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quarta-feira, 7 de outubro de 2015

PRIMEIRO CURSO TEOLÓGICO PROTESTANTE NO BRASIL


Nestes dias em que presenciamos uma multiplicidade de cursos teológicos protestantes (evangélicos) proliferando por todo país, inclusive dentro das Universidades não confessionais, é difícil pensar que o Brasil, desde quando foi inserido no contexto mundial em 1500 pelos portugueses, demorou quase quatro séculos, exatamente 367 anos para que o primeiro curso teológico protestante fosse iniciado no país.[1]
            Coube então ao jovem missionário estadunidense Rev. Ashbel G. Simonton (1833-1867), que aqui chegara em 1859 para implantar a denominação presbiteriana,[2] um dos ramos histórico do protestantismo, e que apesar da brevidade de suas atividades missionárias, “como que prevendo a brevidade de suas atividades missionárias que seria tolhida por sua morte precoce aos 34 anos” (GUEDES, 2013, p. 29), deixou uma herança de valor incalculável para o desenvolvimento do presbiterianismo no país, entre as quais a instalação do primeiro seminário protestante no país.
            A educação sempre foi uma das vertentes primordiais do protestantismo desde seu início. É com Martinho Lutero e Calvino, assim como os demais líderes reformistas que o ensino público obrigatório passou a ser inserido nas pautas governamentais.[3] Os centros acadêmicos protestantes tornaram-se fecundos e fecundantes dos ideais e propostas alavancadas pelo movimento reformador. A “Academia de Genebra” (Suíça) implantada por João Calvino tornou popular o sistema teológico por ele elaborado e esboçado em sua obra mor – As “Institutas da Religião Cristã”, assim como o sistema de governo eclesiástico representativo presbiteriano, onde as igrejas elegem seus pastores, presbíteros e diáconos, com tempo do exercício de suas funções preestabelecidos. Através da Academia Genebrina, esse conjunto teológico-eclesiástico se disseminou por toda a Europa[4] e posteriormente atravessou o Oceano Atlântico para ser implantado primeiramente na América do Norte, através dos imigrantes advindos da Grã-Bretanha, e no final do oitocentos começou a ser transmigrado e/ou transplantado para a América do Sul através de missionários estadunidense chegando deste modo ao Brasil.
            Como acima referido o Rev. Simonton traz em seu bojo missionário o alto conceito protestante de uma educação eficiente. Naquele momento o Brasil é um país de analfabetos (mais de 70% da população urbanas e mais de 90% nas rurais) de maneira que o jovem missionário coloca como prioritário em sua agenda – a escola.[5] Em seu diário registra: “O plano de uma escola protestante aqui, de grau elevado, para ingleses e os brasileiros que quisessem frequentá-las, tem ocupado muito dos meus pensamentos ultimamente” (SIMONTON, 1982, p.158).[6] O mais rapidamente possível inicia uma pequena e singela escola primária para meninos no mesmo local onde funciona a iniciante Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, em um edifício alugado no antigo Campo de Santana, hoje a Praça da República, a partir de 1867 e posteriormente inicia também uma escola de alfabetização para adultos à noite.
O reverendo Simonton havia sido professor de meninos em sua terra natal e tinha claro que a conversão passava pela leitura da bíblia, o que era inviável para uma população com alto índice de analfabetismo. Para ele, criar escolas era condição mais do que necessária para levar a bom termo a propagação da fé religiosa e para a evangelização do país que lhe dera acolhida. A cada grupo convertido nas vilas do interior, solicitava à missão que enviasse um professor ou pagasse o salário de algum mestre ali radicado que pudesse formar uma classe de primeiras letras. A abertura de escolas em lugares distantes da igreja, ... também foi uma maneira de atingir uma parcela da população que se espalhava em pequenas vilas interioranas de difícil acesso e onde os representantes do clero não costumavam chegar. Para essa população, colocada em orfandade católica, a religião era bem-vinda e possibilitava casamentos e batizados, além da devoção cotidiana. O que dizer de uma escola que ensinasse as primeiras letras à meninos e meninas até então completamente afastados da educação pública ou católica? Por isso os missionários dedicados à educação constituíam uma missão à parte, conforme pensamento da Junta de New York, e em suas mãos repousava o primeiro caminho para levar a palavra do Senhor à população ignorante (ALMEIDA, 2000, s/p).
O Rev. Alexander L. Blackdord em sua carta-relatório reafirma esta opção pela implantação de escola como caminho eficiente para o desenvolvimento do projeto missionário:
Rio de Janeiro – Inauguramos uma escola diária para meninos e meninas ... a mesa administrativa em Nova York já nomeou uma mestra para a escola (Miss. Mary P. Dascomb) ... Miss Dascomb já havia morado no Rio, aonde viera em 1866, para ser preceptora dos filhos do Cônsul norte-americano. Nessa época, encontrou-se com Simonton e fez amizade com ele” (1968).  
Essas pequenas escolas umbilicadas com as igrejas foram estabelecidas em diversas locais, tendo no Rev. João Fernandes Dagama (1830-1906) um de seus mais entusiastas fomentadores, permitindo assim que crianças e adultos fossem alfabetizados e pudessem ler por si mesmos a Bíblia (RIBEIRO, 1981, p. 183-198). Apesar da precariedade dos locais e sem carteiras, lousas e material didático apropriados as escolas iniciadas por Dagama conseguia proporcionar um ensino de boa qualidade, pois suas professoras eram altamente qualificadas,[7] atendendo assim os filhos dos imigrantes e da população mais carente.
            Todo esforço de Simonton e seus companheiros missionários centra-se no binômio – educação e religião,[8] pois diante do quadro de analfabetismo da grande maioria da população e o fato de que a mensagem evangélica protestante que desejam comunicar está centrada no livro (Doutrina, Culto, Hinos), somente lhes restam uma alternativa – educar para salvar, de maneira que a educação (escolas) e a comunicação da mensagem (pregação) tornam-se as duas faces de uma mesma moeda.[9]
            Paralelamente à necessidade premente da educação básica, Simonton começa a sonhar com a preparação acadêmica teológica dos primeiros pastores presbiterianos brasileiro. Intuitivamente ele sabe que somente com a formação de um ministério bem preparado de pastores nacionais, para assumirem a liderança da igreja em formação, seria possível uma expansão permanente. Sabia por experiência própria que os missionários encontravam no aprendizado da língua e na adaptação cultural uma enorme limitação para uma comunicação eficaz da mensagem, tornando o desenvolvimento da missão moroso, de maneira que um crescente número de pastores nacionais bem capacitados asseguraria não apenas o dinamismo como também a consolidação de todo trabalho realizado (SHAULL, 1959, p.111). Sem tempo para maiores reflexões Simonton vai utilizar-se das estruturas protestantes importadas dos americanos, que inicialmente será positivo, mas que ao longo do tempo se constituirá em uma camisa de força, inibindo o surgimento de um protestantismo autóctone e mais identificado com a cultura nacional, criando um fosso cada vez maior entre a proposta evangélica protestante e a sociedade brasileira – que perdura ainda no século XXI.[10] 
Tal sonho parecia ser mais, um desvario de um jovem missionário empolgado, do que uma realidade, visto que o presbiterianismo é naquele momento totalmente incipiente no Brasil. Mas, de uma possibilidade futura remota começa-se a se esboçar uma necessidade premente, pois com a ordenação do ex-padre José Manoel da Conceição, a expansão presbiteriana toma forma desproporcional[11] e a necessidade de pastores torna-se a cada dia mais urgente. Nas correspondências de Simonton e seus companheiros missionários multiplicam-se os rogos por mais pastores, mas as respostas da junta missionária matriz são morosas e insuficientes. Só há uma forma de se resolver esta equação – iniciar um seminário no Brasil[12].

Seminário Primitivo[13]
            Como referido anteriormente Simonton autorizado pela Missão aluga um pequeno prédio no centro do Rio de Janeiro, localizado no número 39 da Praça da República, que tinha na época o nome de Campo Sant’ana, posteriormente Praça da Aclamação.
            O pequeno edifício composto de três andares haveria de abrigar diversas atividades da missão: o primeiro andar foi reservado para ser o espaço da igreja, utilizando o amplo salão da frente, que poderia receber até quatrocentas pessoas e onde celebravam-se os cultos e estudos bíblicos; em um salão ao fundo funcionava a escola paroquial iniciada por Simonton, e um quarto ao centro foi reservado para depósito de bíblias, livros e tratados religiosos. No terceiro andar foi instalado a família de Santos Neves, pois sua esposa, D. Gervasia exercia as funções de diretora da escola paroquial e organista da igreja. O segundo andar fora ocupado exclusivamente pelo seminário; os estudantes foram ali acomodados, bem como espaço para ministração das respectivas matérias letivas. Logo os membros da pequena comunidade presbiteriana se referiam ao segundo andar como o “seminário”. No dia 14 de maio de 1867, inicia-se as aulas do primeiro seminário presbiteriano (protestante) no Brasil.
            O Rev. Antônio Trajano, relembrando aqueles primeiros dias de seminarista registra em um longo artigo, que será citado em pequenos extratos: “Foi aí, finalmente, que se organizou e se estabeleceu o primitivo seminário presbiteriano do Brasil, o qual deu as primícias do ministério que já saía da Igreja nascente”.
            Os quatro estudantes iniciantes foram: Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa, Antônio Bandeira Trajano, Antônio Pedro de Cerqueira Leite e Miguel Gonçalves Torres. Todos completaram seus estudos e oportunamente foram ordenados como pastores pioneiros da Igreja Presbiteriana do Brasil.
            Eles não eram jovens desprovidos de preparo, pois eram estudantes que traziam em seus bojos algum conhecimento preliminar: Carvalhosa havia sido aluno em colégio interno; Trajano havia feito estudos preparatórios por quase dois anos em São Paulo; Antônio Pedro era versado em gramatica portuguesa e latim (que havia aperfeiçoado com o então Padre José Manoel da Conceição); e Miguel Torres dedicara suas preciosas horas em estudos autodidata, que muito lhe valeram no transcorrer do curso superior.
            No período de férias acadêmicas participavam das atividades missionárias, de maneira que dois permaneciam no Rio de Janeiro, enquanto os outros dois eram enviados para os diversos campos que estavam sendo abertos e careciam de assistência.
            Ao retornarem para o segundo ano, a grade curricular fora acrescida de novas matérias: introdução ao grego, matemática avançada e exercício de declamação, para melhorar a oratória. Também foram convidados para auxiliarem na Escola Paroquial que estava em pleno funcionamento, de maneira que cada seminarista assumiu respectivas matérias: Modesto lecionava inglês; Antônio Pedro, música; Trajano, geografia e aritmética e Miguel Torres, gramática. A Escola Paroquial toma um novo impulso e desenvolvimento.
            As correspondências do jovem estudante Antônio Pedro tornam-se janelas preciosas para expiarmos a dinâmica deste primeiro Seminário. Em uma de suas correspondências dirigidas à sua mãe, ele nos permite um destes olhar:
“O sr. Schneider é nosso mestre. Ele já me passou para álgebra, onde me acho atolado desde os pés até a cabeça. A álgebra quase me deixa sem miolos. Daqui a quinze dias tem de haver uma discussão entre os senhores Modesto e Miguel acerca de um ponto da Escritura marcado pelo sr. Blackford. Participo-lhe que já houve a grande discussão sobre a tradição. Em primeiro lugar falei eu afirmando que ela fazia parte da nossa regra de fé. Negou depois de mim em um discurso o sr. Modesto. Falou em terceiro lugar o sr. Trajano, meu companheiro, reafirmando o que eu tinha sustentado, e em último lugar o sr. Miguel. Sou parte suspeita para dizer alguma qualquer coisa acerca desta discussão; mas apelo para o Sr. Chamberlain, que acabado tudo, disse ao Sr. Blackford que não achava termos a verdade do nosso lado” (FERREIRA, 1950, p. 21).
            Em outra correspondência comenta sobre a saúde dos estudantes e professores:
Graças a Deus vou passando com saúde, e por ora contente, embora tenha sofrido e sofra muito com a separação. Os estudantes passam bem; o sr. Modesto e o sr. Trajano estão gordos, e o sr. Miguel, posto que ainda sofra da sua tosse, contudo vai indo também sofrivelmente”.
E continua ele em outra correspondência: “Estamos debruçados sobre os livros. O senhor Trajano voltou de Lorena e chegou gordo e corado. O sr. Miguel tem tido uma tosse há muito tempo, da qual ainda não está bom, e acha-se um pouco pálido”. No caso deste último estava acometido da tuberculose e posteriormente foi transportado para a cidade de Caldas, com clima mais adequado ao seu tratamento.
Desses quatro seminaristas pioneiros, dois fizeram parte da formação da primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo: Miguel Torres e Antônio Trajano. Em cinco de março de 1865 o Rev. Blackford recebia por profissão de fé, em culto público, os primeiros seis membros da nascente igreja: Manoel Lopes Braga, Miguel Gonçalves TorresAntônio Trajano, José Maria Barbosa da Silva, Ana Barbosa da Silva e Olímpia Maria da Silva. Os outros dois seminaristas Modesto Perestrello (25 de março de 1866) e Antônio Pedro (30 de dezembro de 1866) ingressariam no ano seguinte.
            Trajano havia sido levado ao conhecimento do evangelho protestante através de José Maria Barbosa da Silva (Barbosinha) e por sua vez trouxe o jovem amigo Miguel Torres à conversão evangélica. Ambos trabalhavam em comércios colocados frente a frente, mas que pertencia ao mesmo proprietário, à rua da Quitanda e compartilharam o mesmo dormitório nesta época.
            Essa primeira experiência acadêmica teológica foi abreviada ainda em sua primeira turma, pelo falecimento precoce de seu mentor Rev. Simonton. Apesar de ser substituído pelo Rev. Bleckford na direção, outros fatores como a retirada do Rev. Carlos Wagner (luterano) para a Suíça, e a concomitante transferência do Rev. Schneider para a cidade da Bahia, e pela impossibilidade de se formar a curto prazo um novo corpo docente, o Seminário encerra suas aulas.
            Concluo esse sucinto relato com as informações oferecidas pelo Rev. Herculano de Gouvêa (1922, p. 486), quando faz uma pequena homenagem aos quatro primeiros formandos e ordenados pastores presbiterianos, onde destaca alguns detalhes de cada um deles.
            Rev. Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa: foi o primeiro dos seminaristas a ser ordenado em 20 de julho de 1871, assumindo o pastorado da IPB de Lorena. Desenvolveu atividades pastorais nas cidades de Campos (RJ), por dez anos e que fora organizada por ele e o Rev. Blackford, Rio de Janeiro, Curitiba por cinco anos, São Paulo (foi auxiliar do Rev. George Chamberlain) e posteriormente assumiu o pastorado da Segunda IPB de São Paulo, que após a junção com a pequena IPB Filadelfa tornou-se a Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo. Desenvolveu atividades literárias seja escrevendo ou traduzindo obras entre as quais: Compendio de Doutrina Cristã; Livro de Ordem; Compendio Elementar de Escrituração Mercantil (utilizada no currículo do Mackenzie College); na área litúrgica fez uma adaptação do Diretório do Culto Público de Westminster, que foi inserido na Constituição da IPB; preparou um Manual de Culto voltado para s lideranças leigas, bem como sermões e artigos religiosos.
            Rev. Antônio Bandeira Trajano: apesar de estar atuando como licenciado desde 1870, sua ordenação somente ocorre cinco anos mais tarde, no dia 10 de agosto de 1875, na cidade de Rio Claro. Assume o pastorado de Brotas (terceira IPB e a primeira iniciada por José Manoel da Conceição) e concomitantemente as igrejas de Rio Novo e dois Córregos. Também atuou no pastorado em São Paulo e durante 15 anos pastoreou a IPB do Rio de Janeiro, sendo o primeiro pastor nacional a assumir a primeira IPB do Brasil. Foi nomeado o primeiro historiador da IPB e em 1902 publica o “Esboço do presbiterianismo no Brasil”, e em 1902 outra obra “Esboço Histórico da Igreja Evangélica Presbiteriana” em comemoração aos 40 anos da IPB do Rio de Janeiro. Produziu obras na área pedagógica: Aritmética Primária, Aritmética Elementar Ilustrada,[14] Aritmética Progressiva; Álgebra Elementar, obras que foram utilizadas em muitas escolas por todo o Brasil, sempre recomendadas pelos melhores especialista da área. Ainda escreveu a obra Estudos da Língua Vernácula. Na área religiosa produziu: duas séries de sermões sob o tema a Luz Messiânica; diversos históricos do evangelismo nacional; sermões avulsos e artigos em jornais e revistas.
            Rev. Miguel Gonçalves Torres: foi ordenado juntamente com seu colega Trajano, em 10 de agosto de 1875, assumindo os pastorados da IPB de Caldas, Machado e Borda da Mata. Posteriormente organizou diversas igrejas na região sul de Minas Gerais. Excelente polemista suas obras reproduzem essa habilidade: A Igreja Romana à Barra do Evangelho e da História,[15] foi escrito no contexto da maior crise religiosa no Brasil Império conhecida como “Questão Religiosa” que culminou com a queda da Monarquia e início da República; Vida de Jesus, uma obra homônima do racionalista francês J. Ernest Renan (1823-1892); A Religião Evangélica Perante o Público, por uma solicitação do Presbitério do Rio de Janeiro, foi publicado pela Junta de Publicações da Igreja do Norte (PCUSA); bem como diversos sermões e artigos. Excelente professor, atuou sempre na área educacional, tendo entre seus alunos mais ilustres o então futuro cientista Vital Brasil.[16]
            Rev. Antônio Pedro de Cerqueira Leite: sua ordenação foi no dia 08 de agosto de 1876 e assume o pastorado da IPB de Sorocaba e Faxina. Mas seu campo certamente foi um dos mais extensos, incluindo: Tietê, Tauí, Itapetininga, Guareí, Lençois, Paranapanema (divisa com Mato Grosso), Rio Novo, Capão Bonito e Apiaí. Além de sermões e artigos publicou o livro “As Bíblias Falsificadas, resposta a uma Velha Pastoral”, resultante de uma série de artigos para o jornal “Imprensa Evangélica” de grande interesse e valor. Morreu ainda jovem com apenas 38 anos e apenas 07 de ministério ordenado. Músico de primeira qualidade organizou na cidade de Sorocaba o primeiro coral presbiteriano do Brasil (1876), que veio a ser conhecido apreciado por todo o país.
            Desta forma, apesar da brevidade desse “Seminário Primitivo”, imitando seu mentor Rev. Simonton, esta pioneira iniciativa perpetuou o cuidado que a Igreja Presbiteriana manteve sempre com relação à preparação de seus ministros. Realçando uma vez mais a crítica já referida acima, de que o enclausuramento nas instituições teológicas contribuíram em muito para um crescente academicismo e a consequente alienação dos seminaristas em relação a sociedade com quem eles teriam que interagir. Esta situação vai ser exposta somente na década de cinquenta e início de sessenta, quando instigados pela presença carismática do Rev. Richard Shaull, os estudantes de teologia protestantes descem as pontes levadiças de suas instituições teológicas e eclesiásticas, em um esforço de inteiração entre a teologia e a prática social, que foi totalmente amputada por suas lideranças eclesiásticas e não apenas deixou de avançar, como retroagiu e enrijeceu ainda mais os limites teológicos acadêmicos. A junção perfeita entre o ministério interativo do Rev. José Manoel da Conceição e o ensino teológico institucional é a grande utopia do protestantismo brasileiro. Se isto tivesse sido buscado com maior empenho e menos fobia, certamente o protestantismo haveria de ter produzido um impacto muito mais intenso e frutífero no desenvolvimento de uma sociedade mais equilibrada e sadia. Com o alienamento teológico, a sociedade brasileira ficou à mercê de toda sorte de ideários e ilogismos, perpetuando toda sorte de sentimentos doentios inerentes às consequências do pecado humano, que hoje se veem escancaradamente em todas as instâncias sociais e estampadas em todos os meios de comunicação. Por esse prisma podemos concluir que o protestantismo brasileiro com pela postura equidistante fóbica torna-se parte responsável pelo caos social que vivemos hoje na sociedade brasileira.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
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Referências Bibliográficas
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[1] Os jesuítas, segundo Piletti, haviam construído uma ampla rede teológico-educacional no país, ainda nos quinhentos, conforme seu registro: 36 missões, escolas de ler e escrever em quase todas as povoações e aldeias ... além de dezoitos estabelecimentos de ensino secundário, entre colégios e seminários, localizados nos pontos mais importantes do Brasil: Bahia, São Vicente, Rio de Janeiro, Olinda, Espírito Santo, São Paulo, São Luiz, Ilhéus, Recife, Paraíba, Santos, Pará, Colônia do Sacramento, Florianópolis, Desterro, Paranaguá, Porto Seguro, Fortaleza, Alcântara e Vigia. Mas a reforma promovida pelo Marquês de Pombal (SILVA, 2010, p. 36).
[2] Ele foi enviado pelo Board of Foreign Missions (Junta de Missões Estrangeiras), de Nova Iorque, da Igreja Presbiteriana do Norte, passando a ser identificada simplesmente por Board.
[3] Podemos perceber esse ethos protestante permeando os processos reformados difundidos na Europa oitocentista em que a bandeira tremulante é a Educação para todos. Ainda no século XVII temos a figura de Comênio, que elabora sua normatização didático-pedagógica e participa efetivamente da organização de todo sistema escolar básico na Europa reformada. E Jacqueline Gautherin (2006, p. 91) em sua análise da influência protestante na educação francesa e europeia conclui: “... a pequena minoria protestante exerceu uma influência notável sobre a pedagogia universitária e sobre a Ciência da Educação”.
[4] Calvino em 1559 fundou a Academia Genebrina - Universidade de Genebra. Perseguidos em seus países um grande número de cristãos críticos da Igreja Romana encontrava refúgio em Genebra e ingressavam na Academia e posteriormente regressaram aos seus países de origem: França, Países Baixos, Inglaterra, Escócia, Alemanha e Itália.
[5] A Companhia de Jesus, fundada por Inácio de Loyola, se fez presente no Brasil desde 1549 com o padre Manoel da Nóbrega e José de Anchieta que estabelecem uma rede composta por igrejas, seminários e escolas, de maneira que passaram a exercer uma forte influência em todos os estratos da população, por um longo período de 210 anos (LIMA, 2001, p. 31-46; POMBO, 1959, v.1, p. 178-188; PILETTI, 1996, p. 38). Somente com a reforma promovida por Pombal esta rede jesuíta foi desmantelada, o que acabou deixando o país sem qualquer projeto educacional, que viria a se constituir em um amplo campo de atuação dos futuros ramos protestantes que aqui chegaram.
[6] Simonton convida um de seus irmãos, James, para que viesse abrir uma escola voltada para os filhos das elites. James aceitou a proposta chegando no Brasil em junho de 1861, mas a escola não saiu do projeto, mesmo assim ele permaneceu lecionando num colégio em Vassouras, por alguns anos (SIMONTON, 1982, p. 162, 172, 176 e 197).
[7] Jane Soares de Almeida (2000, s/p) destaca que as “mulheres eram as principais trabalhadoras nas escolas, de acordo com o ideal educativo norte-americano de alocar às professoras a responsabilidade de ensinar crianças, desde os anos iniciais dos oitocentos”. E complementa que apesar das preocupações com a segurança dessas professoras nos campos mais distantes no interior do país, elas tornavam-se indispensáveis no projeto missionário, e destaca que a força matriz que as impulsionavam a continuarem firmes era a “concepção de trabalho como vocação e de glorificação da palavra divina, de acordo com a ascese protestante”, tão bem exposta por Max Weber em seu trabalho de análise do protestantismo (2004), de maneira que qualquer impedimento para que elas realizassem sua vocação “ao contrário do espírito religioso católico, e ainda atrelado ao colonialismo lusitano que via o trabalho feminino como desairoso, seria, para os protestantes, impedir a exposição da vontade divina e as missionárias se constituíram nas principais educadoras das pequenas escolas paroquias erigidas nas vilas ao lado das igrejas e também nas escolas maiores fundadas pelos missionários com verba da Junta dos Estados Unidos”.
[8] O estudioso do protestantismo brasileiro, Paul Pierson, examinando as atas da Missão Sul, identifica ao menos cinco alvos explícitos das instituições educacionais missionárias: Auxiliar na propagação do evangelho, especialmente entre as classes superiores; preparar os crentes para viverem em um nível econômico mais elevado, o que lhes permitiria sustentar a igreja e exercer maior influência na sociedade; proporcionar um ambiente educacional de nível espiritual e moral mais elevado do que o encontrado nas escolas públicas e católicas; preparar líderes para a igreja; e contribuir de maneira geral para a cultura e o progresso da nação ensinando os alunos a usarem seus recursos de modo mais eficiente (1974, p. 108 e p. 31; apud, MATOS s/d, s/p).
[9] Ramalho (1976, p. 81) elenca algumas escolas de origem presbiteriana: Instituto Gammon (Lavras, 1869), Mackenzie College (São Paulo,1870), Ginásio Evangélico Agnes Erskine (Recife,1904), Instituto Ponte Nova (Wagner,1906), Colégio Quinze de Novembro (Garanhuns,1907), Instituto Cristão (Castro,1915), Colégio Evangélico do Alto Jequitibá (Presidente Soares,1923), Colégio Evangélico de Buriti (Buriti, 1924), Instituto José Manoel da Conceição (Jandira,1928) e Colégio Dois de Julho (Salvador,1928).
[10] Uma rara oportunidade de que algo novo pudesse vingar no protestantismo nacional foi quando os primeiros candidatos brasileiros ao ministério pastoral foram colocados para acompanhar o Rev. José Manoel da Conceição em seu ministério itinerante, que tendo vivido asfixiado pela rígida estrutura do catolicismo romano, almejava experimentar uma plena liberdade para interagir com o povo, comunicando a mensagem evangélica com mais profundidade e cujo resultado podia ser facilmente percebido na rápida expansão por todo o interior do país. Mas infelizmente os jovens candidatos foram abduzidos para dentro da instituição acadêmica do Seminário, perdendo paulatinamente contato com a dinâmica da sociedade, na qual deveriam estar interagindo permanentemente (FARIA, 2002, p. 168-169).
[11] “A mudança radical e que impulsionou de fato o presbiterianismo no solo brasileiro foi a inserção do ex-padre José Manoel da Conceição. Sua profissão de fé acontece no dia 23 de outubro de 1864 e sua ordenação como pastor presbiteriano ocorre em 17 de dezembro de 1865, pelo recém-formado Presbitério do Rio de Janeiro, que então era composto pelas igrejas do Rio de Janeiro, São Paulo e Brotas, tendo a última resultada de seu trabalho evangelístico juntamente com Rev. Blackford. ... Ele por conta própria, sem se deixar amarrar por qualquer fobia eclesiástica ou teológica, empreende viagens intermitentes pelo interior de São Paulo, Minas Gerais e Paraná estabelecendo núcleos presbiterianos, que posteriormente se transformariam em igrejas organizadas. Os resultados expressivos alcançados por Conceição acabaram animando e despertando outros missionários e pastores de que a melhor estratégia de evangelização era sair dos grandes centros urbanos e focar nas cidades menores onde as pessoas eram mais acessíveis e estavam marginalizadas em relação a assistência religiosa católica” (GUEDES, 2013, p. 33-34).
[12] Segundo Mendonça e Velasques Filho cada denominação evangélico-protestante que foi implantado no país logo cedo percebia a real necessidade de iniciar sua própria formação teológica para capacitar suas lideranças em decorrência à demanda crescente (1990, p. 31-59; ver também a excelente obra de SILVA, 2010, p. 53-62).
[13] A maior parte das informações aqui são extraídas do livro biográfico sobre a vida do Rev. Miguel Gonçalves Torres, um dos primeiros seminaristas presbiterianos, escrito pelo Rev. Julio Andrade Ferreira, então historiador oficial da IPB, conforme indicação nas referências bibliográficas.
[14] Esta obra visava o ensino de Aritmética nas escolas de primeiras letras, que passou a ser denominada de ensino elementar. Alcançou reconhecimento nacional e recebeu uma premiação em 1883, na Exposição Pedagógica ocorrida no Rio de Janeiro, e teve a sua aprovação e adoção pela Instrução Pública em vários estados do Brasil, a partir do ano de 1893. Conforme Oliveira esse livro “teve aproximadamente nove décadas de publicação, pois ficou sabido que sua primeira edição foi publicada na segunda metade do século XIX, precisamente no ano de 1879, chegando a 138ª edição disseminada no ano de 1960” (2013, p. 19).
[15] O nome completo da obra: “A Igreja Romana à Barra do Evangelho e a da história na pessoa de seu campeão o Bispo do Pará ou Analyse e refutação do Catechismo sobre a Igreja Cathólica de D. Antônio de Macedo Costa por M. G. Torres Ministro do Santo Evangelho” [grafia original]. O referido bispo católico elaborara um catecismo atacando os protestantes e suas doutrinas e o Rev. Miguel Torres sente-se na obrigação de responder enunciando uma a uma as inverdades teológicas e os equívocos históricos do material católico. A resposta do pastor presbiteriano foi editada em 1879, ainda nos primórdios do presbiterianismo; vinte anos após a chegada de Simonton; dez anos depois da Missão Sul estabelecer-se em Campinas, com Revs George Nash Norton e Edward Lane; seis anos desde que o Commitee de Nashville colocara em Recife o Dr. John Rockwell Smith, então pioneiro nordestino. As igrejas anglicanas e luteranas aqui estabelecidas voltavam-se exclusivamente para inglês e alemães no país; os metodistas depois de uma grande vacância ameaçava estabelecer-se novamente; ao Dr. Kalley e seus colportores (congregacionais) faltava-lhes embasamento teológico e acadêmico para tal empreendimento; os batistas e episcopais ainda não haviam se estabelecido no país e os missionários americanos esbarravam na questão linguística nacional. Coube esta árdua responsabilidade ao jovem e destemido pastor presbiteriano Miguel Gonçalves Torres.    
[16] O educador, Miguel G. Torres e pastor protestante, mantinha uma escola, com método de ensino americano na Vila de Caldas, a qual o menino Vital Brasil frequentava. Foi seu instrutor, e através dele recebeu os toques, que vieram influenciar seu caráter e sua mentalidade. Vital Brazil (Vital Brasil), tem seu nome ligado ao surgimento do soro antiofídico.