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segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Presbiterianismo na Cidade de São Paulo - Pioneiro do Radialismo Evangélico


           

          Assim como o Rev. Ashbel Green Simonton e seus colegas pioneiros utilizaram os meios de comunicação disponíveis de sua época para comunicar a mensagem protestante evangélica, fazendo uso dos jornais, revistas e outros impressos, nos primórdios do presbiterianismo brasileiro,[1] o Rev. José Borges dos Santos Junior foi um dos pioneiros na utilização do rádio[2] como instrumento de divulgação desta mesma mensagem.
            A partir de 1954 até 1980, praticamente em seus últimos anos de vida, ele manteve atividades radiofônicas com diversos programas em algumas das mais importantes rádios de São Paulo, e que eram retransmitidos para inúmeras outras rádios alcançando as mais remotas cidades e vilarejos do território brasileiro, como pode ser visto através de seus Relatórios Pastorais. O próprio Rev. Olivetti (2000, p. 66) oferece seu testemunho pessoal sobre o alcance e impacto destas mensagens radiofônicas do Rev. Borges:
O autor deste livro teve ocasião de ouvir várias vezes o programa da noite em Ponta d’Areia, distrito de Caravelas, Bahia, Congregação pertencente a Nanuque, MG, onde residia, sendo ele então licenciado ao ministério. Ele não possuía aparelho de rádio naquele tempo. Era uma sensação muito agradável ouvir tão longe da Unida [Helvétia] o pregador que não muito tempo antes eu ouvira “ao vivo” em S. Paulo e noutras localidades.
Mas seu interesse e posterior entusiasmo e permanente envolvimento com este importante meio de comunicação de massa, que na época referida era o que se tinha de mais importante a nível nacional, inicia-se com a chegada ao Brasil do Centro Áudio Visual Evangélico (CAVE)[3] em meados de 1951,[4] através dos esforços de um missionário presbiteriano norte americano, o reverendo Robert Leonard McIntire,[5] e um jovem pastor brasileiro recém-formado, o reverendo Celso Wolf, então responsável pela parte de mídias visuais, e por atuarem nesta área ganharam a alcunha carinhosa de "Rev. Áudio" e "Rev. Visual.[6] Os objetivos, definidos em seus estatutos, eram: “produzir material audiovisual para a obra de evangelização e educação religiosa das igrejas evangélicas; promover a distribuição desse material e exercer as funções de publicidade para as organizações evangélicas” (REVISTA MOSAICO, n° 47, 2010).
O Rev. Borges não perde tempo e tomando conhecimento de que o CAVE procura um lugar para iniciar suas atividades oferece imediatamente uma sala na Alameda Jaú, onde estava iniciando as atividades do que veria a ser a Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras (IPJO), para que eles montassem seu estúdio de gravações de rádio e o escritório e em seu relatório de 1951 constam duas reuniões relacionadas ao “Áudio Visual.” [7]
O CAVE é originalmente um trabalho presbiteriano, mas a IPB, apesar de tomar conhecimento das suas atividades desde 1952 (DIGESTO, CE-52B-012), e mesmo reconhecendo em diversas ocasiões a importância das atividades por ela desenvolvida nos setores da educação cristã e principalmente na evangelização (DIGESTO, SC-54-102; CE-53-018; SC-54-102) com sua morosidade costumeira em tomar decisões, vai assumir efetivamente sua participação oficial no CAVE somente em 1957, pela iniciativa direta do Rev. Borges, então Presidente do SC: “Quanto à parte do relatório do Presidente do SC comunicando haver efetivado a filiação da IPB ao Centro Áudio (Visual Evangélico CAVE), a CE-SC/IPB resolve homologar, [...]”, não sem uma ressalva quanto a iniciativa do seu presidente: “[...] registrando que o estudo da matéria deveria ter subido a esta CE-SC/IPB, determinando ao nosso representante que promova a reforma dos estatutos nos pontos assinalados pelo Rev. Dr. Benjamin Moraes”. (DIGESTO, CE-57-036 – Itálico meu). Nesta mesma reunião da CE o Rev. Borges é eleito representante da IPB junto ao CAVE (DIGESTO, CE-57-039 – Itálico meu).
Diante do envolvimento pessoal de Borges com esta questão e na comprovação incontestável da importância e resultados obtidos pela utilização dos meios de comunicação audiovisuais nas mais diversas atividades da igreja e seus campos missionários, a IPB resolve criar uma Secretaria de Comunicação: “Quanto ao relatório da CE-SC/IPB, na parte que trata do plano referente à rádio -
evangelismo, o SC resolve criar uma secretaria de radiodifusão e comunicar o fato à Missão do Norte do Brasil pedindo-lhe que permita ao Secretário usar os serviços do seu técnico de rádio, Sr. Bill Brandt da comunicação” (DIGESTO, SC-54-101- Itálico meu).
Em relação às comemorações do Centenário da IPB, da qual Borges era o Presidente da Comissão Presbiteriana Unida do Centenário, há uma recomendação explicita para que se utilizem todos os meios possíveis de divulgação dos eventos programados, inclusive o rádio:
[...] 4) recomendar às Igrejas e aos pastores, em todo o território nacional, que veiculem todas as informações relacionadas com a celebração do centenário do presbiterianismo brasileiro; que intensifiquem as reuniões de oração afim de que as igrejas ofereçam ambiente propício à obra de avivamento e expansão do Reino de Cristo em nossa Pátria; que acentuem o trabalho de evangelização, devendo ser empregados o púlpito, a imprensa e o rádio, sempre que as circunstâncias o permitirem; [...]” (DIGESTO, SC-54-047 – Itálico meu).    
E ele mesmo dá o exemplo e no seu Relatório Pastoral de 1954 registra: “Como contribuição da Igreja Unida [IPUSP] para as comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, iniciei e mantive durante o ano um trabalho de evangelização pelo rádio, com um programa diário de cinco minutos e um programa dominical de quinze minutos. Mantive, a partir de agosto, um programa de meditações diárias pela Rádio 9 de Julho.” [Itálico meu][8]  
Apesar da aparente brevidade do tempo,[9] na Rádio Tupí o primeiro de apenas cinco minutos (Meditações Matinais – 317 programas) e o segundo, dominical de apenas dez minutos (Meditações Dominicais – 46 programas), e na Rádio 9 de Julho (Meditações noturnas – [132] e Meditações Matinais – [54]) suas mensagens alcançavam grande audiência e um público amplo e diversificado.
Em 1956 ele amplia sua participação no rádio em mais dois programas: “Pelos Caminhos da Vida” na Rádio Difusora de São Paulo e para a “Voz do Santuário”[10] que também eram retransmitidos por outras rádios: Alfenas (Minas); Joaçaba (Santa Catarina); Goiânia (Goiás); Recife (Pernambuco); todos eram programas diários. (Relatório Pastoral). Em 1957 o programa a “Voz do Santuário” alcança mais uma cidade – Nepomuceno e um novo programa “Suave Convite”  é transmitido para as cidades de Joaçaba, Cuiabá, Florianópolis e Lavras. Em 1958 ele participa dos seguintes programas: Meditações Matinais, A Hora Presbiteriana (retransmitida em 15 estações)[11], Voz do Santuário (04 estações), Suave Convite (04 estações). Os demais Relatórios continuam demonstrando o mesmo empenho e disposição de comunicar a mensagem evangélica através deste importante meio de comunicação de massa.
Seus programas eram interativos, pois através de cartas recebidas e com base nas dúvidas ou perguntas de seus ouvintes, que em muitas ocasiões eram citados nominalmente, ele elaborava suas mensagens, com um conteúdo bíblico coerente e profundo, mas também permeado por seu vasto conhecimento cultural, que lhe permitia oferecer não apenas uma reflexão para um segmento específico evangélico protestante, mas também proporcionava a todos os demais ouvintes, dos mais simples aos mais intelectualizados, a oportunidade de uma mensagem de boa qualidade.
            Sendo ele uma pessoa sempre contemporânea aproveitava todos os acontecimentos mediáticos para deles comunicar sua mensagem cristão-evangélica, de maneira que seus ouvintes não eram alienados do cotidiano, mas ao contrário, podia fazer tranquilamente o link da mensagem ouvida com a sua própria realidade cotidiana.
            Quero inserir aqui dois acontecimentos interessantes relacionados à atuação de Borges no rádio. O primeiro é que a Rádio Bandeirantes certa vez tentou tirar o programa de sua grade, mas a rápida intervenção de Amador Aguiar, que ordenou a suspensão imediata de toda a publicidade do grupo Bradesco na Rede Bandeirantes, fez com que a emissora suspendesse a decisão tomada, de maneira que o “programa do rev. Borges”, como era conhecido, continuou a ser transmitido às 6h55, antes dos noticiários matinais daquela emissora, até o envelhecimento e morte de seu apresentador e de seu protetor (CAMPOS, 2004)[12]; o segundo destaque é que em 1974 quando Borges esteve impossibilitado de gravar, por estar com hepatite, ditou as mensagens e enviou ao radialista José Paulo de Andrade, que as\transmitia todas as manhãs pela Rádio Bandeirantes.(Relatório Pastoral).
            Muito ainda poderia ser colocado aqui a respeito deste amplo ministério radiofônico desenvolvido por Borges ao longo de mais de duas décadas, mas o espaço desta pesquisa é limitado.[13] Mas creio que as palavras transcritas por Castro, de uma homenagem feita a Borges, oito meses após o encerramento de seu último programa (novembro de 1980), revela um pouco do impacto que seus programas tiveram na vida de seus ouvintes:
[...] No meio de todos esses astros, temos um ser tão luminoso que há dezenas de anos vem orientando o caminho a milhares de pessoas que as vezes se perdem, devido talvez à incompreensão humana, que quase sempre tem suas falhas hereditárias. Este iluminado Comunicador, que todas as manhãs enchia-nos de esperanças para começarmos o nosso trabalho, já não pode nos oferecer essas mensagens, ao iniciarmos o nosso dia de trabalho. A este ser humano que é o REVERENDO BORGES, as humildes, mas sinceras homenagens dos Artistas, do Povo e das Autoridades de Embu. (2011, p. 101)



Referências Bibliográficas 

BELLOTTI. Karina Kosicki. Entre a cruz e a cultura pop: mídia evangélica no Brasil. IN: LEONEL, João. Novas perspectivas sobre o protestantismo brasileiro. São Paulo: Fonte Editorial/Paulinas, 2009.
FAJARDO, Alexander. A atuação dos evangélicos no rádio brasileiro – origem e expansão. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2011.


OLIVETTI, Odair. Igreja Presbiteriana de São Paulo (1900-2000) – na esteira dos passos de Deus. São Paulo: IPUSP/Editora Cultura Cristã, 2000.


[1] No Brasil, junto com os missionários americanos chegaram os jornais. Uma das primeiras providências do missionário presbiteriano Ashbel G. Simonton foi fundar, em 1865, o jornal semanal Imprensa Evangélica, e os metodistas, no final do século, o Cathólico Metodista, que depois muda de nome para O Expositor Cristão. A distribuição de livros entre os protestantes foi tão intensa que, no final do século XIX, já circulavam no Brasil jornais dos presbiterianos, batistas, metodistas e de outros grupos religiosos”. (CAMPOS, REVISTA USP, 2004). A própria Reforma Protestante do século XVI é devedora à invenção da imprensa, que foi o instrumento para divulgação de suas ideias e propostas reformistas.
[2] Bellotti destaca: “Introduzido no Brasil em 1922, o rádio foi o primeiro veículo de massas a predominar em nosso país no século XX, fazendo parte do cotidiano doméstico. Na década de 1950, o rádio era o grande meio de informação e entretenimento brasileiro, período áureo dos cantores do rádio, as primeiras grandes celebridades brasileiras de massas, [...]”. E a mesma autora registra o que pode ser o primeiro programa de rádio evangélico no Brasil: “No Brasil, registros do jornal presbiteriano O Puritano apontam para o que pode ter sido a primeira iniciativa evangélica no rádio, datada de 15 de maio de 1938, quando ocorreu a primeira irradiação do programa “A voz evangélica do Brasil”, transmitido das 22h00 às 22h30, aos domingos, pela Rádio Transmissora Brasileira, PRE 2 Rio de Janeiro”. (2010, p. 287)
[3] Segundo Bellotti (2009) o CAVE teve sua manutenção financeira bancada pelo Radio Audiovisual Education and Mass Communication Commission Overseas (RAVEMCCO) este por sua vez era um projeto da National Council of Churches in Christ of USA (NCCCUSA) que naquela época pós-guerra, estava financiando projetos audiovisuais em diversos países. Sendo assim “CAVEs” foram abertos no Japão, Índia, Paquistão, Líbano, México, Coréia do Sul entre outros. (2003, p. 294)
[4] Vários objetos do CAVE já podem ser vistos em exposição no museu histórico do Centro de Memória [Metodista]: saudosas máquinas de escrever, jurássico mimeógrafo, máquinas fotográficas mecânicas, projetores de slides, filmadoras.... essas peças lembram que o CAVE, nascido em 1951, atuou por 20 anos na produção de material audiovisual para igrejas evangélicas do país com uma infraestrutura completa. Teve laboratório fotográfico, estúdios de rádio e TV e até mesmo seu próprio parque gráfico. (REVISTA MOSAICO, número 47, 2010)
[5] Não confundir este McIntire com Carl Mclntire. o fundamentalista norte americano que fundara o Conselho Internacional de Igrejas Cristãs (CIIC).
[6] Conforme registrado na revista: “Reporto of the General Secretary of the CAVE, February 28, 1961, p. 1”(Apud BELLOTTI, 2009, p. 295).
[7] A Confederação Evangélica do Brasil (CEB), da qual Borges fazia parte, apoiaram o CAVE desde o inicio, inclusive participando do primeiro programa por eles produzido denominado de “A Voz Evangélica”, custeada pelas igrejas filiadas. Em 1956 ela se transfere para sede própria na cidade de Campinas, onde permanece até o encerramento de suas atividades na década de 1970. A causa deste encerramento esta relacionada conforme Campos a uma série de fatores: “Há denúncias de que naquele período se chegaram a usar recursos humanos e materiais do Cave para gravar propagandas encomendadas pelo regime militar. Com a crescente combinação de má administração com interferências da política secular e eclesiástica das igrejas membros e a diminuição de recursos financeiros norte-americanos, o projeto encerrou as suas atividades.” (REVISTA USP, 2004).
[8] Em seu Relatório anterior (1953) ele menciona: “Mantive, durante algum tempo, um trabalho de evangelização pelo rádio” e depois especifica: “Pregações pelo rádio: São Paulo (20)”. A partir desta experiência Borges só deixara o rádio em 1980, quando produz seus últimos programas matutinos.
[9] Este formato não foi por simples questão econômica, visto que os programas eram muito caros, ou por uma questão aleatória, mas por uma questão de estratégia do CAVE: “Segundo Garrido Aldama, um dos fundadores de “A Voz dos Andes” e colaborador do CAVE na década de 1950, cindo minutos diários fariam mais diferença do que meia hora semanal: [...]” (BELLOTTI, 2010, p. 297).
[10] Em Recife, na Rádio Clube de Pernambuco, o reverendo João Campos de Oliveira da Igreja Presbiteriana do Brasil iniciou, em 1956, o programa "Voz do Santuário", que posteriormente veio a se chamar "Meditação do Santuário". O programa foi um dos mais longevos do meio evangélico tradicional. Permaneceu no ar por 41 anos. Seu encerramento se deve ao fato de seu locutor com idade de quase 80 anos estar com problemas de saúde. Seu falecimento ocorreu em 2004 aos 84 anos25. (FARJADO, 2011, p. 78)
[11] Este programa foi criado pela Comissão do Centenário da Igreja que seria comemorado em 1959. Passou a funcionar a Secretaria de Rádio-evangelização da Igreja. [...] A união da Igreja com o rádio vingou e no ano do centenário o programa estava sendo transmitido por 38 emissoras em 15 estados e no Distrito Federal. Após o centenário. Enos Ribeiro de Barros (1959:109) registrou que o programa chegou a ser irradiado por 47 emissoras em 17 estados e o Distrito Federal. (FAJARDO, 2011, p. 77)
[12] Fajardo menciona uma informação da Revista Ultimato (ano XIV,n 139. jul/ago 1981, p. 21). Que após 28 anos no ar, o programa "Meditação Matinal" encerra em fevereiro de 1981, tendo seu apresentador então 83 anos. (2011, p. 71). Entretanto, em seu relatório referente a 1981 não consta estes programas, somente no Relatório anterior, 1980, consta a gravação de 84 programas, mas que somente 38 foram ao ar.
[13] Ainda que esteja fora do recorte histórico proposto, creio ser importante registrar que o Rev. Borges foi um dos primeiros lideres protestante (evangélicos) a ser convidado a participar de Entrevistas e outras atividades em canais de televisão brasileira o Relatório de 1971 registra entrevistas para Canal 13 (Bandeirantes) e Canal 5 (Globo); em 1972 o IPSE juntamente com outras confissões religiosas promoveram o Dia de Oração e o Dia de Ação de Graças, com transmissões simultâneas de rádios e canais de televisão para todo o território brasileiro.