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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

VERBETE – ANGLICANISMO



O termo "anglicano" se refere aos dogmas teológicos, estrutura eclesiástica e práticas da Igreja da Inglaterra. A Igreja Anglicana alega sucessão apostólica dos primeiros seguidores de Jesus para a ordenação do primeiro Arcebispo de Cantuária, St. Agostinho,[1] no século VI. Mas historicamente, a formação de uma igreja nacional inglesa distinta da Igreja Católica Romana ocorreu no século XVI, na década de 1530, entre as convulsões causadas pela Reforma Religiosa e/ou Reforma Protestante. Entre outras razões estava o fato de que o rei Henry VIII estava determinado a buscar a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, mas como a Igreja Católica Romana estava resistindo ele assina o chamado Ato de Supremacia, tornando-se o chefe da Igreja da Inglaterra.
O Henrique VIII nunca deixou de ser católico, apenas se utilizou do movimento Reformado para alcançar sua autonomia eclesiástica. No entanto, a sua teologia e prática começou a tomar um rumo mais protestante, sob a liderança de Thomas Cranmer, a quem Henrique havia nomeado arcebispo de Cantuária em 1533. Sob Cranmer, o celibato do sacerdócio foi abolido, bem como a doutrina da transubstanciação. Após a morte de Henrique VIII, seu filho Eduardo VI, que teve um breve reinado, orientado por Cranmer e outros continuou a direcionar a igreja em uma direção protestante calvinista e produziu o Livro de Oração Comum (1549,1552), que não só estabelecia a liturgia da igreja, mas servia como manual de fé e prática de vida cristã Anglicana. Com a precoce morte de Eduardo, o Anglicanismo foi abolido durante o reinado da rainha Maria I (1553-58), que retorna às origens católicas romanas, mas quando a rainha Elizabete I a sucede no trono inglês, ela não apenas restaura a Igreja da Inglaterra, como a estabelece definitivamente, nos moldes que permanecem até hoje.
Em seu longo e complexo reinado Elizabete enfrentou as reivindicações radicais dos dissidentes puritanos, que esperavam reformar a igreja no modelo Presbiteriano, e simultaneamente os clérigos católicos que buscavam uma restauração da Igreja Católica como a igreja nacional. Diante destes dois extremos irreconciliáveis ela propôs uma via média, conhecido como o Acordo Isabelino, oferecendo um caminho novo entre essas forças antagônicas.
Resumidamente ela propôs que a Igreja Anglicana continuaria a ser um episcopado; ou seja, ele continuaria a ser regida por arcebispos e bispos. Todos os cultos seguiriam uma forma litúrgica fixa estabelecida no Livro de Oração Comum, mantendo alguns dos elementos tradicionais da liturgia Católica, incluindo ajoelhar, genuflexão, e o uso de vestimentas e roupas clericais pelo padre. Por outro lado, a igreja não permitiria que os seus membros cressem em qualquer coisa contrária às Escrituras. Evidentemente que nenhum dos extremos ficaram satisfeitos, mas o povo aprovou estas reformas e a Igreja da Inglaterra permaneceu. Os princípios de fé e práticas religiosas básicas do Anglicanismo foram estabelecidos em três documentos fundamentais: os Trinta e Nove Artigos, O Ato de Supremacia, e o Ato de Uniformidade.
Sob Tiago I e Charles I, a Igreja Anglicana permaneceu a igreja nacional da Inglaterra e foi mantido de forma ténue seu caminho intermediário entre o catolicismo e puritanismo. Durante o reinado de Carlos I, as políticas restritivas do arcebispo de Cantuária William Laud[2] acabaram atiçando os puritanos, o que desembocou em uma guerra civil/religiosa inglesa. Durante o Interregnum, o Partido dos Puritanos assumiu o poder e efetivamente aboliu o anglicanismo como a igreja nacional. Mas a restauração da monarquia em 1660 também trouxe a restauração da Igreja Anglicana. O Ato da Uniformidade, em 1662, bem como outras ordenanças, produziu milhares de ministros dissidentes. Somente com a aprovação da Lei de Tolerância em 1690 a Igreja Anglicana começa a assumir sua forma atual, ainda a igreja nacional, mas não a única igreja exclusiva da Inglaterra.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
ivanpgds@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/


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Referências Bibliográficas 
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DREHER, MARTIN N. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja, v.3).
GONZALES, Justo L. Uma história do pensamento cristão, v. 3. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
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Zabriskie, Alexander C. Anglican Evangelicalism. Philadelphia, 1999.





[1] Agostinho de Cantuária (Roma, primeiro terço do século VI – Cantuária, provavelmente em 26 de maio de 604) foi um monge beneditino que se tornou o primeiro arcebispo de Cantuária em 597. Ele é considerado o "Apóstolo dos ingleses" e o fundador da Igreja da Inglaterra.
[2] Em 1633, William Laud assumiu o cargo de arcebispo de Cantuária e foi executado em 1645 como traidor, após processo de impeachment em que foi acusado de tentar introduzir o papismo na Inglaterra.