Translate

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

PROTESTANTISMO - A Reforma na Inglaterra - Eduardo VI e Maria Tudor


Eduardo segurando
uma Bíblia
historiologiaprotestante.blogspot.com.br
Eduardo VI (1547-1553)

Em sua obsessão por um herdeiro masculino o rei Henrique VIII, visto que Ana Bolena não mais poderia lhe proporcionar, desvencilha-se dela e casa-se pela terceira vez, com Jane Seymour, que finalmente apazigua os temores do rei, dando-lhe um filho, Eduardo. Mas a saúde do infante é extremamente precária.

Com a morte de Henrique VIII, o infante Eduardo assume o trono, aos nove anos de idade. Evidentemente que foi tutelado por pessoas mais velhas, inicialmente por seu tio, o duque de Somerset [1] (1547-1549), e posteriormente por Warwick [2](1549-1553), duque de Northumberland, e o então arcebispo Cranmer de Cantuária todos com ascensão protestante. Assim, durante seu breve reinado de apenas seis anos e meio, a Inglaterra foi finalmente conduzida ao Protestantismo.

O Parlamento, por pressão de Eduardo, revoga os Seis Artigos, libera a distribuição de bíblias, então restrita aos clérigos e as colocadas nos templos, autoriza-se o casamento de cléricos,os leigos podem participar dos dois elementos da ceia, imagens são retiradas dos templos e as sentenças sobre os hereges são revogadas, abrindo a possibilidade da repatriação de inúmeros expoentes protestantes que haviam se refugiado em outros países como Pedro Martir, Bernardino Ochino, Martinho Bucer e Giovanni Laski, que foram alçados a posições de destaque no governo de Eduardo, principalmente nas Universidades.

Em 1548 uma Ordem de Comunhão foi impressa para que os leigos participassem efetivamente do culto. E em 1549 um Ato de Uniformidade foi aprovado pelo Parlamento e que exigia o uso por parte de todos os oficiantes e em todos os cultos. Mas este guia litúrgico não era uma ruptura, mas uma junção da liturgia católica e reformada, ainda que se retirasse toda referência de sacríficio.[3] Deste modo, mais uma vez católicos e reformados sentiram-se frustrados com este meio termo.

Em 1552 um novo Ato de Uniformidade foi promulgado e uma revisão do Livro de Oração Comum foi aprovada, com uma ênfase mais reformada.[4] Os cultos tornam-se obrigatórios, sob a pena do negligente ser preso e condenado, e o uso do Livro de Oração Comum torna-se compulsório, sob a pena da perda da função clerical. Em 1553 foram elaborado os “Quarenta e Dois Artigos de Religião”, posicionando doutrinariamente a Igreja da Inglaterra, sob a tutela do rei.
Mas todas as perspectivas de reformas são abruptamente interrompidas pela precoce, porém esperada, morte do jovem rei Eduardo VI, aos quinze anos de idade (1553, vítima de tuberculose.

Maria Tudor (1553-1558)

O catolicismo nunca esteve erradicado na Inglaterra. Com a morte precoce de Eduardo VI, porém esperada devido a debilidade de sua saúde, assume o trono sua meio irmã Maria, filha de Catarina de Aragón e extremamente católica. Mesmo tendo um reinado curto, de pouco mais de cinco anos (1553-1558), foi suficiente para fazer retroceder todo o processo reformado inglês.

Imediatamente faz restaurar a autoridade papal no país. Os líderes reformados mais uma vez tiveram que buscar o exílio em países protestantes no Continente;[5] os bispos católicos foram restaurados em suas dioceses; anula-se a utilização do Livro de Oração Comum, bem como se revoga a liberação para que os clérigos pudessem casar, de maneira que praticamente se retrocede aos últimos dias de Henrique VIII.

A figura proeminente neste período foi Reginald Pole, que havia vivido anos no exílio, mas que retorna com todo respaldo da rainha. Torna-se arcebispo da Cantuária e neste oficio trás a Inglaterra de volta ao catolicismo. Revive o monasticismo, quase erradicado nos dias de Henrique, e coloca estrategicamente sacerdotes católicos nas principais Universidades de Oxford e Cambridge.

O fato de receber a alcunha de “Maria, a Sanguinária”, se deve muito mais às seguidas e violentas revoltas ocorridas no período, do que por uma índole cruel ou vingativa da rainha ou de seu chanceler Pole.[6] De maneira que se ela agiu de forma exagerada, não o foi muito além do que seu pai, Henrique VIII e posteriormente sua meio irmã, Elizabete I, tenham feito.

Com sua morte em 17 de novembro de 1558 encerra-se a última oportunidade de uma reconciliação entre Roma e a Inglaterra no século XVI.



Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica



Referências Bibliográficas

ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio deJaneiro: Record, 1997.
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Européia, 1971.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
GONZALEZ, Justo L. Uma história do pensamento cristão - da reforma protestante ao século 20, v. 3.  São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
HILLERBRAND, Hans Joachim. The division of Christendon: Christianity in the sixteenth century. Louisville, Kentucky: Published by Westminster John Knox Press, 2007.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do cristianismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2000.
POLLARD, Albert Frederick. Thomas Cranmer and the and the english reformation (1489-1556). London : G. P. Putnam’s Sons, 1906.
WALKER, Williston. História da Igreja Cristã, ed. JUERP/ASTE, v.2, 3ª ed. Rio de Janeiro, 1981.
Zabriskie, Alexander C. Anglican Evangelicalism. Philadelphia, 1999.

______________________
[1] Defendia um luteranismo mais ao estilo de Melanchton, sem grandes rupturas com o romanismo para não provocar maires escandanlos no povo.
[2] É neste momento que o calvinismo genebriano se faz mais presente e influencia o movimento de reforma religiosa na Inglaterra. 
[3] A grande distinção entre o culto protestante e a missa católica romana e que nesta todas as vezes se repete o sacrifício de Cristo, enquanto no culto protestante não há esta implicação. Por esta razão no culto protestante o púlpito e não a mesa de sacrifício é o centro.
[4] Aqui aparecem mais acentuadamente a teologia calvinista. João Calvino via no jovem rei Eduardo a possibilidade de se efetuar uma reforma religiosa como nos dias do rei Josias do Antigo Testamento.
[5] Um numero aproximado de oitocentos reformados, entre os quais João Knox, se refugiaram na Alemanha e Suiça.
[6] Foram executados 273 reofrmados dentre os quais estava a proeminente figura de Cranmer, até então arcebispo da Cantuária.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

VERBETE – Calvinismo


Como todos os termos ele tem uma origem histórica e nunca satisfaz a todos. Este termo deriva-se do conjunto de doutrinas elaboradas por João Calvino[1] (1509-1564) um dos principais expoentes da Reforma Religiosa ocorrida no século XVI e que ficou conhecida como Reforma Protestante. Mas mesmo entre os protestantes há aqueles que questionam a utilização deste termo.[2] Um teólogo reformado muito conceituado, Karl Barth, discorda da utilização deste termo e outros correlatos, como por exemplo, o luteranismo, pois entende que tais conceitos acabam por forjarem corpos rígidos e inflexíveis de dogmatismos que acabam por serem impostos às comunidades e aos cristãos por autoridades eclesiásticas, similarmente ao que ocorre no catolicismo, que foi questionado abertamente pelo próprio reformador no princípio. Para Barth: “Um verdadeiro discípulo de Calvino só tem um caminho a seguir: obedecer, não a Calvino, mas Àquele que foi o Mestre de Calvino”.[3]

Todavia, é impossível negar que o reformador genebrês estabeleceu com sua obra teológica um padrão dogmático – bem mais organizado do que fizera Lutero e outros contemporâneos. Assim, como se fala de “platonismo” ou de um “cartesianismo” é possível se falar que também existe um “calvinismo”, o que não significa que dentro deste conceito amplo não haja discrepâncias e deformidades produzidas por aqueles que na dinâmica do tempo e espaço reinterpretaram seus postulados.

Nenhum movimento do calibre e com o dinamismo do Calvinismo internacional poderia sobreviver e, muito menos prosperar, sem que se modificasse ao menos em certo nível, diante de situações específicas que enfrentava. É tarefa do historiador identificar essas alterações, e do teólogo verificar seu significado. A negação nua e crua dessas alterações é, porém, historicamente insustentável. (McGRATH, 2004, p. 234-235).

Em nenhum momento Calvino se propôs a ser original, no sentindo de produzir algo totalmente inédito.[4] Aproveitou tudo que seus antecessores próximos produziram (Lutero, Melanchthon, Zwinglio e Bucer), mais ainda, ele busca incansavelmente na vasta literatura dos chamados “Pais da Igreja” os postulados de suas interpretações teológicas. Sua contribuição maior sem duvida alguma foi sua capacidade incomum de síntese em conjunto com seu pensamento forte e autentico de formular e coordenar esta orquestra teológica e faze-la produzir melodias inigualáveis em qualidade e beleza.

Mas Calvino jamais abriu mão de um principio basilar da Reforma: somente a Bíblia. Escutar e fundamentar todo o pensamento na única autoridade infalível das Escrituras, descartando tudo que fosse apenas intepretações humanas, foi a intensão e a pretensão dele em tudo que produziu, pregou ou ensinou. Na mesma linha dos primeiros reformadores, para Calvino: “Nem a antiguidade, nem os costumes, nem as sentenças, nem os editos, nem os decretos, nem os concílios, nem as visões, nem os milagres se devem opor” a qualquer texto das Escrituras, a única fonte de autenticidade do Altíssimo.

A grande questão então levantada é: o que produz a autenticidade do pensamento teológico? Para o católico é a Igreja que dá autenticidade à doutrina; para Calvino a autenticidade é produzida na mente do cristão pela ação iluminadora (esclarecedora) do próprio Deus (na pessoa do Espírito Santo). Dominado por um biblicismo integral, Calvino elabora, pois, uma cosmovisão e uma explicação do destino eterno do ser humano.

Evidentemente, concordando em parte com a crítica de Karl Barth, quando se fala de calvinismo, não implica que todos que adotem este termo, expressem literalmente o pensamento original de Calvino, mas que têm nos conceitos teológicos dele os pressupostos que norteiam a forma de crer e interpretar os ensinos bíblicos adotados por estes.

O pensamento e os pressupostos teológicos de Calvino foram paulatinamente extrapolando as fronteiras genebrinas, através dos presbiterianos na Escócia, os puritanos ingleses e posteriormente na América do Norte, os huguenotes da França, a Igreja Reformada e os Batistas Particulares da Inglaterra. Atualmente os teólogos Karl Barth e Emil Brunner são representativos da reinterpretação do pensamento calvinista. Como realça McGrath: “[...] o ‘Calvinismo’ veio a significar algo diverso em cada uma de suas manifestações locais, retratando fatores locais que se combinaram para lhe dar uma forma diferente, uma identidade diversa, em suas várias localidades” (2004, p. 237).

Portanto, o calvinismo que chega ao Brasil a partir de meados do século XIX, através das denominações protestantes inglesas e primordialmente americanas, já havia experimentado diversas revisões e reinterpretações, ainda que mantivesse o cerne do pensamento teológico de João Calvino. No caso brasileiro as chamadas igrejas calvinistas (Presbiterianas, Congregacionais e Batista Regular) foram extremamente lerdas em resgatar as obras de Calvino, sendo que sua obra máster “As Institutas da Religião Cristã” somente foi traduzida para o português no final do século XX, por iniciativa de um trabalho acadêmico de uma instituição educacional não ligada a nenhuma das denominações mencionadas e que posteriormente foi encapada por uma editora presbiteriana. Os comentários bíblicos de Calvino somente agora começam a ser colocado à disposição dos brasileiros, o que demonstra a letargia dos “calvinistas brasileiros” em disponibilizar o pensamento original de Calvino.


PROTESTANTISMO E SEUS DOIS SISTEMAS TEOLÓGICOS


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica






[1] “O estudo da relação entre os homens e seus movimentos tem se mostrado um dos aspectos mais estimulantes da história intelectual”. (McGRATH, 2004, p. 232).
[2] Inicialmente o termo “calvinismo” foi utilizado pejorativamente pelos alemães para distingui-los dos luteranos dentre as muitas divergências teológicas existentes entre estas duas formas de pensar dentro do movimento reformado.
[3] A crítica de Barth esta no fato de que o termo “calvinismo” tomou uma forma rígida a partir do Sínodo de Dort (1618-1619), já nos idos do século XVIII, conforme interpretadas por aqueles estudiosos a luz do ensino proposto por Calvino e que deu origem ao denominado “Cinco Pontos do Calvinismo” em resposta aos “Cinco Pontos do Arminianismo” proposto anteriormente pelos defensores do teólogo Jacó Armínio (1560-1609) que se opunha à teologia do reformador genebrês.
[4] “[...] o termo ‘calvinista’ poderia, em tese, referir-se a pessoas e ideias historicamente anteriores a Calvino. Por exemplo, os sobreviventes mais radicais do movimento hussita, na Boêmia, o Jednota bratrská, veio a ser conhecido por Calviniani ante Calvinum [Calvinistas antes de Calvino] justamente por essas razões”. (Evans, 1985, p. 169, apud McGRATH, 2004, p. 233).


Referências Bibliográficas
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de bíblia, teologia e filosofia, v. 1. São Paulo: Hagnos, ed. 8ª, 2006.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante.  São Paulo: QUADRANTE, 1996.
McGRATH, Alister. A vida de João Calvino. São Paulo, Cultura Cristã, 2004.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

VERBETE – Denominacionalismo


O termo “denominação” e/ou “denominacionalismo” é fundamental para se compreender a expansão do protestantismo no mundo e sua implantação no Brasil.[1]
A partir do Movimento Religioso que eclodiu no século XVI e que ficou conhecido como Reforma Protestante a Igreja Cristã no Ocidente perdeu sua hegemonia, que foi sempre mais aparente do que de fato.[2] Todavia, até o século XVI havia uma única Igreja Cristã no Ocidente, mas que inicia um processo irreversível de fragmentação a partir da Reforma Protestante, primeiramente ao redor dos líderes reformistas como Lutero e Calvino e posteriormente a partir de outros movimentos reformistas nacionais, como por exemplo, a Reforma Religiosa Inglesa promovida por Henrique VIII e que produziu a Igreja Anglicana.
Esta tendência fragmentária tem pressupostos inicialmente teológicos, visto que desde o inicio os líderes reformistas não conseguiram desenvolver uma teologia que pudesse contemplar todas as formas diferentes de interpretar as doutrinas bíblicas. Um exemplo é a questão envolvendo a doutrina da Ceia onde os luteranos, os calvinistas e os anglicanos mantiveram suas interpretações particulares, ainda que em alguns momentos se dispendesse esforços para uma conciliação. Mas no desenvolvimento histórico outras questões divergentes vão sendo motivos de distanciamento e mais divisões.
Será dentro da Igreja Anglicana que irão surgir algumas subdivisões do protestantismo causadas pelo embrido teológico-politico. Dentro do movimento Puritano inglês que exigia uma ruptura plena da Igreja Anglicana em relação ao Catolicismo romano vão surgir diversas tendências que mesmo compartilhando de uma mesma teologia calvinista, divergiam quanto a questão da organização eclesiástica: os presbiterianos entendiam que o governo da igreja local deveria ser representativo através de um Conselho de Presbíteros eleitos pela assembleia, enquanto que os Congregacionais e também os batistas defendiam que a Assembleia deveria ter o governo pleno da igreja local, enquanto que os anglicanos mantiveram o governo episcopal herdado do catolicismo, assim como os metodistas que surgiram posteriormente.
Depois de muitas lutas e perseguições, bem como alternâncias no Poder Legislativo da Inglaterra, os diversos ramos puritanos começam seu êxodo para América do Norte.  Ainda que permeados por uma mesma ideologia teológica, cada segmento religioso protestante vai se expandindo no novo território. É aqui na América do Norte que o termo “denominação” ou “denominacionalismo” vai sendo forjado e será predominante no movimento missionário liderado pelos americanos em todo o mundo.
O Drº Antônio Mendonça analisando a questão do denominacionalismo protestante formula ao menos três característicos:
Primeiro, a denominação americana é uma associação voluntária o que significa a realização do ideal puritano. [...] A denominação era uma igreja desestabilizada, composta por pessoas que a ela aderiam espontaneamente e de acordo com suas preferências e convicções pessoais. [...] Segundo, a associação voluntária tinha um propósito ou intenção, o que justificava a existência de denominação diante de outras, com seus pontos a serem propagados, seus métodos e seus traços definitivos. [...] Terceiro, a denominação americana de um propósito unitivo e ecumênico, isto é, nenhuma denominação se julgava exclusiva dona da verdade. (MENDONÇA, 1984, p. 44-46 – Itálico do autor).[3]
As denominações foram, portanto um caminho encontrado para expressar, ou para alguns camuflar, uma unidade cristã em meio às múltiplas divisões eclesiásticas dentro do protestantismo. Utilizando as palavras de Niebuhr (1992, p. 13), “o denominacionalismo é, na Igreja cristã [protestante], essa hipocrisia inconfessada”.
Ao iniciarem seus projetos de transplantarem suas denominações evangélicas protestantes para o Brasil cria-se imediatamente um impacto visto que até então os brasileiros conheciam apenas uma única igreja – a Católica Romana. Ao chegarem as diversas “igrejas” protestantes, com suas ênfases peculiares teológicas, os brasileiros ficaram confusos e o catolicismo utilizou por muito tempo este aspecto fragmentário do protestantismo para questionar diante da população a genuinidade da mensagem evangélica protestante.
A situação da multiplicação de denominações evangélicas protestantes apenas demonstra a cada dia a dificuldade que existe de se aprender a conviver harmoniosamente dentro da mensagem evangélica proposta pelo próprio Cristo. Com certeza este foi e continua sendo o maior empecilho para que o protestantismo possa de fato e de verdade produzir na sociedade brasileira um impacto transformador.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião






Referências Bibliográficas
 HUDSON, Winthrop. Denominationalism as a basis for ecumenicity: a seventeenth century conception. Church history. Vol. 24, no. 1 (março, 1966).
MENDONÇA, Antonio G. O celeste porvir: a inserção do Protestantismo no Brasil. São Paulo: Edições Paulinas, 1984.
REYLI, Alexander Duncan. História Documental do Protestantismo no Brasil. 3ª ed. São Paulo: ASTE,
2003.




[1] O termo foi introduzido para combater o termo pejorativo “seita”, que no uso popular adquiriu conotação de práticas desviantes ou indesejáveis.
[2] Ainda no século XI, mais propriamente no ano de 1054, ocorreu o Cisma do Oriente, também chamado de Grande Cisma ou Cisma Ocidente-Oriente, que separou definitivamente a Igreja Católica Apostólica em Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa.
[3] Doutor em História Eclesiástica, Duncan Alexander Reily define a denominação como: “uma associação voluntária de indivíduos com sentimentos e pensamentos em comum, unidos na base de crenças comuns para o propósito de alcançar objetivos tangíveis e definidos.” (REYLI, 2003. p. 38 e 39). “Nenhuma insiste que a totalidade da sociedade e igreja devem submeter-se aos seus regulamentos eclesiásticos. No entanto, todas as denominações reconhecem sua responsabilidade pela totalidade da sociedade e esperam cooperar em liberdade e respeito mútuo com outras denominações e cumprir tal responsabilidade”. (HUDSON, 1966, p. 32).

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PROTESTANTISMO - A Reforma na Inglaterra - Henrique VIII

Henrique VIII e suas esposas
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Evidentemente que não se pode imaginar o que seria a Reforma Inglesa sem a figura de Henrique VIII (1491-1547), filho mais jovem de Henrique VII. Ele estava sendo preparado para exercer uma função eclesiástica, quando a morte precoce de seu irmão, Arthur (1502) e posteriormente a de seu pai Henrique VII (1509) mudou totalmente sua história e da Inglaterra e, por conseguinte, da futura Igreja inglesa.
Mas a biografia de Henrique VIII instiga intensa defesas e ataques na maioria das vezes antagônicos, como resumiu Pollard:
Em nosso desejo de reprovar a imoralidade de métodos de Henry, somos levados a negar o seu sucesso, ou, no nosso apreço pela grandeza dos fins por ele obtidos, buscamos justificar os meios que ele tomou para alcançá-los. Tal como acontece com a sua política, portanto, com seu caráter. (POLLARD, 1919).

Mas assumir o trono inglês trouxe-lhe o fardo de assumir o casamento diplomático com Catarina de Aragão, a viúva de Artur seu irmão mais velho, filha de Fernando e Isabel da Espanha. Depois de postergar o máximo possível e tendo a bênção do papa Júlio II, o jovem Henrique, no apogeu de seus 17 anos, casa pela primeira vez.
Deste casamento com Catarina nasceram diversos filhos, dos quais sobreviveu apenas uma filha, Maria. O rei sabia das dificuldades históricas de manter a linhagem do trono sem um filho homem, e as lembranças das terríveis consequências das “Guerras das Rosas[1] ainda estavam frescas na memória dos ingleses, de maneira que o rei tornou-se obcecado por um herdeiro masculino.
Surge então a figura emblemática de Ana Bolena, pela qual Henrique se apaixona, o que para ele não era muito difícil. Tendo suas próprias ambições Ana resiste às primeiras investidas reais de maneira que Henrique sente-se pressionado a torna-la rainha. Entretanto, para isso teria que desvencilhar-se de seu casamento com Catarina.
Seu pedido inicial de divorcio em maio de 1527 foi colocado em banho-maria, pois o Papa de plantão, Clemente VII, não desejava e nem podia criar atrito com o sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos V, que naquele momento se constituía no maior aliado da Igreja romana. (Walker,1981, p. 32). A paciência de Henrique esgotava a cada dia, pois as estrategias do cardeal Wolsey, os canonitas, e os esforços diplomatas nenhum resultado conseguiram, e nem mesmo as ameaças pessoais de Henrique minimizaram os receios  do Papa em relação ao Imperador (Haigh, 1987, p. 105).
Entra em cena a figura de Thomas Crammer (1489-1556), então professor na universidade de Cambridge, sugerindo que o assunto da anulação do casamento real fosse transferido para a esfera das Universidades, que naquele momento histórico ocupavam uma posição relevante em relação às questões teológicas (LATOURETTE, 2006, p. 1.084).
Assim que tomou conhecimento desta proposta, o rei convoca Crammer e o coloca como capelão da família de Bolena. A questão da anulação do casamento real foi transferida para a esfera acadêmica e consultas foram feitas às principais universidades católicas, e às de maior prestígio – Paris, Orleans, Tolosa, Oxford, Cambridge, e até as italianas e todas elas corroboraram para o desfecho tão ansiado por Henrique, declarando que seu primeiro casamento com a viúva de seu irmão não era valido, (GONZALES, 2003, p. 124-125).
Imediatamente as providências são tomadas para que o rei casasse (14 de Novembro de 1532) com Bolena, pois a esta altura dos acontecimentos ela se encontrava grávida, e Henrique queria legitimar a criança, que para sua frustração pessoal veio a ser mais uma vez uma menina, Elizabete, mas, sem que ele pudesse saber, ela faria um dos mais extraordinários reinados da história da Inglaterra.
As consequências deste ato de rebeldia de Henrique também foram imediatas, pois o Papa declarou o casamento com Bolena nulo, reafirmou a validade do casamento de Catarina (março de 1534) e em 1538, Paulo III publicou a bula, já redigida a três anos, excomungando o rei e destituindo-o do trono inglês e desvinculando seus súditos do juramento de fidelidade. Todavia, na pratica o efeito foi irrisório e a bula nem sequer foi publicada na França e na Alemanha. Mas Henrique que vinha acelerando o processo de esvaziamento do poder clerical, iniciado por seu pai, através da promulgação de sucessivas leis, reagiu de forma contundente, e no dia 3 de novembro 1534, o Parlamento inglês promulga o Ato de Supremacia em que se declara: “Que o rei nosso soberano, seus herdeiros e sucessores, reis deste reino, serão considerados, aceitos e reputados como a única Cabeça suprema da Igreja da Inglaterra, chamada Igreja Anglicana” (FISHER, 1984, p. 299 - Itálico meu). Todos os que se recusassem a aceitar com juramento o Ato de Supremacia e reconhecer o novo casamento do rei como ordem de sucessão ao trono, seria considerado réu de alta traição e punido com a morte cruel. O rompimento com Roma estava selado.
Mas que não se tenha qualquer ilusão quanto às intenções de Henrique. O rei inglês tinha que tomar uma posição e como não via com bons olhos o que estava acontecendo em alguns países vizinhos que optando pela reforma viram o poder do trono minimizado ele faz a opção de instituir uma igreja dentro das necessidades dele e das características do povo inglês. Henrique VIII rompe com a Igreja Romana, mas não adota o manual dos reformadores, pois ele estabelece a Igreja Inglesa no mesmo molde da velha igreja católica romana tendo ele mesma como chefe soberano e não mais o papa. O próprio Matinho Lutero percebe esta força do rei inglês: “Henrique é o Papa, e o Papa é Henrique na Inglaterra." (HILLERBRAND, 2007, p. 212).
Henrique nunca deixou de ser católico, e somente adota na Igreja inglesa os pontos de vista dos reformadores que lhe convinham. “Henrique estava orgulhoso de sua ortodoxia e era meticuloso em sua frequência diária às missas e em seu uso de um confessor.” (LATOURETTE, 2006, p. 1.086). Alguns anos antes (1521) havia escrito um tratado teológico “Assertio septem sacramentorum” refutando o pensamento de Lutero “De captivitate Babylonica ecclesiae praeludim”, o que lhe havia valido, por parte do papa Leão X, o título de “Defensor da Fé Católica”, que sempre fez questão de ostentar até seus últimos dias. (GONZÁLES, 2003, p. 125).
Em 1536 promulga o chamado Dez Artigos, que em quase nada se diferenciava dos dogmas católicos. Para deixar ainda mais claro suas opções teológicas, em 1539 faz uma nova promulgação substituindo a anterior e restringindo-os a Seis Artigos, mais radicalmente católicos do que os dez anteriores e apelidado por muitos de “Edito Sangrento”, pois muitos discordantes foram condenados e queimados. O texto mantinha as posições católicas clássicas como a doutrina da transubstanciação, a comunhão sob uma só espécie, o celibato e a castidade do clero, as missas pelos mortos, a confissão auricular, etc. “Até o fim de sua vida, o rei escapa completamente a influência da Reforma” (CASALIS, 1989, p. 151).
Evidentemente que muitos súditos ingleses não ficaram contentes e nem passivos diante desta artimanha real. Os que defendiam o papa e a igreja romana sentiram-se traídos e os que almejavam uma reforma religiosa ampla e radical também não se sentiram realizados. Duas questões revelam a profundidade e amplitude deste descontentamento de ambos os lados: o primeiro é que tanto católicos quanto reformadores foram presos, condenados e sentenciados a morte e uma ilustração deste fato é que em 30 de julho de 1540, por ordem direta do rei “três clérigos de ideias luteranas (Barnes, Garret e Jerome) foram queimados em Smithfield; e três romanistas foram torturados e decapitados por negar a supremacia espiritual do rei” (LINDSAY, 1959, p. 279); segundo que somente vinte anos depois, após rápidas sucessões no trono inglês, é que a rainha Elizabete conseguiu impor um consenso religioso aos ingleses, chamado pelos historiadores de “Acordo Elisabetano”.
Mas alguns passos importantes foram tomados em direção a uma Reforma mais substancial, ainda nos dias de Henrique. Em 1536, Cromwell, como vigário-geral do rei, determina que uma bíblia em latim e outra em inglês fossem colocadas em cada igreja para que qualquer pessoa pudesse ler. Com o rei ainda vivo, Cramwell começou a preparar o que veria a ser o Livro de Oração Comum (Book of Common Prayer) que foi promulgado somente em 1549, após a morte de Henrique. Durante sua elaboração Cromwell mantem intensa correspondência com Melanchton, Calvino, Bucero e Pedro Mártir Vermigli. “Teologicamente o Book of Common Prayer se distingue radicalmente da doutrina católica: não adota a doutrina da transubstanciação, ou a reserva da espécie, nem a adoração do Santíssimo Sacramento e a oração pelos mortos, nem a unção dos recém-nascidos e dos doentes” (CASALIS, 1989, p.152). Este livro litúrgico teve várias revisões sucessivas, porém superficiais (1552, 1662, 1871, 1872), e ainda continua sendo utilizado nos cultos da Igreja Anglicana. Entretanto, Henrique VIII morre em 1547, deixando para seus sucessores a imensa tarefa de concluir a Reforma inglesa.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião





Referência Bibliográfica
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio deJaneiro: Record, 1997.
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba; Editora UNIMEP/Exodus, 1996, p.63).
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Européia, 1971.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
DREHER, MARTIN N. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja, v.3).
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
FISHER, Joachim H. Reforma – renovação da igreja pelo evangelho. São Leopoldo: Ed. Sinodal e EST, 2006.
HAIGH, Christopher. English Reformations: religion, politics, and Society under the Tudors. England: Oxford, 1987.
HILLERBRAND, Hans Joachim. The division of Christendon: Christianity in the sixteenth century. Louisville, Kentucky: Published by Westminster John Knox Press, 2007.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
PEREIRA, João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e
espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005.
POLLARD, Albert Frederick. Thomas Cranmer and the and the english reformation (1489-1556). London : G. P. Putnam’s Sons, 1906.
WALKER, Williston. História da Igreja Cristã, ed. JUERP/ASTE, v.2, 3ª ed. Rio de Janeiro, 1981.
Zabriskie, Alexander C. Anglican Evangelicalism. Philadelphia, 1999.

___________________________
[1] Guerra das Duas Rosas (1455-1485) – conflito entre os Lancaster e os York, duas famílias nobres que disputavam o trono inglês. A Guerra recebeu esse nome porque o brasão dos Lancaster tinha uma rosa vermelha e o dos York uma rosa branca. Henrique VII, que tinha parentesco com as duas famílias pacificou a Inglaterra e assumiu o trono, dando início à Dinastia Tudor.

PROTESTANTISMO - A Reforma na Inglaterra

Julgamento de Wyclif em Oxford

            O surgimento de vários ramos cristãos acabou contribuindo para o esfacelamento do cristianismo ocidental. As chamadas igrejas reformadas históricas tornaram-se cada vez mais intolerantes com as diferenças encontrando na ruptura um caminho pavimentado para resolver suas questões, do que percorrer o caminho pedregoso da conciliação de outras formas de pensar numa busca continua para manter a essência de seus pressupostos doutrinários e suas formas eclesiásticas. Um dos ramos deste protestantismo fragmentário é o Presbiterianismo. Seu surgimento na Inglaterra já é fruto de divergências dentro da recém-formada Igreja Anglicana.
A Reforma religiosa inglesa que dará origem a Igreja Anglicana tem uma significância peculiar, pois em decorrência de sua difusão mundial por meio de seu comércio e cultura nos séculos 17, 18 e particularmente nos séculos 19 e 20, as missões que emanaram das igrejas inglesas, desempenharam uma influência global nas igrejas emergentes de cunho protestante (LATOURETTE, 2006, p. 1.080). E Azevedo realça ainda mais a importância deste movimento chamando-o de a “Segunda Reforma”, (1996, p.63), pois os embates produzidos pelos diversos grupos separatistas, reunidos debaixo do guarda-chuva do puritanismo,[1] acabaram por reformar a Reforma anglicana, que tinha como objetivo inicial a síntese do protestantismo com o catolicismo.
Desde o século 15 os ingleses já respiravam um ar saturado pelas propostas reformistas. Nomes como Wyclif, John Duns e Guilherme Occan foram fundamentais na pavimentação da futura Reforma inglesa. Em muitos deles pulsava um forte sentimento de formar uma igreja nacional autônoma. O historiador A. F. Pollard[2] destaca que muitos pontos da Reforma inglesa podem ser claramente vista nos escritos destes predecessores: a contestação da supremacia papal com base nas humilhações politicas feitas ao povo inglês; denuncia contra a preguiça, a imoralidade e a riqueza do clero católico Inglês, defesa de um ministério de pregação, e a expectativa de que o poder secular, através de leis, restringiria os vícios e reformaria a moral do clero e da Igreja. Com base nisto muitos historiadores modernos concluem que o rompimento inglês contra Roma, deve pouco a Reforma produzida por Lutero e seus predecessores, e que a força que impulsionou a Reforma inglesa adveio de seus próprios arautos nacionais. (LINDSAY, 1959, p. 255).
Com o inicio da monarquia Tudor,[3] persegue-se por todos os meios o poder absoluto tanto politico quanto religioso, de maneira que as mudanças sociais, politicas, econômicas e religiosas que sopravam violentamente por toda a Europa, associado a um crescente espirito nacionalista e ascensão da classe média inglesa, contribuíram muito para a concretização deste objetivo. De maneira que não se pode pensar inocentemente que tão somente a questão do divórcio de Henrique VIII pudesse produzir tão grande ruptura dos ingleses com Roma. (LINDSAY, 1959, p. 253).
Os centros acadêmicos de Oxford e Cambridge não ficaram isentos da influência dos escritos de Lutero e demais reformadores. Há fortes indícios de que os escritos luteranos estavam sendo amplamente lidos e discutidos tanto nos círculos acadêmicos como fora deles também (LINDSAY, 1959, p. 257; FISHER, 1984, pp. 296-297).  Catedráticos do porte de Thomas Bilney, Hugh Latiner e William Tyndale, sendo que este último produziu uma tradução da bíblia para a língua inglesa, enquanto refugiado em Genebra e portanto fortemente influenciado pelo calvinismo e que veio a ser base da tradução oficial King James Version, no século 17. Estes e tantos outros acadêmicos abraçaram os ideais reformistas, senão estritamente impulsionados por motivos religiosos, mas com certeza impelidos pelos ideais humanistas. E o historiador Zabriskie referindo-se a influência do pensamento humanista inglês afirma:
Esses homens transmitiram a seus sucessores uma largueza de visão para novos estudos e um apelo à erudição sadia como árbitro final em controvérsias sobre a interpretação das Escrituras e das doutrinas; uma atitude funcional, antes que dogmática, para com as instituições do cristianismo; um interesse sem igual, senão maior, pela teologia filosófica, em confronto com a teologia dogmática; e uma incurável disposição para o Platonismo, com sua confiança na intuição espiritual, guia mais seguro para a verdade final do que o seria a lógica”. (1999, p.115-116).
Outro aspecto peculiar da Reforma inglesa é que diferentemente de outros países onde o movimento reformista girava em torno de seus mentores como Lutero, na Alemanha, Calvino em Genebra e Knox na Escócia, na Inglaterra, ainda que houvesse reformadores de grande envergadura religiosa e acadêmica, todavia, foram eclipsados pelos reis e estadistas que assumiram a dianteira do movimento, de maneira que, “a Reforma inglesa em vez de desenrolar-se como um movimento puramente religioso e intelectual, teve que submeter-se em grau de importância às influências perturbadoras da autoridade e política mundana do governo civil” (FISHER, 1984, p. 297).
Este pano de fundo é indispensável para se compreender melhor o que foi o processo e o resultado final da Reforma na Inglaterra. E como veremos adiante ela terá um impacto grande no Brasil, quer de forma direta, pois a Inglaterra iniciara o processo de abertura religiosa no país, bem como de forma indireta pela transposição dos diversos ramos reformados americanos para o Brasil, visto que os Estados Unidos fora colonizados pelos dissidentes protestantes ingleses que estavam impregnados dos conceitos teológicos forjados nas bigornas do puritanismo.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica

http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/


Referência Bibliográfica
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio deJaneiro: Record, 1997.
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba; Editora UNIMEP/Exodus, 1996, p.63).
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Européia, 1971.
 DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
DREHER, MARTIN N. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja, v.3).
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
FISHER, Joachim H. Reforma – renovação da igreja pelo evangelho. São Leopoldo: Ed. Sinodal e EST, 2006.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
PEREIRA, João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e
espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005.
POLLARD, Albert Frederick. Thomas Cranmer and the and the english reformation (1489-1556). London : G. P. Putnam’s Sons, 1906.
Zabriskie, Alexander C. Anglican Evangelicalism. Philadelphia, 1999.




[1] Puritanismo , como o nome indica, foi um movimento produzido pelos diversos grupos separatistas (congregacionais, presbiterianos, metodistas) dedicados à purificação da Igreja da Inglaterra (Anglicana) da herança do Catolicismo romano. Bateram de frente com a proposta elaborada por Elizabete I (1558-1603) que propunha uma “via média” entre o calvinismo (reformado) e o catolicismo. Perderam a queda de braço com a rainha, que impôs sua proposta conciliatória. Posteriormente chegaram assumir o poder político na Inglaterra, em meados dos anos 1640 sob a liderança de Oliver Cromwell (1599-1658). O Puritanismo acabou perdendo o poder, e em 1660 a hierarquia episcopal anglicana foi restaurada. Não encontrando espaço para o exercício de suas ideias religiosas, um número crescente de puritanos atravessaram o mar e foram se estabelecer na então colônia Americana. Enquanto no poder os Puritanos produziram a versão da bíblia chamada “King James Version”; entre os anos 1646-1647, através de uma convocação do Parlamento inglês, o clero puritano elaboraram os chamados documentos de Westminster, pois as reuniões ocorriam nas dependências da Abadia de Westminster, dos quais se inclui os documentos: o Diretório de Culto de Westminster, os Catecismos Maior (adultos) e Menor (crianças) , e a Confissão de Westminster; estes documentos se constituem ainda nos fundamentos teológicos das igrejas Presbiterianas e outros ramos protestante calvinista.
[2] Foi um dos primeiros historiadores a interpretar a Reforma produzida por Henrique VIII na Inglaterra, como um evento menos nocivo para o país do que poderia ter sido, como em casos análogos em tantos outros países, como a França e os países baixos.
[3] “A autoridade, centralizadora e absolutista, imposta por Henrique VII, vinha-se afirmando de dia para dia com o filho do fundador: Henrique VIII (1509-1547)”.  (DANIEL-ROPS, 1996, p. 435). 

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

PRESBITERIANISMO NO BRASIL – Primeiras Dissensões: Dr. Miguel Vieira Ferreira

Fundador da Igreja Evangélica
Brasileira - primeira
dissidência da IPB
                Como já referido em outros artigos, o Protestantismo trás em sua genética uma tendência fragmentaria que se perpetuou no transcorrer de sua história. Evidentemente que esta facilidade em se dividir é revestida por uma capa de zelo doutrinário ou teológico em um esforço em minimizar os efeitos danosos destas intermináveis rupturas, que, mormente tem muito menos de zelo pelo Evangelho bíblico e muito mais de personalismo e disputas político- eclesiástico, quando não interesses econômicos simplesmente. O movimento Religioso que remodelou o cristianismo ocidental no século XVI nunca foi uníssono, pois já nasceu dividido tanto teológico, quanto geograficamente. A Reforma proposta por Lutero gerou diversos movimentos reformistas por toda Europa, sendo que algumas alcançaram uma repercussão mais abrangente como a efetuada por João Calvino em Genebra, mas houve inumeráveis reformas com repercussões  apenas localizadas. Os interesses destes movimentos reformistas também variavam, a que ocorre na Inglaterra através do rei Henrique VIII, denominada por diversos estudiosos como a “Segunda Reforma”, ocorre unicamente por causa dos interesses pessoais do rei inglês, que apesar de romper com a Igreja Católica Romana, nunca deixou de ser devoto dos preceitos e liturgia romana.
                Esta genética fragmentaria transmigrou para os Estados Unidos, onde desenvolveu as diversas subdivisões gestadas na Igreja Anglicana, como os presbiterianos, congregacionais, batistas, metodistas e os próprios anglicanos. Cada grupo procura se estabelecer no novo território, inibindo que outros segmentos pudessem ali proliferar.
                São estas diversas denominações evangélicas, que foram nutridas pela seiva do nacionalismo expansionista americano, que a partir do final do século XIX começaram a serem transplantadas para o Brasil. Uma das primeiras destas denominações que aqui chegaram com um projeto definido de se estabelecer e expandir foram os presbiterianos.
A Primeira Dissensão no Presbiterianismo – Dr. Miguel Vieira Ferreira
                Os esforços dos missionários presbiterianos, logo corroborado pelos primeiros pastores nacionais, fez com que o presbiterianismo em pouco tempo pudesse alcançar resultados significativos no Brasil.
Todas as conjecturas – uma mensagem definida, um povo ávido e uma estratégia apropriada - indicavam que a Igreja Presbiteriana do Brasil continuaria firme e forte em sua expansão no país.  Mas a formação de nuvens escuras indicava que uma tempestade aproximava-se rapidamente, de maneira que, ainda no seu nascedouro ela vai experimentar o inicio do triste ciclo de pequenas e grandes divisões eclesiásticas, que marca distintivamente o protestantismo mundial, desde sua origem na chamada Reforma Protestante do século XVI,[...] (GUEDES, 2013, p. 42).
Ainda em seus primórdios, antes do chamado grande cisma, o nascente presbiterianismo brasileiro vai experimentar o gosto amargo de uma dissensão em sua denominação, nem ainda consolidada. Como coloca Rivera:
Logo nas primeiras décadas de trabalho missionário entre Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, as lideranças dessa igreja tiveram que encarar interpretações heterodoxas de algumas de suas principais tradições. O conflito levou ao êxodo de um grupo de famílias identificadas com as convicções religiosas de Miguel Vieira Ferreira, presbítero dessa igreja, que acabou fundando uma nova tradição religiosa. A nova igreja foi nomeada Igreja Evangélica Brasileira e iniciou suas atividades em setembro de 1879. (2012, p. 111).
                A aproximação de Miguel Vieira Ferreira com a Igreja Presbiteriana não foi tão súbita como deixa transparecer o historiador protestante Émile Léonard (1981). A forte ênfase progressista embrenhado de avanços na área social, especificamente a educação certamente serviram de campo de atração às propostas evangélicas protestantes propostas pelos presbiterianos.[1] Em meados de março de 1873 acompanha o pai, Fernando Luiz Vieira Ferreira com seus 70 anos, a um culto na Igreja Presbiteriana e o pai fica impressionado com a pregação ouvida conforme relato do Rev. Alexander L. Bleckford: “Quando eles saíram o velho me disse: Esse discurso exprimiu minha maneira de ver” (LÉONARD, 1953, apud, RIVERA, 2004, p. 85). A partir de 1874 os contatos entre Miguel Vieira e os presbiterianos vão se tornando mais frequentes. Parte do próprio Miguel o convite para que os presbiterianos participem de seu grande projeto “Escola do povo” (Imprensa Evangélica, 03 de janeiro de 1874), mas estes preferem apenas observar;[2] mas quando Miguel se empenha arduamente na luta pela separação plena entre a Igreja e o Estado,[3] cujas reuniões eram coordenadas pelo progenitor de Miguel, o tenente Coronel Fernando Luís Ferreira, os presbiterianos se rendem (Imprensa Evangélica, 07 de fevereiro e 07 de março de 1874).
                No dia 29 de março de 1874 a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro inaugura seu novo templo, com capacidade para mais de 500 pessoas, promovendo uma semana de conferências (Imprensa Evangélica, 04 de abril de 1874) e Miguel acompanhado do pai e familiares deles participam.[4] Desde então a família Vieira Ferreira passam a frequentar as reuniões e cultos realizados na Igreja Presbiteriana da Barreira no Rio de Janeiro.
                A conversão de Miguel foi de uma forma atípica no presbiterianismo. Durante o culto realizado no dia 22 de abril de 1874 ele teve acessos extáticos, afirmando que recebia mensagens proféticas da parte de Deus e que desejava professar sua fé.[5] O Rev. Blackford esforça-se em dissuadi-lo desse misticismo, como pré-requisito para que fosse recebido como membro, o que aparentemente ocorre e Miguel, juntamente com vários outros familiares, tornam-se membros da Primeira Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro.  
O fato de Miguel Vieira ser uma pessoa eminente na sociedade carioca e brasileira produz grande repercussão na capital do país e o fez objeto de noticiários nas revistas missionárias americanas.[6] Tendo qualidades excepcionais como orador,[7] muito ao gosto da prática evangelizadora dos missionários protestantes. No dia 7 de abril, a pouco menos de dois meses de sua conversão e a escassos dois dias de seu batismo, Vieira Ferreira já era presidente da Sociedade Bíblica Brasileira;[8] rapidamente galga posição de destaque na igreja local, e ascende à função de presbítero e projeta-se nacionalmente, pois além de pregar no púlpito da Primeira Igreja no Rio, é convidado a pregar também nas igrejas em São Paulo e Minas[9] e empenha-se em diversas traduções de obras de cunho religioso (LÉONARD, 1981, p. 68 – nota 35).
Entretanto sua ênfase cada vez mais acentuada na necessidade de uma experiência sobrenatural, decorrente de sua formação iluminista católica e mesclada por um cientismo liberal positivista, como marca distintiva de uma genuína conversão, como fora seu caso singular, começa a gerar discrepâncias cada vez maiores dentro da denominação. Sendo inquirido pela liderança e posteriormente proibido de continuar a ensinar tais princípios, Miguel Vieira opta por sair da denominação presbiteriana:
Menos de cinco anos depois, Miguel Vieira e outros 27 membros foram expulsos por heresia da Igreja Presbiteriana. O doutor Miguel se recusava a negar a experiência da revelação que vivera e propagandeava que todo cristão tinha a graça de experimentá-la. (MAFRA, 2001, p. 21).

 Fora da Igreja Presbiteriana, Miguel Vieira juntamente com alguns outros membros, maioria composta por seus próprios parentes, funda a Igreja Evangélica Brasileira em 11 de setembro de 1879, com 27 membros (LÉONARD, 1963, p. 67-70), ratificando a característica de segmentariedade que só tenderá a crescer no campo protestante evangélico brasileiro. Rivera analisa assim esta ruptura de Miguel Vieira.
Ferreira encontra ou pensa encontrar, no protestantismo um espaço social para colocar tais ideais em prática. Para ele o ideal do progresso era uma força que estava acima de tudo. Era para ele força extraordinária que dava sentindo à sua existência e ação. Tratava-se nesse sentindo, de verdadeira religião. Nesta perspectiva se explica melhor sua entrada no protestantismo e sua posterior decepção, levando-o a criar um novo espaço de realização de seus ideais regeneradores, que seria a Igreja Evangélica Brasileira. (2012, p. 123).
                E Léonard conclui seu relato histórico sobre a saída de Miguel Vieira Ferreira da Igreja Presbiteriana deixando uma questão em aberto:
Basta-nos, aqui, entretanto, constatar esse elemento de curioso sincretismo apresentado por Miguel Teixeira Vieira, como uma possibilidade de que o protestantismo não se aproveitou, ou como uma tentação que ele soube evitar. (1981, p. 70 – grifo meu).
                Esta questão levantada pelo historiador francês é significativa e merece ser mais bem pesquisada e aprofundada, pois não somente o presbiterianismo, mas todos os segmentos protestantes históricos não conseguiram encontrar um campo comum para assimilar as diferentes formas de expressar a fé cristã. O que acarretou ao longo do tempo um distanciamento cada vez maior entre este tipo de protestantismo e o povo brasileiro carregado de misticismo. É possível que esta experiência mal sucedida com Miguel Teixeira Vieira, acaba por inibir totalmente qualquer outra possibilidade de abertura para formas diferentes de expressão da fé cristã dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil. E sem entrar em qualquer mérito, parece-me que os chamados evangélicos neopentecostais, de história mais recente, encontram esta forma sincrética de envolver outras expressões de fé cristã, o que se constituiria em uma das vertentes de seu expressivo crescimento no país.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica



  
Referências Bibliográficas
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na capital de São Paulo – a Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013. Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira.
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MAFRA, Clara Cristina Jost. Os evangélicos; IN: Série Descobrindo o Brasil, ZAHAR, Jorge, ed. Rio de Janeiro: 2001.
RIVERA, Paulo Barreira. Religião e regeneração social no Maranhão. A Constituição de mentalidade laica nas elites sociais no Brasil pré-republicano. Porto Alegre: Ciências Sociais e Religião, ano 6, n. 6, p. 179-200, outubro, 2004.
______, Paulo Barreira. A reinvenção de uma tradição no protestantismo brasileiro – a igreja evangélica brasileira entre a bíblia e a palavra de Deus. IN: PEREIRA, João Baptista Borges (org.). Religiosidade no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade e São Paulo, 2012.

Artigos Relacionados
Os Primeiros Convertidos e as Primeiras Igrejas Protestantes Brasileiras
O Trabalho Desenvolvido por Ashbel Green Simonton e Seus Companheiros
Primórdios da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo





[1] O clima familiar em que Miguel cresceu estava fortemente influenciado pelo ideal encontrado no conceito de regeneração social através da educação, que surgira no inicio do século XIX na Europa e cujos expoentes eram La Salle, Lancaster, Pestalozzi entre outros, que traziam inovações na pedagogia e propunham aperfeiçoamentos na instrução primária, que encontraram ressonância nos países da América do Sul. (RIVERA, 2004, p. 180-181).
[2] Conforme nota no jornal denominacional “A Imprensa Evangélica” de 3 de janeiro de 1874.
[3] Juntamente com Tavares Bastos, Quintino Bocaiúva, Francisco J. Lemos e José Coutinho.
[4] Segundo Barrera: “Uma questão notória na pesquisa sobre a biografia de Miguel Vieira Ferreira e a ausência de informação sobre qualquer tipo de prática religiosa, ate o ano de 1874 quando ele entra numa igreja presbiteriana junto com seu pai” (outubro, 2004, p. 190). Mas Léonard indica que Miguel apesar de ser racionalista, enquanto acompanhava o pai aos cultos presbiterianos, também “assistia às reuniões espíritas” (1981, p. 68).
[5] Esta conversão atípica de Miguel Vieira e seus familiares foram registrados nas paginas do Boletim The Foreign Missionary of the Presbyterian Church, de julho de 1874, vol. 33 (Léonard, 1981, p. 68). Aqui temos algumas informações discrepantes, pois segundo Rivera, citando informação de Blackford que ele não identifica a fonte, “a mística conversão de MVF aconteceu no domingo 22 de fevereiro de 1874, depois de vários dias de profunda crise espiritual. No dia 5 de abril desse mesmo ano MVF foi batizado” (RIVERA, 2012, p. 123).
[6] Clara Mafra deixa entender que o Rev. Blackford é mais condescendente neste caso atípico de conversão pelo fato de que o Doutor Miguel Vieira Ferreira, por sua projeção social e politica “[...] certamente ajudaria a azeitar as relações dos presbiterianos com a arredia elite local” (MAFRA, 2001, p. 21 - Itálico meu). Seu batismo ocorre poucos meses depois em 05 de abril de 1874.
[7] Léonard registra a impressão inicial que Blackford teve de Vieira Ferreira: “Trata-se de um homem inteligente, ativo, que possui uma instrução incomparável [...]” (1953, p. 21, Apud RIVERA, 2012, p. 117). Rivera transcreve trechos de dois dos discursos proferidos por Vieira Ferreira, demonstrando a afinidade de pensamento com a proposta evangélica protestante, antes mesmo de sua conversão (p. 117-122).
[8] “No mês de maio [1874], discursou sobre os objetivos dessa sociedade, e um de seus argumentos foi o seguinte: ‘Todas as razões de interesse social estão ligados muito intimamente à leitura da Bíblia’. Por essa razão, segundo o próprio Ferreira, ‘todos os brasileiros, religiosos ou não, deviam apoiar essa associação” (Imprensa Evangélica, 6 de junho de 1874, apud RIVERA, 2012, p. 123).
[9] Rivera destaca sua ascensão muito rápida no protestantismo: “No dia 7 de abril, a menos de dois meses de sua conversão e a escassos dois dias de seu batismo, Vieira Ferreira já era presidente da Sociedade Bíblica Brasileira. [...] No mês de outubro, Ferreira já estava em campanha evangelizadora junto com o reverendo Blackford na cidade de Campos [RJ]” (2012, p. 123).