a um jornal de língua inglesa no Rio de Janeiro, que os fazendeiros “tinham haurido tanto benefício do uso de suas invenções e melhoramentos e lhe tinham demonstrado reconhecimento pelos serviços que havia prestado ao grande produto do Império” (The American Mail, Rio, 24 de fevereiro de 1862).
            Fletcher também trouxera nesta sua vinda um grande suprimento de sementes de algodoeiro das ilhas de Barbados, como também milho de excelente qualidade que era amplamente cultivado nos estados sulistas americano, doando tudo ao Instituto Brasileiro de Agricultura. Impressionado pelo esforço de Fletcher o imperador Dom Pedro II registra este acontecimento em seu diário (Diário do Imperador, p. 166).
Jazidas de Carvão
            Um dos gargalos da recente e progressiva industrialização brasileira era a questão energética. Havia uma grande carência de grandes depósitos de carvão mineral de boa qualidade no território nacional. Fletcher havia feito amizade com um geólogo inglês chamado Nathaniel Plant que desde 1861 estava nas regiões do Rio Grande do Sul fazendo explorações pelas bacias dos Rios Candiota e Jaguarão. Este geólogo havia localizado alguns depósitos de carvão que depois de várias análises haviam demonstrado serem extensos e de boa qualidade. Uma carta do Professor Agassiz ao geólogo garantia que as amostras de carvão que tinha examinado podiam tranqüilamente serem comparadas as melhores do mercado internacional (Fletcher e Kidder, Apêndice D, pp.384-396). Fletcher não perdera tempo e usando de toda a sua influência palaciana consegue marcar uma audiência do geólogo Plant com o próprio Imperador e pessoalmente o conduziu ao palácio (Fletcher e Kidder, ibid., 617-623; Carta de Fletcher a Dom Pedro II, Rio, 13 de Agosto de 1864). Um relatório desta pesquisa de Plant foi publicado na revista inglesa Quartely Journal of Science, V.II, de abril de 1864.
            Resumidamente essas são algumas das contribuições de missionário presbiteriano estadunidense em relação ao Brasil que ele escolheu amar e semear a mensagem evangélica da forma protestante. Lamentavelmente somos obrigados a registrar que apesar de tão grandes esforços o trabalho de Fletcher ficou fora dos anais da historiografia presbiteriana e mesmo protestante produzidos no Brasil.
           

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
me.ivanguedes@gmail.com
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Referências Bibliográficas
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LÉONARD, Émile-Guillaume. O protestantismo brasileiro – estudo de eclesiologia e de história social, 2ª. ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JUERP/ASTE, 1981.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga - o protestantismo e a sociedade brasileira. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.
OLIVEIRA, D. V. “The Brazil and The Brazilians”: Apontamentos documentais e analíticos de uma publicação norte-americana sobre o Brasil no século XIX. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.
_______________. A “sólida e estável” Monarquia nos Trópicos: Imagens sobre o Brasil e os Brasileiros no livro Brazil and Brazilians – portrayed in Historical and descriptive sketches, 1857.Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2013.
PRATT, Mary Louise. Os olhos do Império: Relatos de Viagens e Transculturação. Bauru: EDUSC, 1999.
REILY, Ducan Alexander. História documental o protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 1984.
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã – IPC, 2009.
VIEIRA, David Gueiros. O Protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil, 2ª. ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1980.





[1] Journal of Commerce, New York, 6 de Setembro de 1862.
[2] IHS-CFP, Carta nº 493 (cf. David Gueiros Vieira, op. Cit. P.63)
[3] “O nome de Fletcher desapareceu completamente da lista diplomatica da Corte Imperial do ano de 1854”. Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e da Província do Rio de Janeiro (Rio: Eduardo e Henrique Laemmert, 1854), p. 193 (cf. Vieira, op. Cit. p. 64).
[4] New York Daily Times, New York, 3 de janeiro de 1853. (cf. Vieira, ibid., p.64).

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Ascensão da Igreja Cristã: Uma Tomografia Parcial da Igreja Cristã no Período Antigo (30-313 a.C.)


Escalada Social: Paulatinamente a mensagem cristã foi alcançando as camadas mais elevadas da sociedade imperial. Muitos cristãos acabam ocupando funções públicas de prestígio. Próximo do ano 200 d.C., Abgar, de Edessa, tornou-se o primeiro rei a declarar-se cristão e em 311, Constantino adota o cristianismo como a religião, ainda que única, do Império. Os cristãos começam acumularem riqueza e as comunidades, prosperam e adquirem muitos bens materiais.
Adaptações Doutrinárias e Práticas: A igreja toma uma estrada que a conduzira para o período mais decadente e apostata de sua história nos séculos posteriores da idade média. A simplicidade de seus cultos e das vestimentas de seus líderes foi sendo paulatinamente substituídas pelas vestimentas esfuziantes das religiões pagãs de Júpiter, Serapis e Ísis tão populares em Alexandria na idade teocrática anterior. As liturgias simples centradas na pregação, nas orações e na comunhão, se transformam em cerimônias sofisticadas, centralizadas cada vez mais no sacerdote, no altar e na celebração da missa sacrificial. Criam-se artifícios como água benta, acender velas, raspar a cabeça, ao invés de incentivar os cristãos a uma vida de obediência aos princípios do Evangelho de Cristo.
 Mudando o significado do batismo cristão: ainda cedo se iniciou um processo degenerativo do significado do batismo revestindo-o de um poder mágico. O ato até então simples de obediência à ordenança de Jesus Cristo, vai adquirindo todo um ritual cada vez mais complexo, como descrito no documento primário da Didaquê, o primeiro manual de catecúmenos para novos cristãos:
Agora em referência ao batismo, batizai assim: havendo primeiramente pronunciado todas estas coisas, batizai em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, em água corrente. Mas se não tiverdes água corrente, batizai em outra água, e se não puderdes batizar em água fria, então batizai em água morna. E. se não tiverdes água suficiente para a imersão, derramai água em profusão sobre a cabeça três vezes, em nome do Pai, do Pilho e do Espírito Santo. Mas, antes do batismo, o ministrante e o candidato devem jejuar, e quaisquer outras pessoas que puderem; mas ao candidato, mandareis jejuar por dois ou três dias antes de ser efetuado o ato.
Desde Justino Mártir (150 d.C.) a expressão “banho da regeneração” começou a ser utilizado em referência ao batismo. E nos escritos ante-nicenos o vocábulo “regenerar” foi sendo associado diretamente ao ato do “batizar”. 
No fim desse período, a ceia podia ser celebrada somente pelo bispo ou sacerdote. Consistia de pão e vinho (misturado com água).
Catecúmeno: Inicialmente a pessoa recebia o batismo mediante sua profissão de fé e isso perdurou até o meado do segundo século. Com a multiplicação de cristãos sentiu-se a necessidade de oferecer melhor instrução aos novos convertidos, ensinando-lhes as doutrinas fundamentais da igreja. A proposta foi boa, mas infelizmente o resultado foi funesto, pois na medida do tempo a “educação religiosa” passou a substituir o testemunho de uma genuína regeneração, abrindo as portas das igrejas a pessoas que nunca experimentaram a graça de Deus, contribuindo para uma acelerada corrupção da igreja. [o século XVI que o diga].
Mudanças Eclesiásticas: Junto com a mudança da vida cristã, ocorrem também mudanças no ministério e na organização das igrejas. Até ao tempo de Irineu não havia distinção entre os títulos "presbíteros" e "bispos", sendo estes termos empregados como sinônimos. Entretanto, entre os cem anos de Irineu a Cipriano, passaram a designar duas funções distintas. A causa possível é que as igrejas haviam se desenvolvido e tornando suas administrações mais complexas, como por exemplo, a responsabilidade de recolher e distribuir esmolas, que adquiriu proporções consideráveis. Os bispos assumiram esta obrigação e gradualmente foram assumindo uma prerrogativa sobre o corpo de presbíteros, aos quais era confiada a direção das igrejas locais; diante das desavenças entre os presbíteros os bispos passaram a exercer o papel de juiz; paulatinamente caminha-se para um sacerdotalismo, tão comum nas demais religiões. Evidentemente que em sua origem os motivos que estabeleceram estas mudanças são genuínos, mas quando começou a ser empregado pelos sucessores menos dignos redundaram em grandes e lamentáveis abusos.
Mas ao final desse período, não apenas a distinção de presbíteros e bispos, mas outras funções surgem: subdiáconos, leitores, acólitos, zeladores e exorcistas.
Logo surge o conceito da unidade orgânica (externa) paralela à unidade espiritual (interna) como ensinada por Irineu, o que vai demandar uma liderança única sobre todos os demais, de maneira que depois de Cipriano (250) essa possibilidade torna-se cada vez mais real, dando-se os primeiros passos para uma supremacia da Igreja de Roma como centro da unidade de uma igreja universal.
A análise feita pelo escritor brasileiro Rui Barbosa, católico, na introdução de seu livro crítico “O Papa e o Concílio” realça o perigo nefasto dessa tendência de poder centralizador:
Durante a primeira época da igreja, debalde a crítica histórica procura na organização dela as leis e os elementos que hoje lhe servem de base. A unidade não resultava então senão de acordo espontâneo das almas; porque a cristandade era uma pura democracia espiritual, sem centro oficial, sem meios de coação, extrema, sem relações temporais com o estado. A noção pagã de um pontífice máximo seria nesses tempos uma enormidade tal que ainda ao papa Estevão (253-257) negou formalmente Cipriano o direito de sentenciar entre dois bispos divergentes. "Indigna-me", escrevia S. Firmiliano, "a estulta arrogância do bispo de Roma, com presunção de que o seu bispado é herança do apóstolo Pedro". A preponderância que na propaganda se permitia à moral sobre o dogma, deixava à ortodoxia uma latitude hoje inconcebível, e facilitava as reconciliações que o absolutismo unitário de uma autoridade individualmente infalível teria necessariamente impossibilitado. As boas obras eram então o melhor sinal de fé que se não traduzia em fórmulas artificiais, mas na comunicação íntima entre os dissidentes evitavam as cismas, que o refimento centralizador converteu depois em sucessos triviais e persistentes. A simplicidade dos dogmas, a ausência de cerimônias teatrais, a severa proibição das imagens, a pureza do ensino, o martírio dos confessores da fé, a submissão a todos os governos humanos, a aspiração a uma pátria estranha a este mundo, constituíam a mais decidida antítese entre aquela comunidade, vinculada pelos laços morais, e o Catolicismo Romano fundado na ampliação arbitrária dos artigos de fé, nas pompas de um culto faustoso, no enfeitiçamento dos sentidos, no casuísmo, na intolerância, não somente dogmática, mas temporal, na insubordinação contra o poder civil, no pendor do sacerdócio a estabelecer neste mundo um reino seu. A direção dos crentes incumbia aos bispos, eleitos pelos fiéis, aos padres e diáconos; mas ainda assim, considerável era a participação da sociedade leiga no julgamento das questões que interessavam a fé comum. A igreja era o povo, não suplantado, mas livremente unificado ao sacerdócio (1930, p. 23).
Mundanismo: Um documento revelador é o chamado “Cânones dos Santos Apóstolos”, produzido provavelmente no final desse período: o mundanismo predominava entre o clero, pois muitos faziam parte da igreja, mas manifestavam um comportamento totalmente pagão; predominava a imoralidade; os templos cristãos se assemelham cada vez mais aos templos pagãos ricos e suntuosos; as primeiras imagens começam a serem inseridas nos templos com a explicação de que era para substituir as adorações politeístas pagãs.
Analfabetismo: A maior parte dos cristãos continuou no analfabetismo, pois o ensino do catecismo se dava na forma oral/memorização. Poucos membros frequentavam as escolas pagãs. Assim perpetuava-se a liderança daqueles que detinham o conhecimento em detrimento da grande massa de cristãos que permanecia na ignorância literária. Houvesse o cuidado com a alfabetização dessa maioria e certamente a História Cristã que conhecemos seria totalmente diferente. Somente no século XVI com o advento da Reforma Protestante é que os seus diversos segmentos haverão de investir fortemente na educação de seus membros, principalmente as crianças. 
Ascetismo: Muitos cristãos diante do quadro decadente de suas lideranças eclesiásticas e tomados pelo sentimento de desesperança em ver a sociedade salva, buscam uma alternativa para si optando por uma vida ascética de renúncia: ao casamento [um celibato voluntário], comer carne, beber vinho. Nesse primeiro momento ainda permanecia vivendo na sociedade, porém, mais tarde começaram a abandonar o “mundo” retirando-se para os desertos e florestas.
Não devemos generalizar que toda a cristandade estivesse tão corrompida. Uma expressiva parcela da liderança e dos cristãos permanecia firme lutando sinceramente por uma vida cristã autentica sem essa tibieza de moralidade, tanto de costumes como de práticas, com apontamos ao referenciar alguns dos movimentos internos. Além disso, o cristianismo conseguiu restringir o divórcio, abolir a pratica de infanticídio, valorizar o casamento e a vida familiar e restringir ao máximo as condições desumanas dos escravos, beneficiando não apenas as comunidades cristãs, mas a sociedade como um todo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas
ARAÚJO, C. B. R. de. A igreja dos Apóstolos: Conceito e forma das lideranças na Igreja Primitiva. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio de Janeiro: Record, 1997.
AZEVEDO, Antônio Carlos do Amaral e GEIGER, Paulo. Dicionário histórico de religiões. Rio de Janeiro:  Nova Fronteira, 2002.
BARNES, Timothy D. Constantine and Eusebius. Cambridge: Harvard University Press, 1981.
BERNARD SESBOUE, SJ (Direção). O Deus da Salvação – séculos I a VIII. Tradução Marcos Bagno. São Paulo: Edições Loyola, 2005, 2ª ed. [História dos Dogmas, Tomo 1].
BETTENSON, Henry. Documentos da Igreja Cristã. São Paulo: Aste, 2011.
BURNS, E. M. História da Civilização Ocidental. Vol. 1. 44. ed. São Paulo: Globo, 2005.
CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.
CANART, P. Livro. In: BERARDINO, A. Dicionário patrístico e de antiguidades cristãs. Petrópolis: Vozes, 2002.
CESARÉIA, Eusébio de. Vida de Constantino. Tr. Martín Gurruchaga. Madrid: Gredos, 1994.
FRANGIOTTI, R. História das heresias. São Paulo: Paulus, 1995.
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______________. História ilustrada do cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.
KÖSTENBERGER, A.J.; KRUGER, M. J. A Heresia da Ortodoxia. São Paulo: Vida Nova, 2014.
LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.
PELIKAN, Jaroslav. A tradição cristã: uma história do desenvolvimento da doutrina. Vol. 1. O surgimento da tradição católica (100-600). São Paulo: Shedd Publicações, 2014.
STARK, R. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006.
VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.


domingo, 31 de dezembro de 2017

O respeito à lei e à ordem: presbiterianos e o governo militar 1964 – 1985 - Tese (Doutorado)


RESUMO
Este trabalho estuda o apoio da Igreja Presbiteriana do Brasil ao governo militar. Essa sustentação ideológica pode ser entendida como parte da disputa por espaço no campo religioso brasileiro, enfrentando, principalmente, o catolicismo. O apoio ao governo militar foi também parte da estratégia de participar das transformações pelas quais o país deveria passar para se tomar um país avançado. Esse progresso seria alcançado pela adoção da verdadeira religião que os presbiterianos ofereciam aos brasileiros. Nesse sentido, a aprovação aos militares é resultado de sua herança teológica e ideológica. O presbiterianismo veio dos Estados Unidos da América do Norte e em seu bojo vieram o pensamento liberal e o fundamentalismo teológico, dois elementos essenciais para prover a base ideológica do apoio ao governo militar. A sustentação e o aplauso estiveram presentes nas páginas do jornal oficial da Igreja, Brasil Presbiteriano, e em diversas decisões conciliares, desde 1964, mas especialmente após a reunião de 1966, quando o grupo fundamentalista ascendeu ao poder. No entanto, houve um grupo de oposição ao governo eclesiástico estabelecido em 1966, cuja linha teológica e ideológica podería representar oposição ao regime militar. A disputa entre as duas partes não aparecia como disputa ideológica, mas sim puramente teológica. As idéias desse segundo grupo se mostram nas críticas que o jornal oficial da denominação fazia, nas decisões conciliares e, principalmente, no próprio jornal criado como órgão de debate e oposição, o Jornal Presbiteriano. O ecumenismo, com o pensamento da responsabilidade social da igreja e o movimento evangelical, com o conceito de missão integral, eram idéias correntes desse grupo. Esses conceitos recebiam a acusação de esquerdismo e comunismo, demonstrando um tipo de pensamento que poderia não dar apoio aos militares tão facilmente, embora o grupo não tenha se manifestado de forma clara e objetiva sobre o tema.

Palavras-Chave: 1. Presbiterianismo no Brasil 2. Governo militar 3. Religião e política.

SUMÁRIO
INTRODUÇÃO........................................................................11
CAPÍTULO 1 - Os problemas vitais do Brasil são essencialmente os problemas vitais do evangelismo......................................................58
1.1      A         economia...................................................................60
1.2      A         questão da terra...........................................................66
1.3      Movimentos populacionais.....................................................70
1.4      A         Educação...................................................................74
1.5      A         educação para os presbiterianos............................................77
1.6      Ação e reação da Igreja Católica.............................................81
1.7      A presença protestante no Brasil e a disputa por espaço no campo religioso....85
1.8      Efervescência cultural.......................................................91
1.9      Preparação do golpe e os militares no poder..................................96
1.10    A importância da influência norte-americana no golpe militar................99
1.11    Conflito ideológico-teológico pré-1964 na        IPB..............................103
CAPÍTULO 2 - Os verdadeiros cristãos se regozijaram com a gloriosa revolução.............110
2.1      Protestantismo e Liberalismo................................................110
2.2      Protestantismo e Fundamentalismo............................................120
2.3      No impacto do golpe.........................................................126
2.4      O Supremo Concilio de 1966..................................................140
2.5      “A afirmação de respeito à lei e à ordem”          após   1966....................149
2.6      A consolidação do apoio.....................................................152
2.7      Pentecostalismo e reação presbiteriana......................................159
2.8      O jornal Brasil Presbiteriano e o discurso         anticomunista....................162
2.9      O fim do governo militar....................................................170
CAPÍTULO 3 - Uma igreja ameaçada.................................................173
3.1      Uma oposição “pouca e rouca”................................................176
3.2      O Jornal Presbiteriano......................................................179
3.3      A discussão sobre a questão da Bíblia e suas traduções......................192
3.4      “O Supremo Concilio que eu vi”..............................................196
3.5      Divulgação de Documentos Conciliares........................................203
3.6      Embates na Justiça..........................................................210
3.7      Questões teológicas.........................................................216
3.8      Outras avaliações e crítica da situação.....................................218
3.9      O Pentecostalismo...........................................................221
3.10    Também o anticomunismo.....................................................223
3.11    Ação social................................................................224
3.12    Demonstração de patriotismo................................................226
3.13    Ecumenismo.................................................................229
3.14    Também espaço para os fundamentalistas: tolerância.........................233
3.15    AFENIP.....................................................................234
CONSIDERAÇÕES FINAIS         235
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS      244
ANEXOS       261
ANEXO 1 - MEMORIAL dirigido aos crentes Evangélicos de todo o Brasil           261
ANEXO 2 - Capa do livro da “Conferência do Nordeste”       264
ANEXO 3 - Pronunciamento Social da Igreja Presbiteriana do Brasil        265
ANEXO 4 - Última página do Brasil Presbiteriano de 15 de maio de 1966   268
ANEXO 5 - Capa do livro O "Evangelho Social” E a Igreja de Cristo          269
ANEXO 6 - Discurso de posse do Presidente do Supremo Concilio          270
ANEXO 7 - Primeira página do JORNAL PRESBITERIANO, janeiro de 1975              273
ANEXO 8 - Manifesto do Presbitério de Campinas     274
ANEXO 9 - Documentos da Atibaia        282
ANEXO 10-0 Boletim Dominical, a circulação de idéias e a vida cotidiana           286

Souza, Silas Luiz de.  O respeito à lei e à ordem: presbiterianos e o governo militar 1964 - 1985.
Orientador: Prof. Dr. Milton Carlos Costa
Tese de Doutorado – Faculdade de Ciências e Letras de Assis – Universidade Estadual Paulista – 2013.

Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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