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sábado, 23 de novembro de 2013

IMPLANTAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO PRESBITERIANISMO EM SÃO PAULO

A cidade de São Paulo já demonstrava seu potencial econômico e sua força no desenvolvimento político do país no inicio do século XIX. Neste período a cidade experimentava um crescimento populacional e material bastante expressivo, iniciando um processo de urbanização que haveria de se intensificar cada vez mais.
O novo momento de São Paulo não tinha nada a vê com seus primeiros anos, quando, depois ter sido fundada, em 1554, permaneceram três longos séculos à margem da economia colonial e imperial. Isolada no alto da Serra do Mar, a vila, que só se tornou cidade em 1711, havia sobrevivido todo esse tempo da lavoura de subsistência, da escravização de índios e das expedições bandeirantes. (ARAUJO, 2006, p. 11). Ainda que tenha sido a capitania hereditária responsável pela expansão territorial e o povoamento de quase todo o interior do Brasil.
A causa primária do deslocamento econômico e político do Rio de Janeiro, até então capital do Império, para São Paulo foi sem duvida alguma o desenvolvimento do setor da industrialização do café no Oeste paulista e suas inovações no setor de comercialização do produto. A riqueza gerada pelo “ouro verde” conforme ficou denominado o café, alavancou a acelerada urbanização e a industrialização da cidade.
A partir da década de 1870,[1] São Paulo tornava-se um lugar privilegiado das transformações socioeconômicas, urbanísticas, físicas e demográficas. Bem no meio da prosperidade crescente da lavoura cafeeira e das tensões ligadas à crise final da escravidão no país, a cidade se transformava de forma acelerada na “metrópole do café”. Todo esse conjunto de fatores implicou, por sua vez, em alterações profundas nas funções e espaços da cidade, em favor de um maior controle e racionalização, de modo a assegurar para São Paulo o importante status de entreposto comercial e financeiro privilegiado para as relações entre a lavoura cafeeira paulista e o capital internacional. (LEMOS, 1989, Apud HENRIQUES, 2011, p. 364) [2]
As linhas férreas, que ligavam o interior da província ao porto de Santos, por onde escoavam as safras, e posteriormente expandiram-se por todo o Estado[3] tornaram-se rotas e lugares estratégicos para se propagar a mensagem evangélica e estabelecer as novas denominações protestantes, conforme indicado anteriormente neste trabalho.
Deste modo, São Paulo vai ocupando um espaço cada vez maior no destino da nação, como marco do tão desejado progresso. Em consequência ocorre uma reestruturação do poder, o que vai resultar no surgimento de tendências mais radicais que propunham a autonomia das províncias como solução para os muitos conflitos que insurgiam continuamente. Segundo Emília Viotti Costa os prósperos agricultores desta região oeste de São Paulo é um representativo desta postura: 

O caráter pioneiro, a mobilidade social, a prosperidade crescente favoreciam a difusão das ideias novas, desde que elas significassem uma promessa de satisfação dos anseios dos novos grupos e a possibilidade de ampliar a ação e o domínio. A ideia republicana oferecia essa perspectiva aos fazendeiros do Oeste Paulista que se sentiam lesados pelo governo imperial e que desejavam não só obter maior autonomia, como imprimir à vida econômica e política da nação as suas próprias diretrizes (1999, p.481).
Acredito que este espírito de autonomia e independência permeou logo cedo os jovens pastores presbiterianos nacionais, conforme os eventos sucessivos haverão de revelar.
Os primeiros missionários que passaram pela cidade de São Paulo, como Kidder e Fletcher, conforme citados em artigos anteriormente, já pressentiam o grande potencial dela como importante na estratégia para o desenvolvimento do protestantismo no Brasil.
Tendo conhecimento destas informações sobre o potencial da cidade, bem como da boa receptividade para com a mensagem evangélica protestante, Simonton ainda em seus primeiros esforços missionários, empreende uma primeira viagem a São Paulo, conforme indica em seu registro do diário – São Paulo, 30 de dezembro de 1860 (Hotel da Itália): 

[...] Desde que cheguei aqui tenho-me alegrado na expectativa de encontrar um campo para pregação do Evangelho nesta cidade. [...] Já fiz todas as indagações possíveis; a maioria das opiniões é favorável à realização da tentativa, mas só se pode adquirir certeza experimentando. [...] Creio que se deve tentar. Se orando pela direção divina, minha opinião persistir, esforçar-me-ei para dar inicio ao trabalho. O clima aqui é bastante agradável e o custo de vida muito menor. Caso pudéssemos ocupar dois pontos, não hesitaria em estabelecer um em São Paulo, pois assim poderíamos também aproveitar a mudança de clima. [...] (RIZZO, 1962, p. 73).
Mas coube ao Rev. Alexander L. Bleckford a iniciativa pioneira de implantar e desenvolver o presbiterianismo na cidade paulistana. Após o retorno de A. G. Simonton dos Estados Unidos em 16 de julho de 1863, o reverendo Blackford recebeu autorização da Junta Missionária Norte Americana para dar início ao trabalho missionário na Província de São Paulo.[4]


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Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião
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______________
[1] A cidade de São Paulo em que D. Pedro I se hospedou e que foi palco da proclamação da Independência do Brasil,  na descrição do historiador Afonso A. de Freitas, era tão somente: "...uma pequena cidade, quase aldeia, acanhada e de ruas pouco extensas, estreitas e tortuosas. Abrigava na área urbana somente 6.920 habitantes e incluindo sua zona rural não ultrapassaria 20.000 moradores. Desde esta época a cidade revela sua vocação para participar dos grandes momentos da História do país, com sua elite provinciana orgulhosa que, "apesar do isolamento, acompanhava com interesse as grandes transformações na Europa e nos Estados Unidos. ....os paulistas do começo do século 19 estavam longe de serem todos matutos ou caipiras." (GOMES, Laurentino. 1822 - como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil - um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010, p. 103). 
[2] Maria Lucília Viveiros Araújo em seu excelente livro “Os caminhos da riqueza dos paulistanos na primeira metade do Oitocentos” (2006), a partir de sua tese de doutoramento, orientada pelo Prof. Dr. Nelson Hideiki Nozoe, reformula o mito da pobreza paulistana na primeira metade do século XIX, pois segundo ela o ciclo do açúcar também se fez acompanhar de uma série de atividades econômicas complementares e paralelas gerando riqueza e progresso. Herança da historiografia tradicional, esse mito, que prevaleceu até a década de 1960-70, costumava opor a pobreza paulistana à opulência trazida com o boom do café, sugerindo a existência de um corte profundo entre os dois ciclos.
[3] “O fenômeno das estradas de ferro foi sem dúvida o mais importante, do ponto de vista da irradiação de um certo padrão de vida urbana, de capitalização e de articulação do resto da Província com São Paulo e com os principais centros mundiais. Dele participaram capitais internacionais, mão de obra nacional e de imigrantes, além de iniciativas das lideranças locais. A Companhia Paulista (empresa brasileira particular), ligando a São Paulo as cidades de Jundiaí, Campinas, Limeira, Rio Claro e Descalvado; a Companhia Ituana, chegando a Piracicaba; a Sorocabana, em direção a Sorocaba, Ipanema e Tietê; a Mojiana, abrangendo de Campinas a Mogi-Mirim, Amparo, Casa Branca, Ribeirão Preto e Poços de Caldas (incorporando o Sul de Minas à esfera econômica de São Paulo) demarcariam o novo sistema econômico-social, com fortes implicações políticas regionais e nacionais”. (MOTA, 2004, p. 14)
[4] Desde o primeiro momento outros dois nomes estão vinculados diretamente a implantação e desenvolvimento do presbiterianismo em São Paulo e outras cidades do interior e do litoral paulista, são eles Francis Joseph Christopher Schneider, alemão de origem, mas naturalizado norte-americano, e que se tornou o terceiro missionário presbiteriano no Brasil e George Whitehill Chamberlain que visitando o Brasil e tomando conhecimento do trabalho realizado por Simonton e Blackford sente-se compelido a permanecer e participar desta obra, e posteriormente sua esposa Mary Ann Annesley.

sábado, 16 de novembro de 2013

PERSONAGENS DO PROTESTANTISMO - Calvino


Nascimento:           10 de Julho de 1509 - Noyon, Picardia - França
Morte:            27 de maio de 1564 (54 anos) - Genebra, Cantão de Genebra - Suíça.
Nacionalidade:       Francesa
Cônjuge:      Idelette de Bure (morreu em  29 de Março de 1549 em Genebra - Suíça)
Principais trabalhos:        Institutas da Religião Cristã
Escola/tradição:     Calvinismo

João Calvino se tornou um dos mais importantes personagens da grande Reforma Religiosa, também conhecida como Reforma Protestante, que ocorreu no século 16 e transformou radicalmente não apenas a Igreja Cristã Ocidental, mas todas as esferas da sociedade. Os efeitos destas mudanças ainda hoje podem serem facilmente percebida e continua a produzir impactos sociais através da multiplicidade das denominações evangélicas resultantes daquela Reforma.
          Sendo francês de nascimento foi batizado com o nome de Jean Cauvin que transliterado para o latim “Calvinus” deu a origem ao nome "Calvino", pelo qual se tornou conhecido. Mas apesar de francês é na Suíça, mais propriamente na cidade de Genebra, que ele vai se constituir em uma das influências mais preponderante tanto em intensidade quanto em extensão do movimento reformador.
            Calvino tem sua formação acadêmica originalmente na área do Direito e participa com empenho do movimento denominado humanista e não chegou a ser ordenado sacerdote. Ainda na França envolve-se com o movimento reformista [entre 1532 e 1533] iniciada por Lutero na Alemanha.[1] 
Sua chegada em Genebra vai ocorrer, quase acidentalmente, somente em (1536) onde é constrangido a permanecer pelo reformador Guillaume Farel e este acontecimento mudará completamente sua vida e sua obra, bem como os desdobramentos do movimento reformado. A cidade de Genebra tornou-se no transcorrer dos anos e sob a orientação e influência de Calvino em um dos maiores centros do protestantismo Europeu.
Sua obra mais teológica “As Institutas da Religião Cristã” cuja primeira edição (1536 – Basileia) antecede sua permanência em Genebra e se constitui na obra fundante do seguimento reformado que será denominado de calvinismo, ainda que ele sempre se posicionasse claramente contra esta nomenclatura.
O caso mais polêmico envolvendo a figura de Calvino em Genebra se relaciona ao caso de Miguel Serveto, cientista e reformador, condenado a morrer na fogueira por suas ideias teológicas pelo Conselho de Genebra no qual Calvino tinha naquele momento grande influência. Apesar de receber todo o ônus desta execução, Calvino havia consultado outros líderes  reformados da Alemanha e da Suíça, que deram amplo aval para que a sentença fosse promulgada.
Uma das preocupações de Calvino foi com a questão da educação da qual ele foi um dos pioneiros do ensino obrigatório e das escolas públicas. Iniciou o que ficou conhecido como Academia de Genebra (1559) e que foi a fonte aonde centenas de reformados exilados em Genebra estudaram e retornaram aos seus países de origem onde implantaram os princípios ali apreendidos. A influência de sua teologia e estrutura eclesiástica representativa, denominada de presbiteriana, pela qual a comunidade (igreja) seria administrada por um Conselho de presbítero eleitos pelos membros, espalhou-se por diversos países e regiões: países Baixos (Bélgica e Holanda), Inglaterra, Escócia (o primeiro país a adotar o sistema presbiteriano de igreja, bem como a teologia calvinista) e Estados Unidos, que foi colonizado pelos diversos grupos dissidentes dentro da IgrejaAnglicana (Inglesa), que em sua maioria adotavam o sistema calvinista. Serão missionários advindos dos Estados Unidos que implantaram as denominações reformadas no Brasil.



Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
ivanpgds@gmail.com
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Referências Bibliográficas

CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia, v. 1. São Paulo: Hagnos, 2006. 
MCGRANTH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
           





[1] Martinho Lutero escreveu as suas 95 teses em 1517, quando Calvino tinha oito anos de idade.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

FICHÁRIO [Dissertação] Origem da Igreja Cristã de São Paulo e a contribuição de alguns de seus membros para a formação da FFLCH/USP

Rev. Othoniel Motta
Implantado no Brasil em 1859, com a chegada de A.G. Simonton, o Presbiterianismo, na sua histórica trajetória, passou por embates internos que não o fizeram soçobrar. Em 1903, um primeiro Cisma fez surgir a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, que saía da Igreja Presbiteriana do Brasil (Igreja Cristã Presbiteriana). No final da década de 30 do século passado, um novo conflito, de ordem  teológica, abalou a vida da IPB. Desta feita, seu objeto e seus debates se centravam na doutrina das "Penas Eternas", que desembocaria, em fevereiro de 1942, em uma nova ruptura. No grupo de membros que agora deixava a IPIB havia duas facções; uma conservadora outra modernista ou liberal. Estes se organizaram a Igreja Cristã de São Paulo, de membresia intelectualizada;  aqueles formaram a Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil, naturalmente de cunho ortodoxo. Esta dissertação, após estudar estes fatos, também trata da contribuição de alguns membros da ICSP à educação e cultura, especialmente como professores da Universidade de São Paulo.






Palavras-chave: História; História da Igreja; Presbiterianismo; Intelectualismo; Confessionalismo; Penas Eternas; Liberalismo Teológico; Fundamentalismo Teológico; educação; Influência; Liberdade de Religião.






COSTA, Flávio Antônio Alves da. Origem da Igreja Cristã de São Paulo e a contribuição de alguns de seus membros para a formação da FFLCH/USP - uma expressão de liberdade religiosa. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2007. [Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira].


FICHÁRIO [Dissertação 004]

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

VERBETE - "Protestantismo"

O termo "protestantismo" esta ligado historicamente à grande Reforma Religiosa produzida no século 16 e que recebeu a alcunha de Protestante em decorrência do momento de ruptura dos Príncipes alemães que se posicionaram a favor das teses propostas por Martinho Lutero que propunha uma reforma na Igreja Cristã. O movimento protestante expandiu-se rapidamente por diversos países e outras figuras somaram à de Lutero, como de Zwínglio e João Calvino, na Suíça. Forma-se então duas expressões protestante: o Luteranismo, que mantém as propostas de Lutero e o Calvinismo que adota as formulações teológicas de Calvino. Na Inglaterra a reforma religiosa veio não pela via teológica mas pelos instrumentos políticos dentro dos interesses do rei Henrique VIII, mas após diversas reviravoltas foi somente no reinado de Elizabeth I que se estabeleceu definitivamente as bases teológicas e eclesiásticas Igreja Anglicana, que fica no meio entre as propostas dos reformadores (inicialmente luterana e posteriormente calvinista) e o próprio catolicismo, denominada de via média. Dentro do anglicanismo surgem movimentos divergentes da via média, pois exigiam uma reforma mais radical com o catolicismo e ficaram conhecidos como Puritanos, que tornou-se um guarda-chuva para agrupar alguns movimentos de influência teológica calvinista denominados de presbiterianos, que defendiam um governo eclesiástico representativo através da eleição de presbíteros; os congregacionais que defendiam um governo eclesiástico gerido pelas assembleias; os batistas que defendiam que o batismo deveria ser exclusivamente por imersão; posteriormente surge ainda na Inglaterra o movimento metodista, com influência da teologia arminiana, divergente das postulações calvinistas. Não encontrando espaço amplo para expressarem suas propostas estes grupos iniciam uma emigração maciça para a chamada Nova Inglaterra que após a Independência torna-se os Estados Unidos da América. Já transmutadas em novas igrejas e/ou denominações estas dissidências se expandem além das fronteiras americanas e nos anos finais do século 19 começam a se transplantarem para a América Latina e para o Brasil. Os metodistas, congregacionais, presbiterianos e batistas, juntamente com os anglicanos e luteranos, haverão de compor o chamado protestantismo brasileiro histórico. Assim, quando se utiliza o termo "protestantismo" no Brasil é uma referência histórica a este conjunto de denominações acentuadamente de orgiem inglesa e americana, com uma pitada alemã luterana. Em  um momento historicamente posterior o termo "protestantismo" no Brasil vai abrangendo os mais diversos movimentos evangélicos que vão surgindo no país e hoje muitos estudiosos tem utilizado a expressão "protestantismo brasileiro" para abranger toda esta gama de denominações cristãs não católicas estabelecidas no país.


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Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referências Bibliográficas

MENDONÇA, Antonio G.; VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo, Loyola, 2002.
CARTER, Lindberg. Reformas na Europa. São Leopoldo: Sinodal, 2001. [trad. Luís Henrique Dreher e Luís Marcos Sander].
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia, v. 5. São Paulo: Hagnos, 2006.
DREHER, Martin Norberto. A igreja latino-americana no contexto mundial. São Leopoldo: Sinodal, 1999. (Historia da Igreja; v. 4)
MATOS, Alderi Souza de. Fundamentos da teologia histórica. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. (Coleção Teologia Brasileira)
DUNSTAN, J. Leslie. Protestantismo. Lisboa, Verbo, 1980.

domingo, 10 de novembro de 2013

PROTESTANTISMO BRASILEIRO: Concisa Revisão Bibliográfica 2

Autores Brasilianistas

     Como visto no artigo anterior, a historiografia do protestantismo brasileiro é deficitária, todavia, este panorama esta sendo alterado de forma paulatina e positivamente. Ainda que de forma limitada verificaremos que há um crescente interesse em resgatar a importância desta forma religiosa cristã que ultrapassou os 150 anos de presença no país e que estatisticamente tem expandido suas fronteiras a cada recenseamento, de maneira que não é mais possível ignora-la ou trata-la como um fator irrelevante na formação da sociedade brasileira. Lembrando que esta ignorância ou esquecimento histórico não é de todo casual, mas contém um forte ingrediente politico e ideológico, visto que a predominância católica na consciência brasileira somente agora começa ser rompida.

     Os três primeiros trabalhos de teor acadêmico que demarcam uma mudança de paradigma na pesquisa religiosa brasileira em que o protestantismo começa a ser tratado como um fator social importante é realizado por dois brasilianistas – Émile G. Léonard e Richard Graham, estes mais conhecidos, e um terceiro William Read menos citado.

     O primeiro deles, Léonard, escreveu uma obra importante “O Protestantismo Brasileiro” no sentido de ser a primeira a ser escrita para “fora”, ou seja, ele escreve visando um público fora dos guetos religiosos protestantes. Ele era francês e veio ao país para lecionar na cadeira de História da Universidade de São Paulo (USP), era um acadêmico prestigiado e não era pastor. Desta forma, seu trabalho foi originalmente publicado, ainda na década de cinquenta, em oito números da Revista de História da Universidade de São Paulo[1], portanto, dentro da academia, e somente em 1963 terá sua primeira edição em formato de livro. Esta obra, até pela ausência de outras, veio a se constituir em referência obrigatória para os protestantes brasileiros, o que acabou restringindo suas propostas ao contorno eclesiástico. Sua proposta de “um estudo de eclesiologia e história social” não foi plenamente concretizada, provavelmente pelo pouco tempo em que ele morou no Brasil de apenas três anos, o que limitou sua capacidade de aprofundar-se na história do Brasil e assim fazer os links sociais e culturais do protestantismo desenvolvido no país. Apesar de já ter sido utilizada é a partir desta obra de Léonard que a expressão “protestantismo brasileiro” passa a ser utilizada para expressar o cristianismo não católico no Brasil.

     O segundo foi Richard Graham que vai escrever uma obra importante para uma compreensão de como o protestantismo se estabelece no Brasil. Sua ligação com o nosso país vem desde final do século XIX, poucos meses antes da queda do Império, quando seu avô (1889) e posteriormente seu pai (1910) vieram desenvolver atividades missionárias. Sua obra “Grã-Bretanha e o início da modernização do Brasil” tem o mérito de identificar a índole e o espírito do protestantismo implantado aqui e que vai permear o pensar e o fazer protestante nacional. Ele destaca a bipolaridade da atuação dos ingleses na modernização do país: os aspectos econômicos, nas importações de máquinas e know-how para construção e expansão do parque industrial brasileiro e embutido nesta ação puramente comercial, os princípios religiosos protestantes acentuadamente o da salvação como sendo uma ação individual e não eclesiástica como no catolicismo. Para o autor ao menos duas características da pregação protestante permearam a sociedade brasileira e contribuíram para a modernização do país: o primeiro é positivo, a noção do valor e da liberdade do indivíduo; o segundo trás diversos aspectos negativos para a religião protestante que é o conceito de secularização, reforçando ou sendo reforçado pelo positivismo que por aqui também estava fortemente implantado e que a partir do advento da República torna-se permanente.

     Ainda em relação aos autores brasilianistas podemos incluir a importante obra “Fermento religioso nas massas do Brasil” (1967) de William Read, que trabalhou no Brasil pela Missão Presbiteriana do Brasil Central desde 1952. Ele levanta reflexões valiosas em torno do problema da expansão das denominações protestantes no Brasil, oferecendo diversos e importantes dados estatísticos bem como transcrição de documentos primários de grande importância para o pesquisador.



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Referências Bibliográficas

GRAHAM, Richard. Grã-Bretanha e o início da modernização do Brasil. São Paulo: Editora Brasiliense, 1973.
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
REILY, Duncan Alexander. História Documental do Protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 3a. edição, 2003.

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[1] Os originais, traduzidos pelo Prof. Linneu de Camargo Schützer, do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.

FICHÁRIO [Dissertação] A Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil - Uma questão doutrinária

A implantação do Protestantismo, particularmente do Presbiterianismo, em nossa Pátria foi iniciada pelo missionário Rev. Ashbel Green Simonton no ano de 1859. No quadro existente do século XIX, ainda que o Catolicismo romano estivesse desorganizado e quase na condição de abandono na Sé Romana, mesmo assim era a maior força religiosa. O Presbiterianismo de missão passa a ser um contraponto de opção para os patrícios.
A trajetória do Presbiterianismo, no seu longo processo de implantação, desenvolvimento e estruturação, é marcada por sucessos e rupturas internas. Em 1888, o Presbiterianismo torna-se autônomo administrativamente, dando origem a Igreja Presbiteriana do Brasil. Contudo, o Presbiterianismo não se mantém como um movimento protestante homogêneo  Em 1903, ocorre o primeiro cisma e assim surge, no cenário nacional brasileiro, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
Passados alguns anos, mais precisamente trinta e sete anos, é deflagrado um debate teológico dentro daquela igreja. Os debates representam as tendências e as correntes já existentes ali. O elemento que desencadeia a ruptura é a chamada doutrina das "Penas Eternas".
Além da "pedra de toque" apresentada acima, a presente dissertação apresentará outros aspectos que indiretamente contribuíram para a organização da Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil; e como esta Igreja se consolidou no cenário do Protestantismo nacional.


Palavras-chave: História; História da Igreja; Presbiterianismo de Missão; Intelectualismo;
Confessionalismo; Penas Eternas; Liberalismo Teológico; Fundamentalismo Teológico.


COSTA, Flávio Antônio Alves da. A Igreja Presbiteriana Conservadora do Brasil - uma questão doutrinária. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). São Paulo: Universidade Presbiteriana Mackenzie, 2007. [Orientador: Prof. Dr. Antonio Gouvêa Mendonça].


sexta-feira, 8 de novembro de 2013

PROTESTANTISMO BRASILEIRO: Concisa Revisão Bibliográfica 1

Historiografia Deficitária e Mudança de Perspectiva
Selo Comemorativo no Centenário do
Presbiterianismo no Brasil

     A expressão Protestantismo no Brasil ou Brasileiro por tão repetitivo nos trabalhos acadêmicos tornou-se uma referência genérica e fixada em um determinado período cronológico da historiografia brasileira que esgotou sua capacidade de interagir com a realidade da sociedade onde se estabeleceu.

     O protestantismo foi desde seus primórdios e continua sendo hoje uma presença relevante no Brasil, mas foi e continua sendo tratada com enorme indiferença pelas Academias com exceção da Sociologia e da Ciências da Religião, mas assim mesmo de forma bastante reducionista. A culpa em maior parte é dos próprios protestantes, que somente recentemente como veremos, começou de fato a valorizar a sua própria História no país e tem empenhado esforços em estabelecer as interações com a sociedade em que foram inseridos.

     Podemos facilmente perceber a enorme lacuna existente no que concerne a uma historiografia protestante no Brasil. Há pouco tempo começou-se a escrever de forma acadêmica e com maior grau de isenção os temas relacionados às denominações protestantes, como tão bem coloca Antônio G. Mendonça em sua importante palestra proferida no I Encontro de Historiadores em 2004, da Associação Brasileira de Instituições Educacionais Evangélicas (ABIEE), que entre outros temas trata sobre a historiografia protestante brasileira e elenca os três tipos de obstáculo que limitam este tipo de historiografia:

... primeiro, trazem, quase todas, as marcas do denominacionalismo triunfalista, assim como uma linguagem hermética de grupo porque são escritas para consumo interno; segundo, porque não dialogam com a cultura brasileira; terceiro, porque são publicadas por editoras domésticas e, por isso, não alcançam as áreas acadêmicas. Quando alcançam estas áreas, o fazem de maneira indireta ao servirem de material secundário para dissertações e teses que, no geral, são condenadas ao ostracismo das prateleiras daquilo que alguém chamou de “saber inútil”. (p. 03).

     Todos os pesquisadores da religião são unanimes em afirmarem que o inicio dos anos 1970 é o grande marco da produção no Brasil dos estudos acadêmicos sobre o protestantismo nacional.

     Ainda que haja diversos textos produzidos em períodos anteriores, estas obras possuíam um ranço eclesiástico, uma vez que seu alvo primário eram as próprias denominações, que as financiavam, e a defesa de suas respectivas posições histórico-teológicas. Outra característica desta literatura era enaltecer o esforço dos “heróis da fé”, ou seja, aqueles líderes ou pioneiros que implantaram trabalhos denominacionais em determinado lugar ou região do país[1].

     Nas palavras de Júlio Andrade Ferreira, historiador oficial da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), a historiografia protestante brasileira ainda que a partir de 1950 fosse quantitativamente crescente, no que tangia a qualidade tornava-se angustiante para os que pretendiam um estudo mais acadêmico, pois segundo ele “a um simples exame se apercebem do caráter apologético e pouco cientifico, pueril às vezes, da maior parte dessa imensa produção literária” (1959, v.1, p. 35).

     Isto não significa que esta abundante e diversificada produção denominacional (biografia, anais, epopeias, crônicas, historiografia) seja inócua e sem valor histórico, ao contrário, em todas elas encontram-se registro de fatos preciosos e indispensáveis à construção histórica, mas que em si mesmas não são capazes de produzirem uma compreensão da complexidade do protestantismo brasileiro.

     Uma mudança por parte da academia em relação ao protestantismo brasileiro começa a ocorrer na medida em que o pentecostalismo expande-se geometricamente em todo território brasileiro, principalmente os chamados da “segunda onda” (Freston, 1995, p. 120).[2]

     Outros dois aspectos importantes são o alinhamento das denominações evangélicas ao regime militar e a opção dos chamados progressistas ou liberais protestantes em se aproximarem e associarem aos movimentos católicos da libertação.

     Ao menos uma razão que contribuiu para esta pobreza acadêmica dos estudos do protestantismo brasileiro antes de 1970 é o fato de quase inexistirem centros de pós-graduação no país até o começo dos anos 1980. Na medida em que estes polos foram se multiplicando no Brasil corroborando com os fatos acima mencionados, a produção acadêmica tomou um novo e continuo impulso, como tão bem identifica Capellari em sua importante pesquisa sobre o desenvolvimento das religiões não Católicas no país e mais particularmente sobre a produção literária acadêmica referente a elas:

A relação entre o crescimento do número de adeptos e o repertório simbólico de tais religiões vai chamar a atenção da comunidade científica justamente nos anos setenta, ou seja, quando se estruturam, nas universidades, os programas de pós-graduação. (2001, p. 170).


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Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
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Próximo: Marco Referencial e Historiografia Acadêmica



Referências Bibliográficas

CAPELLARI, Marcos Alexandre. Sob o olhar da razão: as religiões não católicas e as ciências humanas no Brasil (1900-2000). Dissertação (Mestrado em Historia Social) Universidade de São Paulo: São Paulo, 2001.
FRESTON, Paul. Breve história do pentecostalismo brasileiro. IN: ANTONIAZZI, Alberto et al. Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo. 2ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994, p. 70.
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MENDONÇA, Antônio G. Palestra: Protestantismo no Brasil apontamentos sobre sua contribuição para a cultura brasileira – I Encontro para historiadores. São Paulo: ABIEE, 2004.

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[1] Esta prática continua sendo amplamente utilizada por líderes religiosos evangélicos que desejam infundir na mente de seus “membros/seguidores” uma imagem deles próprios. Atualmente Edir Macedo tem abusado deste expediente e tem utilizado os milhares de membros de sua respectiva denominação religiosa, bem como a mídia da sua rede de televisão, para alardear que se vendeu mais de um milhão de exemplares da segunda parte de sua “auto biografia”.
[2] Ele divide a história pentecostal em três períodos ou “ondas” [i.e., waves] e outros estudiosos também seguiram sua terminologia e demarcações de tempo (ex., Mariano, 2005, p. 28-32; Kramer, 2005, p. 97; Oro & Semán, 2001, p. 182).

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

PROTESTANTISMO BRASILEIRO: A Era do Trovão: poder e repressão na Igreja Presbiteriana do Brasil no período da ditadura militar (1966-1978)

A Igreja Presbiteriana do Brasil, de 1965 a 1978, foi marcada pelas sucessivas reeleições de Boanerges Ribeiro à frente do seu Supremo Concilio. Este período teve como características a repressão e a centralização do poder eclesiástico, o que encontrou sua correlação no Regime Militar, instalado no Brasil a partir do Golpe Militar de 31 de março de 1964. Seu caráter ortodoxo e repressivo remonta, no entanto, às características que fizeram do presbiterianismo brasileiro, um presbiterianismo bem típico: ênfase no denominacionalismo, no individualismo, na detenção de uma mentalidade anticatólicas e anti-ecuménica, na vivência de uma ética ascética intramundana e de não participação social efetiva, no apego ao passado como referência teológica e de impossibilidade de abertura para o novo, na leitura e na interpretação bíblico-teológica fundamentalista. Estas características fizeram com que a partir do final da década de 50, a Igreja Presbiteriana do Brasil propugnasse uma política eclesiástica de eliminação daqueles que pensavam diferentemente do pensamento teológico considerado oficiai e mesmo daqueles que mantinham posturas políticas diferentes dos líderes da igreja. Considerados inimigos da IPB, foram os modernistas que buscavam uma pesquisa bíblica a partir dos referenciais da considerada moderna ciência bíblica, os ecumenistas, que buscavam um diálogo eclesiástico mais amplo, inclusive, após o Concilio Vaticano II, com a Igreja Católica Romana e os comunistas que, na verdade, eram considerados aqueles que mantinham uma leitura bíblica e uma teologia a partir do referencial do Evangelho Social e, cujo expoente, no Brasil, foi Richard Shaull. Estes inimigos, em última instância, eram os hereges, os desviantes da "sã doutrina". A confrontação e perseguição a estes inimigos acirraram-se no período de Boanerges Ribeiro como presidente do Supremo Concilio da IPB, período em que, concílios e instituições de ensino teológico foram dissolvidos e fechados, pastores e líderes, inclusive da juventude, professores dos seminários, sob pressão, saíram da igreja, deixaram a docência, foram despojados de suas funções ministeriais e, ainda outros, mediante denúncias junto às agências de informação do governo foram obrigados a deixar o país, exilando-se. 0 poder repressivo, assim, fez com que esta igreja não somente se enclausurasse no passado mas, também, fechasse as portas para que uma nova teologia fosse gestada no seu meio e uma participação social relevante fosse buscada.

PAIXÃO JUNIOR, Valdir Gonzales. A era do trovão: poder e repressão na Igreja Presbiteriana do Brasil no período da ditadura militar (1966-1978). Dissertação (mestrado em Ciências da Religião). São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, 2000. [Orientadora: Drª Yara Nogueira Monteiro]. 



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

PROTESTANTISMO NO BRASIL: Primeiras Aberturas Legais (2)

Independência e Primeira Constituição

     Se a transferência da família real para o Brasil, em 1808, tem sua importância para o desenvolvimento do protestantismo no país, o momento da Independência também se torna emblemática para perpetuar este processo protestante.

     Após rápidos 13 anos em que D. João estabelecera a Corte portuguesa no Brasil, os eventos do outro lado do Oceano Pacífico não estavam pacificados. Em 1820 a Revolução Liberal exige o retorno de D. João VI a Portugal que para não perder o domínio do Brasil, então promovido a Reino Unido com Portugal e Algarves (1815), nomeia filho D. Pedro como Príncipe Regente da nação brasileira (1821).

     Como fizera com os cofres portugueses ao vir para o Brasil, D. João VI delapida completamente as finanças brasileiras, levando consigo todas as reservas econômicas, deixando o Príncipe Regente e a nação à míngua. A situação torna-se insustentável na medida em que em Portugal reunidos em “Congresso Soberano” com deputados representantes do Brasil e demais colônias, mas com ampla maioria de portugueses, afim de encontrar um solução conciliar para a nova situação, os discursos inicialmente cordiais começaram a se tornarem cada vez mais contundentes e radicais, por parte dos portugueses. Os representantes brasileiros defendiam a manutenção do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, criada por D. João VI em 1815, mas os portugueses exigiam, por interesses econômicos e uma dose excessiva de arrogância e descriminação, que o Brasil voltasse a condição de Colônia e que D. Pedro I retornasse imediatamente a Portugal. Dois extratos de discursos parlamentar português revelam o tipo de atmosfera que se respirava naquele momento. O primeiro do parlamentar José Joaquim Ferreira de Moura se referindo à população brasileira afirma que era "... composta de negros, mulatos, crioulos e europeus de diferentes caracteres”, (Tavares, 2005, p. 69, apud GOMES, 2010, p. 91) e o segundo do deputado lusitano Barreto Feio, referindo-se à pessoa de D. Pedro I: “um mancebo ambicioso e alucinado à testa de um punhado de facciosos” (D’ARRIAGA, 1889, p. 32; abud GOMES, 2010, p. 91). A temperatura só faz aumentar até os decibéis do insuportável, restando ao Brasil e a D. Pedro I somente duas alternativas: aceitar as condições impostas pelo Parlamento português ou o caminho árduo da independência.

     Alguns meses após o “Dia do Fico” (09 de janeiro de 1822), após algumas viagens apaziguadoras de D. Pedro I por diversos regiões e cidades do país, ele empreende um nova viagem à São Paulo partindo do Rio de Janeiro em 14 de agosto de 1822, acompanhado de uma diminuta comitiva de cinco pessoas e sem a guarda de honra. Quando da proximidade da cidade mais duas pessoas somaram à comitiva.

     Depois de longa viagem, percorrendo todo o Vale do Paraíba, o Príncipe chega ao bairro da Penha, zona leste da cidade São Paulo, na noite de 24 de agosto. A cidade de São Paulo naquele momento histórico era quase uma aldeia, composta de 28 ruas, dez travessas, sete pátios, seis becos e 1.866 casas, com 6.920 habitantes urbanos e incluindo os habitantes rurais chegava próximo de 20.000 habitantes. Mas apesar de sua singela e ainda de pouca influência econômica, devido ao isolamento geográfico, era provida de uma elite sintonizada com as transformações que ocorriam cada vez mais rápido na Europa e nos Estados Unidos.

     O ritmo de trabalho de D. Pedro I é intenso na cidade, com nomeações e reuniões diárias mantendo-se atento às noticias que podiam chegar do Rio de Janeiro, onde sua esposa Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo e José Bonifácio de Andrada acompanham os desenlaces no Parlamento português. No apogeu de seus 23 anos de idade, montado em um cavalo robusto, porém não imponente, adequado para subir a serra íngreme do mar à São Paulo, do qual retornava após inspecionar as fortalezas em Santos, já no período da tarde de 07 de setembro de 1822, o príncipe D. Pedro I, futuro imperador do Brasil e rei de Portugal, na colina às margens do riacho do Ipiranga (rio vermelho em tupi guarani), recebe correspondência do Rio de Janeiro enviadas por Leopoldina e Bonifácio declarando que a sorte estava lançada, ou ele retornava à Portugal e ficaria refém das cortes (Parlamento) como estava D. João VI, ou proclamava a Independência do Brasil e permaneceria como seu Imperador. Após alguns instantes de reflexão se expressa: “É tempo! Independência ou morte! Estamos separados de Portugal!”. E uma vez mais, agora se aproximando de sua guarda real que se posta ao seu lado, mais solenemente D. Pedro declara a independência do Brasil:[1]

Amigos, as cortes portuguesas querem mesmo escravizar-nos e perseguem-nos. De hoje em diante nossas relações estão quebradas. Nenhum laço nos une mais. ... Brasileiros, a nossa divisa de hoje em diante será Independência ou Morte; e as nossas cores, verde e amarelo, em substituição às das cortes. [Itálico meu]

     O Brasil agora independente tem enormes desafios pela frente. Sem dinheiro, sem exército, sem esquadra e em meio à crise econômica com a decadência das minas de ouro e diamantes e a queda do preço internacional do açúcar – D. Pedro I tem que buscar apoio uma vez mais junto aos ingleses. Estes não se negam a apoiar o jovem Imperador brasileiro, mas o preço será muito grande, além de juros exorbitantes, a exigência da renovação do acordo de Livre Comércio, que venceria em breve, com todas as vantagens mantidas; sem alternativa D. Pedro aceita a proposta inglesa.

     Outro desafio era produzir a primeira Constituição da nova nação. O Imperador convoca a Constituinte, que ele mesmo posteriormente haveria de dissolver, para elaborar o tão importante documento. A grande discussão é o papel do Imperador, de um lado os monarquistas absolutos e do outro os liberais, republicanos e federalistas, o que leva a um impasse somente resolvido com a dissolução do Parlamento. D. Pedro I vai produzir e promulgar a primeira Constituição brasileira, em 25 de março de 1824, que será uma das mais inovadoras entre todas elaboradas na época, com exceção da americana e a mais duradoura de todas que foram elaboradas no Brasil posteriormente, e que foi substituída somente 1891 pela primeira, das muitas, constituição republicana.
     

     Uma das maiores novidades contida nesta primeira Constituição brasileira era a clausula referente à liberdade de culto. Ainda que em 1808 D. João houvesse incluído uma restrita liberdade religiosa no Tratado de Livre Comércio, é com D. Pedro I que plena liberdade religiosa vai de fato ser estabelecida. Ele teve o cuidado de manter o catolicismo como a religião oficial do novo Império, mas de forma pioneira, desde o descobrimento do Brasil, protestantes, judeus, muçulmanos, budistas e adeptos de quaisquer outras expressões religiosas poderiam professar livremente sua fé. E mais ainda, assegurava-se constitucionalmente, a plena liberdade de imprensa e de opinião, de modo que ninguém poderia ser preso sem processo formal e sem amplo direito de defesa. Infelizmente, ignorada por quase a totalidade dos brasileiros, o texto original da Constituição de 1824 jaz atualmente no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.

     Nenhum grupo religioso soube aproveitar ao máximo este artigo constitucional como os protestantes. Eles não apenas começam a se instalarem no país, como iram aproveitar todos os meios de comunicação da época, preferencialmente os jornais e revistas, para a divulgação de suas mensagens evangélicas de conteúdo protestante.

     O primeiro a fazer uso deste artigo foi o Dr. Rev. Robert Kalley, que estava sendo coagido a cessar suas atividades religiosas, pois havia recebido como membros de sua denominação duas senhoras da alta sociedade. Diante desta situação, o Dr. Kelley resolve fazer uma consulta a três dos mais eminentes juristas do Império: Dr. José Nabuco Tomáz de Araujo, então Ministro da Justiça, Dr. Urbano Sabino Pessoa Mello, magistrado e político e Dr. Caetano Alberto Soares, ex-sacerdote católico romano, magistrado e político, solicitando seus pareceres legais e por escrito, conforme um questionário contendo onze pontos relacionados à questão da tolerância e liberdade religiosa no Brasil. Os pareceres dos juristas foram amplamente favoráveis à causa de Kelley e lhe deram fundamentação legal e constitucional para que continuasse a desenvolver suas atividades religiosas. E Pinto sublinha muito bem a importância deste ponto para a inserção permanente do protestantismo no Brasil, em sua dissertação sobre Kalley e a ampliação da liberdade religiosa:

Os pareceres dos juristas e a resolução governamental foram a jurisprudência necessária para que se tornasse mais efetiva a implantação permanente do protestantismo no Brasil, servindo de referência aos demais grupos que começaram a chegar ao país. [...] Kalley saiu tremendamente fortalecido do episódio, projetando-se nos meios acatólicos e também na elite da sociedade brasileira. Um missionário por conta própria, desvinculado de qualquer denominação, que não representava nenhuma igreja ou sociedade missionária estabelecida no exterior, obteve o parecer importante de que o cidadão tinha o direito de seguir a religião que quisesse, segundo o prescrevia a Constituição de 1824. (2005, p. 111 - Itálico meu).

     Portanto, esta foi a estrada percorrida pelo protestantismo brasileiro desde suas primeiras incursões com as invasões francesa e holandesa, perpassando pela primeira abertura com o Tratado de Livre Comércio, através principalmente dos ingleses e sua Igreja Anglicana e concluído de forma permanente na promulgação da primeira Constituição brasileira, com a inovadora clausula de plena liberdade religiosa, de imprensa e de opinião, tão bem aproveita pelo Rev. Kelly e posteriormente com os presbiterianos com Simonton e as demais denominações evangélicas, que hoje estão plenamente inseridas no contexto social brasileiro.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie


Outro Blog
Reflexão Bíblica







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[1] Gomes transcreve os diversos relatos que foram preservados de fontes que presenciaram este acontecimento tão relevante para a História do Brasil (pp. 36-40).



Referências Bibliográficas

BONINO, José Míguez. Rosto do protestantismo latino-americano. São Leopoldo: Sinodal, 2003.
GOMES, Laurentino. 1808: Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta engaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. 3ª ed. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2009.
________________. 1822: Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro e a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.
KIDDER, Daniel P. e FLETCHER, James C. O Brasil e os brasileiros. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1941.
LÉONARD, Émile-G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga, o protestantismo e a sociedade brasileira – perspectivas sobre a missão da igreja. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
MENDONÇA, Antonio Gouvêia e VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao protestantismo no Brasil, 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2002.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico (1822-1888): aspectos culturais da aceitação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973.
SCHALKWIJK, Frans Leonard. Igreja e Estado no Brasil holandês (1630 a 1654), 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004 (1986).
SILVA, Elizete da. Protestantismo e questões sociais. Sitientibus, Feira de Santana, nº 14, 1996, pp. 129-42. Disponível em: http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/14/protestantismo_e_questoes_sociais.pdf
SOARES, Caleb. 150 anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pesquisa Cristã, 2009.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980.