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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

PRESBITERIANISMO NO BRASIL – Primeiras Dissensões: Dr. Miguel Vieira Ferreira

Fundador da Igreja Evangélica
Brasileira - primeira
dissidência da IPB
                Como já referido em outros artigos, o Protestantismo trás em sua genética uma tendência fragmentaria que se perpetuou no transcorrer de sua história. Evidentemente que esta facilidade em se dividir é revestida por uma capa de zelo doutrinário ou teológico em um esforço em minimizar os efeitos danosos destas intermináveis rupturas, que, mormente tem muito menos de zelo pelo Evangelho bíblico e muito mais de personalismo e disputas político- eclesiástico, quando não interesses econômicos simplesmente. O movimento Religioso que remodelou o cristianismo ocidental no século XVI nunca foi uníssono, pois já nasceu dividido tanto teológico, quanto geograficamente. A Reforma proposta por Lutero gerou diversos movimentos reformistas por toda Europa, sendo que algumas alcançaram uma repercussão mais abrangente como a efetuada por João Calvino em Genebra, mas houve inumeráveis reformas com repercussões  apenas localizadas. Os interesses destes movimentos reformistas também variavam, a que ocorre na Inglaterra através do rei Henrique VIII, denominada por diversos estudiosos como a “Segunda Reforma”, ocorre unicamente por causa dos interesses pessoais do rei inglês, que apesar de romper com a Igreja Católica Romana, nunca deixou de ser devoto dos preceitos e liturgia romana.
                Esta genética fragmentaria transmigrou para os Estados Unidos, onde desenvolveu as diversas subdivisões gestadas na Igreja Anglicana, como os presbiterianos, congregacionais, batistas, metodistas e os próprios anglicanos. Cada grupo procura se estabelecer no novo território, inibindo que outros segmentos pudessem ali proliferar.
                São estas diversas denominações evangélicas, que foram nutridas pela seiva do nacionalismo expansionista americano, que a partir do final do século XIX começaram a serem transplantadas para o Brasil. Uma das primeiras destas denominações que aqui chegaram com um projeto definido de se estabelecer e expandir foram os presbiterianos.
A Primeira Dissensão no Presbiterianismo – Dr. Miguel Vieira Ferreira
                Os esforços dos missionários presbiterianos, logo corroborado pelos primeiros pastores nacionais, fez com que o presbiterianismo em pouco tempo pudesse alcançar resultados significativos no Brasil.
Todas as conjecturas – uma mensagem definida, um povo ávido e uma estratégia apropriada - indicavam que a Igreja Presbiteriana do Brasil continuaria firme e forte em sua expansão no país.  Mas a formação de nuvens escuras indicava que uma tempestade aproximava-se rapidamente, de maneira que, ainda no seu nascedouro ela vai experimentar o inicio do triste ciclo de pequenas e grandes divisões eclesiásticas, que marca distintivamente o protestantismo mundial, desde sua origem na chamada Reforma Protestante do século XVI,[...] (GUEDES, 2013, p. 42).
Ainda em seus primórdios, antes do chamado grande cisma, o nascente presbiterianismo brasileiro vai experimentar o gosto amargo de uma dissensão em sua denominação, nem ainda consolidada. Como coloca Rivera:
Logo nas primeiras décadas de trabalho missionário entre Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, as lideranças dessa igreja tiveram que encarar interpretações heterodoxas de algumas de suas principais tradições. O conflito levou ao êxodo de um grupo de famílias identificadas com as convicções religiosas de Miguel Vieira Ferreira, presbítero dessa igreja, que acabou fundando uma nova tradição religiosa. A nova igreja foi nomeada Igreja Evangélica Brasileira e iniciou suas atividades em setembro de 1879. (2012, p. 111).
                A aproximação de Miguel Vieira Ferreira com a Igreja Presbiteriana não foi tão súbita como deixa transparecer o historiador protestante Émile Léonard (1981). A forte ênfase progressista embrenhado de avanços na área social, especificamente a educação certamente serviram de campo de atração às propostas evangélicas protestantes propostas pelos presbiterianos.[1] Em meados de março de 1873 acompanha o pai, Fernando Luiz Vieira Ferreira com seus 70 anos, a um culto na Igreja Presbiteriana e o pai fica impressionado com a pregação ouvida conforme relato do Rev. Alexander L. Bleckford: “Quando eles saíram o velho me disse: Esse discurso exprimiu minha maneira de ver” (LÉONARD, 1953, apud, RIVERA, 2004, p. 85). A partir de 1874 os contatos entre Miguel Vieira e os presbiterianos vão se tornando mais frequentes. Parte do próprio Miguel o convite para que os presbiterianos participem de seu grande projeto “Escola do povo” (Imprensa Evangélica, 03 de janeiro de 1874), mas estes preferem apenas observar;[2] mas quando Miguel se empenha arduamente na luta pela separação plena entre a Igreja e o Estado,[3] cujas reuniões eram coordenadas pelo progenitor de Miguel, o tenente Coronel Fernando Luís Ferreira, os presbiterianos se rendem (Imprensa Evangélica, 07 de fevereiro e 07 de março de 1874).
                No dia 29 de março de 1874 a Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro inaugura seu novo templo, com capacidade para mais de 500 pessoas, promovendo uma semana de conferências (Imprensa Evangélica, 04 de abril de 1874) e Miguel acompanhado do pai e familiares deles participam.[4] Desde então a família Vieira Ferreira passam a frequentar as reuniões e cultos realizados na Igreja Presbiteriana da Barreira no Rio de Janeiro.
                A conversão de Miguel foi de uma forma atípica no presbiterianismo. Durante o culto realizado no dia 22 de abril de 1874 ele teve acessos extáticos, afirmando que recebia mensagens proféticas da parte de Deus e que desejava professar sua fé.[5] O Rev. Blackford esforça-se em dissuadi-lo desse misticismo, como pré-requisito para que fosse recebido como membro, o que aparentemente ocorre e Miguel, juntamente com vários outros familiares, tornam-se membros da Primeira Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro.  
O fato de Miguel Vieira ser uma pessoa eminente na sociedade carioca e brasileira produz grande repercussão na capital do país e o fez objeto de noticiários nas revistas missionárias americanas.[6] Tendo qualidades excepcionais como orador,[7] muito ao gosto da prática evangelizadora dos missionários protestantes. No dia 7 de abril, a pouco menos de dois meses de sua conversão e a escassos dois dias de seu batismo, Vieira Ferreira já era presidente da Sociedade Bíblica Brasileira;[8] rapidamente galga posição de destaque na igreja local, e ascende à função de presbítero e projeta-se nacionalmente, pois além de pregar no púlpito da Primeira Igreja no Rio, é convidado a pregar também nas igrejas em São Paulo e Minas[9] e empenha-se em diversas traduções de obras de cunho religioso (LÉONARD, 1981, p. 68 – nota 35).
Entretanto sua ênfase cada vez mais acentuada na necessidade de uma experiência sobrenatural, decorrente de sua formação iluminista católica e mesclada por um cientismo liberal positivista, como marca distintiva de uma genuína conversão, como fora seu caso singular, começa a gerar discrepâncias cada vez maiores dentro da denominação. Sendo inquirido pela liderança e posteriormente proibido de continuar a ensinar tais princípios, Miguel Vieira opta por sair da denominação presbiteriana:
Menos de cinco anos depois, Miguel Vieira e outros 27 membros foram expulsos por heresia da Igreja Presbiteriana. O doutor Miguel se recusava a negar a experiência da revelação que vivera e propagandeava que todo cristão tinha a graça de experimentá-la. (MAFRA, 2001, p. 21).

 Fora da Igreja Presbiteriana, Miguel Vieira juntamente com alguns outros membros, maioria composta por seus próprios parentes, funda a Igreja Evangélica Brasileira em 11 de setembro de 1879, com 27 membros (LÉONARD, 1963, p. 67-70), ratificando a característica de segmentariedade que só tenderá a crescer no campo protestante evangélico brasileiro. Rivera analisa assim esta ruptura de Miguel Vieira.
Ferreira encontra ou pensa encontrar, no protestantismo um espaço social para colocar tais ideais em prática. Para ele o ideal do progresso era uma força que estava acima de tudo. Era para ele força extraordinária que dava sentindo à sua existência e ação. Tratava-se nesse sentindo, de verdadeira religião. Nesta perspectiva se explica melhor sua entrada no protestantismo e sua posterior decepção, levando-o a criar um novo espaço de realização de seus ideais regeneradores, que seria a Igreja Evangélica Brasileira. (2012, p. 123).
                E Léonard conclui seu relato histórico sobre a saída de Miguel Vieira Ferreira da Igreja Presbiteriana deixando uma questão em aberto:
Basta-nos, aqui, entretanto, constatar esse elemento de curioso sincretismo apresentado por Miguel Teixeira Vieira, como uma possibilidade de que o protestantismo não se aproveitou, ou como uma tentação que ele soube evitar. (1981, p. 70 – grifo meu).
                Esta questão levantada pelo historiador francês é significativa e merece ser mais bem pesquisada e aprofundada, pois não somente o presbiterianismo, mas todos os segmentos protestantes históricos não conseguiram encontrar um campo comum para assimilar as diferentes formas de expressar a fé cristã. O que acarretou ao longo do tempo um distanciamento cada vez maior entre este tipo de protestantismo e o povo brasileiro carregado de misticismo. É possível que esta experiência mal sucedida com Miguel Teixeira Vieira, acaba por inibir totalmente qualquer outra possibilidade de abertura para formas diferentes de expressão da fé cristã dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil. E sem entrar em qualquer mérito, parece-me que os chamados evangélicos neopentecostais, de história mais recente, encontram esta forma sincrética de envolver outras expressões de fé cristã, o que se constituiria em uma das vertentes de seu expressivo crescimento no país.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
Outro Blog
Reflexão Bíblica



  
Referências Bibliográficas
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na capital de São Paulo – a Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião). Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2013. Orientador: Prof. Dr. João Baptista Borges Pereira.
LÉONARD, Émile G. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e história social. 2ª ed. Rio de Janeiro e São Paulo: JERP/ASTE, 1981.
MAFRA, Clara Cristina Jost. Os evangélicos; IN: Série Descobrindo o Brasil, ZAHAR, Jorge, ed. Rio de Janeiro: 2001.
RIVERA, Paulo Barreira. Religião e regeneração social no Maranhão. A Constituição de mentalidade laica nas elites sociais no Brasil pré-republicano. Porto Alegre: Ciências Sociais e Religião, ano 6, n. 6, p. 179-200, outubro, 2004.
______, Paulo Barreira. A reinvenção de uma tradição no protestantismo brasileiro – a igreja evangélica brasileira entre a bíblia e a palavra de Deus. IN: PEREIRA, João Baptista Borges (org.). Religiosidade no Brasil. São Paulo: Editora da Universidade e São Paulo, 2012.

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[1] O clima familiar em que Miguel cresceu estava fortemente influenciado pelo ideal encontrado no conceito de regeneração social através da educação, que surgira no inicio do século XIX na Europa e cujos expoentes eram La Salle, Lancaster, Pestalozzi entre outros, que traziam inovações na pedagogia e propunham aperfeiçoamentos na instrução primária, que encontraram ressonância nos países da América do Sul. (RIVERA, 2004, p. 180-181).
[2] Conforme nota no jornal denominacional “A Imprensa Evangélica” de 3 de janeiro de 1874.
[3] Juntamente com Tavares Bastos, Quintino Bocaiúva, Francisco J. Lemos e José Coutinho.
[4] Segundo Barrera: “Uma questão notória na pesquisa sobre a biografia de Miguel Vieira Ferreira e a ausência de informação sobre qualquer tipo de prática religiosa, ate o ano de 1874 quando ele entra numa igreja presbiteriana junto com seu pai” (outubro, 2004, p. 190). Mas Léonard indica que Miguel apesar de ser racionalista, enquanto acompanhava o pai aos cultos presbiterianos, também “assistia às reuniões espíritas” (1981, p. 68).
[5] Esta conversão atípica de Miguel Vieira e seus familiares foram registrados nas paginas do Boletim The Foreign Missionary of the Presbyterian Church, de julho de 1874, vol. 33 (Léonard, 1981, p. 68). Aqui temos algumas informações discrepantes, pois segundo Rivera, citando informação de Blackford que ele não identifica a fonte, “a mística conversão de MVF aconteceu no domingo 22 de fevereiro de 1874, depois de vários dias de profunda crise espiritual. No dia 5 de abril desse mesmo ano MVF foi batizado” (RIVERA, 2012, p. 123).
[6] Clara Mafra deixa entender que o Rev. Blackford é mais condescendente neste caso atípico de conversão pelo fato de que o Doutor Miguel Vieira Ferreira, por sua projeção social e politica “[...] certamente ajudaria a azeitar as relações dos presbiterianos com a arredia elite local” (MAFRA, 2001, p. 21 - Itálico meu). Seu batismo ocorre poucos meses depois em 05 de abril de 1874.
[7] Léonard registra a impressão inicial que Blackford teve de Vieira Ferreira: “Trata-se de um homem inteligente, ativo, que possui uma instrução incomparável [...]” (1953, p. 21, Apud RIVERA, 2012, p. 117). Rivera transcreve trechos de dois dos discursos proferidos por Vieira Ferreira, demonstrando a afinidade de pensamento com a proposta evangélica protestante, antes mesmo de sua conversão (p. 117-122).
[8] “No mês de maio [1874], discursou sobre os objetivos dessa sociedade, e um de seus argumentos foi o seguinte: ‘Todas as razões de interesse social estão ligados muito intimamente à leitura da Bíblia’. Por essa razão, segundo o próprio Ferreira, ‘todos os brasileiros, religiosos ou não, deviam apoiar essa associação” (Imprensa Evangélica, 6 de junho de 1874, apud RIVERA, 2012, p. 123).
[9] Rivera destaca sua ascensão muito rápida no protestantismo: “No dia 7 de abril, a menos de dois meses de sua conversão e a escassos dois dias de seu batismo, Vieira Ferreira já era presidente da Sociedade Bíblica Brasileira. [...] No mês de outubro, Ferreira já estava em campanha evangelizadora junto com o reverendo Blackford na cidade de Campos [RJ]” (2012, p. 123).

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