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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

PROTESTANTISMO - A Reforma na Inglaterra - Henrique VIII

Henrique VIII e suas esposas
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/

Evidentemente que não se pode imaginar o que seria a Reforma Inglesa sem a figura de Henrique VIII (1491-1547), filho mais jovem de Henrique VII. Ele estava sendo preparado para exercer uma função eclesiástica, quando a morte precoce de seu irmão, Arthur (1502) e posteriormente a de seu pai Henrique VII (1509) mudou totalmente sua história e da Inglaterra e, por conseguinte, da futura Igreja inglesa.
Mas a biografia de Henrique VIII instiga intensa defesas e ataques na maioria das vezes antagônicos, como resumiu Pollard:
Em nosso desejo de reprovar a imoralidade de métodos de Henry, somos levados a negar o seu sucesso, ou, no nosso apreço pela grandeza dos fins por ele obtidos, buscamos justificar os meios que ele tomou para alcançá-los. Tal como acontece com a sua política, portanto, com seu caráter. (POLLARD, 1919).

Mas assumir o trono inglês trouxe-lhe o fardo de assumir o casamento diplomático com Catarina de Aragão, a viúva de Artur seu irmão mais velho, filha de Fernando e Isabel da Espanha. Depois de postergar o máximo possível e tendo a bênção do papa Júlio II, o jovem Henrique, no apogeu de seus 17 anos, casa pela primeira vez.
Deste casamento com Catarina nasceram diversos filhos, dos quais sobreviveu apenas uma filha, Maria. O rei sabia das dificuldades históricas de manter a linhagem do trono sem um filho homem, e as lembranças das terríveis consequências das “Guerras das Rosas[1] ainda estavam frescas na memória dos ingleses, de maneira que o rei tornou-se obcecado por um herdeiro masculino.
Surge então a figura emblemática de Ana Bolena, pela qual Henrique se apaixona, o que para ele não era muito difícil. Tendo suas próprias ambições Ana resiste às primeiras investidas reais de maneira que Henrique sente-se pressionado a torna-la rainha. Entretanto, para isso teria que desvencilhar-se de seu casamento com Catarina.
Seu pedido inicial de divorcio em maio de 1527 foi colocado em banho-maria, pois o Papa de plantão, Clemente VII, não desejava e nem podia criar atrito com o sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos V, que naquele momento se constituía no maior aliado da Igreja romana. (Walker,1981, p. 32). A paciência de Henrique esgotava a cada dia, pois as estrategias do cardeal Wolsey, os canonitas, e os esforços diplomatas nenhum resultado conseguiram, e nem mesmo as ameaças pessoais de Henrique minimizaram os receios  do Papa em relação ao Imperador (Haigh, 1987, p. 105).
Entra em cena a figura de Thomas Crammer (1489-1556), então professor na universidade de Cambridge, sugerindo que o assunto da anulação do casamento real fosse transferido para a esfera das Universidades, que naquele momento histórico ocupavam uma posição relevante em relação às questões teológicas (LATOURETTE, 2006, p. 1.084).
Assim que tomou conhecimento desta proposta, o rei convoca Crammer e o coloca como capelão da família de Bolena. A questão da anulação do casamento real foi transferida para a esfera acadêmica e consultas foram feitas às principais universidades católicas, e às de maior prestígio – Paris, Orleans, Tolosa, Oxford, Cambridge, e até as italianas e todas elas corroboraram para o desfecho tão ansiado por Henrique, declarando que seu primeiro casamento com a viúva de seu irmão não era valido, (GONZALES, 2003, p. 124-125).
Imediatamente as providências são tomadas para que o rei casasse (14 de Novembro de 1532) com Bolena, pois a esta altura dos acontecimentos ela se encontrava grávida, e Henrique queria legitimar a criança, que para sua frustração pessoal veio a ser mais uma vez uma menina, Elizabete, mas, sem que ele pudesse saber, ela faria um dos mais extraordinários reinados da história da Inglaterra.
As consequências deste ato de rebeldia de Henrique também foram imediatas, pois o Papa declarou o casamento com Bolena nulo, reafirmou a validade do casamento de Catarina (março de 1534) e em 1538, Paulo III publicou a bula, já redigida a três anos, excomungando o rei e destituindo-o do trono inglês e desvinculando seus súditos do juramento de fidelidade. Todavia, na pratica o efeito foi irrisório e a bula nem sequer foi publicada na França e na Alemanha. Mas Henrique que vinha acelerando o processo de esvaziamento do poder clerical, iniciado por seu pai, através da promulgação de sucessivas leis, reagiu de forma contundente, e no dia 3 de novembro 1534, o Parlamento inglês promulga o Ato de Supremacia em que se declara: “Que o rei nosso soberano, seus herdeiros e sucessores, reis deste reino, serão considerados, aceitos e reputados como a única Cabeça suprema da Igreja da Inglaterra, chamada Igreja Anglicana” (FISHER, 1984, p. 299 - Itálico meu). Todos os que se recusassem a aceitar com juramento o Ato de Supremacia e reconhecer o novo casamento do rei como ordem de sucessão ao trono, seria considerado réu de alta traição e punido com a morte cruel. O rompimento com Roma estava selado.
Mas que não se tenha qualquer ilusão quanto às intenções de Henrique. O rei inglês tinha que tomar uma posição e como não via com bons olhos o que estava acontecendo em alguns países vizinhos que optando pela reforma viram o poder do trono minimizado ele faz a opção de instituir uma igreja dentro das necessidades dele e das características do povo inglês. Henrique VIII rompe com a Igreja Romana, mas não adota o manual dos reformadores, pois ele estabelece a Igreja Inglesa no mesmo molde da velha igreja católica romana tendo ele mesma como chefe soberano e não mais o papa. O próprio Matinho Lutero percebe esta força do rei inglês: “Henrique é o Papa, e o Papa é Henrique na Inglaterra." (HILLERBRAND, 2007, p. 212).
Henrique nunca deixou de ser católico, e somente adota na Igreja inglesa os pontos de vista dos reformadores que lhe convinham. “Henrique estava orgulhoso de sua ortodoxia e era meticuloso em sua frequência diária às missas e em seu uso de um confessor.” (LATOURETTE, 2006, p. 1.086). Alguns anos antes (1521) havia escrito um tratado teológico “Assertio septem sacramentorum” refutando o pensamento de Lutero “De captivitate Babylonica ecclesiae praeludim”, o que lhe havia valido, por parte do papa Leão X, o título de “Defensor da Fé Católica”, que sempre fez questão de ostentar até seus últimos dias. (GONZÁLES, 2003, p. 125).
Em 1536 promulga o chamado Dez Artigos, que em quase nada se diferenciava dos dogmas católicos. Para deixar ainda mais claro suas opções teológicas, em 1539 faz uma nova promulgação substituindo a anterior e restringindo-os a Seis Artigos, mais radicalmente católicos do que os dez anteriores e apelidado por muitos de “Edito Sangrento”, pois muitos discordantes foram condenados e queimados. O texto mantinha as posições católicas clássicas como a doutrina da transubstanciação, a comunhão sob uma só espécie, o celibato e a castidade do clero, as missas pelos mortos, a confissão auricular, etc. “Até o fim de sua vida, o rei escapa completamente a influência da Reforma” (CASALIS, 1989, p. 151).
Evidentemente que muitos súditos ingleses não ficaram contentes e nem passivos diante desta artimanha real. Os que defendiam o papa e a igreja romana sentiram-se traídos e os que almejavam uma reforma religiosa ampla e radical também não se sentiram realizados. Duas questões revelam a profundidade e amplitude deste descontentamento de ambos os lados: o primeiro é que tanto católicos quanto reformadores foram presos, condenados e sentenciados a morte e uma ilustração deste fato é que em 30 de julho de 1540, por ordem direta do rei “três clérigos de ideias luteranas (Barnes, Garret e Jerome) foram queimados em Smithfield; e três romanistas foram torturados e decapitados por negar a supremacia espiritual do rei” (LINDSAY, 1959, p. 279); segundo que somente vinte anos depois, após rápidas sucessões no trono inglês, é que a rainha Elizabete conseguiu impor um consenso religioso aos ingleses, chamado pelos historiadores de “Acordo Elisabetano”.
Mas alguns passos importantes foram tomados em direção a uma Reforma mais substancial, ainda nos dias de Henrique. Em 1536, Cromwell, como vigário-geral do rei, determina que uma bíblia em latim e outra em inglês fossem colocadas em cada igreja para que qualquer pessoa pudesse ler. Com o rei ainda vivo, Cramwell começou a preparar o que veria a ser o Livro de Oração Comum (Book of Common Prayer) que foi promulgado somente em 1549, após a morte de Henrique. Durante sua elaboração Cromwell mantem intensa correspondência com Melanchton, Calvino, Bucero e Pedro Mártir Vermigli. “Teologicamente o Book of Common Prayer se distingue radicalmente da doutrina católica: não adota a doutrina da transubstanciação, ou a reserva da espécie, nem a adoração do Santíssimo Sacramento e a oração pelos mortos, nem a unção dos recém-nascidos e dos doentes” (CASALIS, 1989, p.152). Este livro litúrgico teve várias revisões sucessivas, porém superficiais (1552, 1662, 1871, 1872), e ainda continua sendo utilizado nos cultos da Igreja Anglicana. Entretanto, Henrique VIII morre em 1547, deixando para seus sucessores a imensa tarefa de concluir a Reforma inglesa.


Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião





Referência Bibliográfica
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio deJaneiro: Record, 1997.
AZEVEDO, Israel Belo de. A celebração do indivíduo: a formação do pensamento batista brasileiro. Piracicaba; Editora UNIMEP/Exodus, 1996, p.63).
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Européia, 1971.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
DREHER, MARTIN N. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja, v.3).
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
FISHER, Joachim H. Reforma – renovação da igreja pelo evangelho. São Leopoldo: Ed. Sinodal e EST, 2006.
HAIGH, Christopher. English Reformations: religion, politics, and Society under the Tudors. England: Oxford, 1987.
HILLERBRAND, Hans Joachim. The division of Christendon: Christianity in the sixteenth century. Louisville, Kentucky: Published by Westminster John Knox Press, 2007.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
PEREIRA, João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e
espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005.
POLLARD, Albert Frederick. Thomas Cranmer and the and the english reformation (1489-1556). London : G. P. Putnam’s Sons, 1906.
WALKER, Williston. História da Igreja Cristã, ed. JUERP/ASTE, v.2, 3ª ed. Rio de Janeiro, 1981.
Zabriskie, Alexander C. Anglican Evangelicalism. Philadelphia, 1999.

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[1] Guerra das Duas Rosas (1455-1485) – conflito entre os Lancaster e os York, duas famílias nobres que disputavam o trono inglês. A Guerra recebeu esse nome porque o brasão dos Lancaster tinha uma rosa vermelha e o dos York uma rosa branca. Henrique VII, que tinha parentesco com as duas famílias pacificou a Inglaterra e assumiu o trono, dando início à Dinastia Tudor.

2 comentários:

  1. Fantástico, muito bom. Grato pelo texto!
    Abraço fraterno do irmão anglicano.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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