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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

HISTÓRIA DA IGREJA CRISTÃ: Atos o Primeiro Documento Histórico

O livro de Atos – Tudo tem um inicio
O livro de Atos é o primeiro documento do início de atividades da Igreja. A sua importância pode ser melhor avaliada se imaginarmos se ele não tivesse sido escrito: ficaria uma lacuna que não seria preenchida por nenhuma outra literatura contida no Novo Testamento –ele é o elo histórico entre os Evangelhos e as Epístolas.
Não somente faz esta ponte para nós, mas fornece também preciosas informações sobre a vida de Paulo e nos oferece um indispensável contexto histórico para suas correspondências epistolares. No processo, Atos relata as três primeiras décadas da vida da igreja.
Depois de apresentar resumidamente várias visões do propósito de Atos, Toussaint escreve:
O propósito do Livro de Atos pode ser declarado como segue: Lucas procura explicar como o Evangelho foi progressiva e soberanamente propagando sua mensagem dos Judeus para os Gentios, e de Jerusalém à Roma. No Evangelho de Lucas uma pergunta é respondida, “Se o Cristianismo tem suas raízes no Velho Testamento e no Judaísmo, como veio a se tornar uma religião global? ” O Livro de Atos continua nesta mesma vertente do Evangelho para responder o mesmo problema. 
Proposta do livro:
Movimento de expansão
A estrutura geográfica é uma das formas de visualizarmos o propósito do livro de Atos. Esta percepção geográfica nos ajuda a ver como a Igreja que nasce na cidade de Jerusalém (1.8), alcança em pouco mais de trinta anos, chega “até os confins da terra”, esta expressão, no seu contexto da época, significa Roma e o império romano.
O livro de Atos pode ser dividido em três partes bem distintas:
Em primeiro lugar, a expansão da igreja em Jerusalém (capítulos
1—7). Na ascensão de Cristo, a igreja era composta por 120 membros; cinquenta dias após a ressurreição de
Cristo e dez dias após a ascensão, ocorre o Pentecostes; Pedro pregou uma mensagem cristocêntrica, e cerca de três mil pessoas foram convertidas, batizadas e agregadas à igreja; o número dos convertidos multiplicou-se em Jerusalém; perseguição crescente dos judeus.
Em segundo lugar, a expansão da igreja na Judeia e em Samaria (capítulos 8—12). A morte de Estevão amplia a perseguição judaica; os cristãos dispersam e, por onde passavam, eles pregavam a mensagem evangélica; comunidades cristãs se estabelecem na cidade de Samaria por intermédio de Filipe, rompem-se barreiras raciais; ocorre a conversão de Saulo; o evangelho chega a Damasco, na Síria; através de Pedro, o evangelho alcança a Ces e através de Cornélio os gentios;
Em terceiro lugar, a expansão da igreja até aos confins da terra (capítulos 13—28). Antioquia torna-se o centro missionário dos gentios; ocorrem as diversas viagens missionárias de Paulo; comunidades cristãs vão sendo estabelecidas nas províncias da Galácia, Macedônia, Acaia e Ásia Menor; o evangelho rompe barreiras linguísticas, culturais e religiosas; apesar de toda perseguição judaica o Evangelho se estabelece em Roma (não por meio de Paulo), capital do Império.
É possível concordarmos com Keener (2004, p.?), quando afirma:
§  “Todo o Livro de Lucas é estruturado ao redor da evangelização mundial (1.8), com seis ou oito depoimentos sumários através do livro mostrando a dispersão do evangelho (ver 6.7; 9.31; 12.24; 16.5; 19.20; 28.31). Para Lucas, o objetivo último é a comunicação transcultural e a evangelização mundial, e o poder requerido para realizar a tarefa é somente o Espírito Santo” ... Partindo de Atos 1.8, que é uma variação da Grande Comissão (Mt 28.18-20) e do Ide (Mc 16.15), o livro mostra a difusão do nome de Jesus em Jerusalém, Judéia e Samaria e “até os confins da terra”. Esta expressão, no seu contexto da época, significa Roma e o império romano.
As Formas de Comunicar a Mensagem Cristã
Kerigma é o termo grego que quer dizer a Proclamação – a pregação. A base do Kerigma é a proclamação de Cristo. Modelo:
Jesus de Nazaré é o Messias, o Cristo, enviados por Deus,
             como prometido nas Escrituras, como predito pelos profetas,
             para o perdão dos pecados, para salvação do mundo;
Ele foi rejeitado pelo povo, condenado pelas autoridades;
             Ele sofreu, foi crucificado, morreu e foi sepultado
Mas Deus o ressuscitou dentre os mortos e o elevou às alturas
             e ele vai voltar um dia para nós, em glória.
Em resposta, as pessoas devem se arrepender, crer, ser batizada,
receber o Espírito Santo e juntar-se à comunidade dos crentes (Igreja).
Didaquê é a palavra grega traduzida por Doutrina. O Didaquê dos Apóstolos – ou a Doutrina dos Apóstolos (At 2.42) – era o conjunto de mandamentos práticos para a vida dos discípulos. Por exemplo: “Amai-vos uns aos outros”; “Orai sem cessar”; “Não sai da vossa boca nenhuma palavra torpe”; “Fugi da impureza”; “Maridos, amai vossas mulheres”. O Didaquê deve ser simples e objetivo.
Conclusão Inconclusiva do livro
O livro de Atos termina sem uma conclusão, podendo indicar que Lucas pretendia escrever um terceiro volume; mas providencialmente ele nos deixa claro que a caminhada da Igreja na História Humana estava apenas começando, e somente será concluída com a Segunda Vinda de Cristo.
Uma Tomografia da Igreja em Atos
Distinção do judaísmo
Inicialmente o cristianismo era confundido como sendo mais uma seita/divisão do judaísmo. Mas na medida em que aumenta a perseguição por parte dos judeus, vai ficando evidente a distinção entre a mensagem cristã e a mensagem judaica. 
Cristianismo ou Cristianismos?
Ainda nas páginas do livro de Atos e nas epístolas podemos perceber que dentro do Cristianismo sempre houve divergências. A eleição dos Diáconos surge mediante a divergência entre judeus e helenistas (judeus da Diáspora); Paulo tem que tratar de diversas divisões que ocorriam nas comunidades cristãs.
Uma “Igreja” sem Templos
Por três séculos as comunidades cristãs não construíram um único templo; suas atividades eram feitas em casas ou salões emprestados, alugados ou até mesmo comprados. Somente no século IV com o Imperador Constantino os cristãos passaram a utilizar templos pagãos e construir seus próprios templos.
Perseguições judaicas
Como os registros históricos de Atos e já mencionado as primeiras e mais violentas perseguições aos cristãos foram realizadas pelas autoridades judaicas que via no cristianismo um movimento herético do judaísmo, bem como uma ameaça ao sistema religioso que tinha no Templo seu centro de poder.
Como se Tornar Membro da Igreja
Batismo/Profissão Fé
“Catecúmeno” três anos de preparação: exame minucioso do comportamento do catecúmeno.
Perigos Iniciais
Oportunistas e Mercenários
O satirista Luciano, escritor romano, no segundo século ridiculariza os cristãos por serem tão facilmente levado por charlatães, muitas vezes dando-lhes dinheiro.
A Didaquê traz diversas recomendações sobre aqueles que se faziam de cristãos, mestres ou profetas (missionários), mas que não passavam de ladrões e exploradores
CAPÍTULO VI - 1Fique atento para que ninguém o afaste do caminho da instrução, pois quem faz isso ensina coisas que não pertencem a Deus.
CAPÍTULO XI
1Se vier alguém até você e ensinar tudo o que foi dito anteriormente, deve ser acolhido.
2Mas se aquele que ensina é perverso e ensinar outra doutrina para te destruir, não lhe dê atenção.
5Ele não deve ficar mais que um dia ou, se necessário, mais outro. Se ficar três dias é um falso profeta.
6Ao partir, o apóstolo não deve levar nada a não ser o pão necessário para chegar ao lugar o­nde deve parar. Se pedir dinheiro é um falso profeta.
8Nem todo aquele que fala inspirado é profeta, a não ser que viva como o Senhor. É desse modo que você reconhece o falso e o verdadeiro profeta.
9Todo profeta que, sob inspiração, manda preparar a mesa não deve comer dela. Caso contrário, é um falso profeta.
10Todo profeta que ensina a verdade mas não pratica o que ensina é um falso profeta.
12Se alguém disser sob inspiração: "Dê-me dinheiro" ou qualquer outra coisa, não o escutem. Porém, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue.
CAPÍTULO XII
1Acolha toda aquele que vier em nome do Senhor. Depois, examine para conhecê-lo, pois você tem discernimento para distinguir a esquerda da direita.
3Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe para se sustentar.
4Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudência, para que um cristão não viva ociosamente em seu meio.
5Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha cuidado com essa gente!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/


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Referências Bibliográficas
ARAÚJO, C. B. R. de. A igreja dos Apóstolos: Conceito e forma das lideranças na Igreja Primitiva. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.
BAXTER, J. Sidlow. Examinai as Escrituras, v. 6. São Paulo: Vida Nova, 1989.
BERKHOF, Louis. New Testament Introduction. Eerdmans, 1915, https://archive.org/details/NewTestamentIntroduction Scanned and Edited Mike Randall.
CAIRNS, E. E. O cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova, 2008.
CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. v. 1. São Paulo: Hagnos, 8ª ed., 2006.
ERDMAN, Charles R. Hechos de Los Apóstoles. Ed. TELL, 1974.
GONZÁLEZ, J. L. História ilustrada do cristianismo. A era dos mártires até a era dos sonhos frustrados. 2. ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2011.
KEENER, Craig S. Comentário Bíblico Atos: Novo Testamento. Tradução José Gabriel Said. Belo Horizonte: Editora Atos, 2004.
LATOURETTE, K. S. Uma história do cristianismo. São Paulo: Hagnos, 2007.
RICE, Edwin W. People’s commentary on the Acts giving. Philadelphia: The American Sunday-School Union, 1896.
RYRIE, Charles C. Bíblia de estúdio Ryrie. Chicago (Illinois): Moody Press, 1991.
SMITH, T. C. Comentário Bíblico Broadman, v.10, JUERP, Rio de Janeiro, 1984.
WILLIAMS, David J. Novo Comentário Bíblico Contemporâneo – Atos. São Paulo: Vida,1996.
VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.


terça-feira, 18 de outubro de 2016

CIDADANIA ROMANA

Promulgação do Édito Caracala
Na mesma proporção que o Império Romano se expandia, as fronteiras nacionais perdiam sua relevância. Gradualmente os cidadãos das nações conquistadas foram assimilando uma segunda cidadania – a romana.
Os romanos passaram a utilizar gradualmente esse sistema duplo de cidadania e aplicando principalmente em suas províncias ultramarino. Foi uma forma inteligente para angariar a lealdade dos povos conquistados e a construção de uma unificação jurídica do Império. A formula de dupla cidadania ainda produzia um efeito colateral muito relevante, pois uma pessoa podia adquirir a cidadania romana sem abrir mão de suas origens. O apóstolo Paulo é um exemplo típico deste sistema, pois era um judeu e cidadão de Tarso (Atos 21.39) e também cidadão de Roma (Atos 22.26-27).  
O imperador Claudio coloca algumas restrições para se adquirir a cidadania romana, como a pessoa saber latim, pois considerava a língua grega e latina os idiomas oficiais do império (Dio Cassius, História Romana 60.17.4; Suetônio, Cláudio 41,1), ele entendia que a pessoa precisava ter um mínimo de preparação para ser um cidadão romano (como os EUA faz hoje).
Havia algumas formas licitas pelas quais uma pessoa poderia adquirir a cidadania romana:
1)    Todos os que nasciam de pais que já eram cidadãos recebiam uma “certidão de nascimento” autenticado como cidadão romano;
2)    Recebendo a alforria por um cidadão romano;
3)    Por mérito por prestar serviço relevante para o Império (a mais provável razão pela qual Paulo obteve sua cidadania romana – Atos 22.28);
4)    Quando recebia baixa do serviço militar romano ou quando se alistava para as Legiões.
            Como cidadãos usufruíam de alguns privilégios exclusivos:
1)    Podiam votar, desde que estivessem em Roma para exercer esse direito; mas havia certificados que não incluíam esse direito.
2)    Estavam protegidos de serem punidos de forma degradante (açoites, torturas), por isso a contestação de Paulo em Filipos (Atos 16.22ss; cf. Cícero contra Verres 2.5. 161-70). A morte de Pedro, crucificado de cabeça para baixo, foi um pedido dele; enquanto a decapitação de Paulo, era considerada uma execução misericordiosa e rápida, adequado para os cidadãos.
3)    Direito a recorrer ao tribunal em Roma, portanto, ficando menos exposto à jurisdição de autoridades locais e até mesmo de governador romano (Paulo vai apelar à César – Atos 25.10-12).
Essa política de cidadania perdurou, mais ou menos abrangência, até a promulgação da Constituição Antonina (em latim Constitutio Antoniniana de Civitate), popularmente conhecida como Édito de Caracala, ou ainda como Édito de 212, foi editado pelo imperador Caracala ou Marcus Aurelius Antoninus (212 – 217 d.C.).
O Edito estendia a cidadania romana a todos os homens nascidos livres em todo o Império romano, estendendo o mesmo direito a todas as mulheres nascidas livres no império os mesmos direitos que as mulheres romanas usufruíam.
Ainda que o Edito fosse algo benéfico e um avanço da cidadania na época, longe estava de ser um ato beneficente. Caracala havia aumentado o soldo dos legionários, para seduzi-los e com isso causou um efeito inflacionário. Para combatê-la criou uma nova moeda, o Antoninos e o Édito de 212 tinha dois objetivos: aumentar a arrecadação de impostos e a inscrição de soldados nas legiões. O historiador Dion Cássio é o único a fazer a leitura por trás do referido Édito:
"Esta foi a razão (necessidade de aumentar a arrecadação das taxas pagas pelos cidadãos) por que ele (Caracala) tornou todo o povo do Império cidadão romano. Nominalmente, ele os estava honrando, mas sua real proposta era aumentar os rendimentos, porque aumentava-se, assim, o número de pessoas que deveriam pagar as taxas" (Dion Cássio, LXXVIII, 9.3-7, apud SILVA e MENDES, 2006, p. 184).

Como diria o velho Salomão: “não há nada de novo debaixo do sol”.
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Referências Bibliográficas
Cadbury, H. J. The Book of Acts in History. New York, 1955.
Ferguson, Everett, Backgrounds of early Christianity, 3ª ed. Michigan: Eerdmans Publishing, 1933.
Sherwin-White, A. N. The Roman Citizenship. Oxford, 1939.
________________. Roman Society and Roman Law in the New Testament. Oxford, 1963.

SILVA, Gilvan Ventura da e MENDES, Norma Musco (Org.). Repensando o Império Romano – perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad; Vitória, ES: EDUFES, 2006.

HISTÓRIA IGREJA CRISTÃ - Contexto Inicial

   
        A História da Igreja Cristã pode ser muitas coisas, mas certamente jamais é enfadonha, pois em cada curva haveremos sempre de sermos surpreendidos de forma extraordinária. Um dos mais capacitados historiadores do nosso tempo, Earle E. Cairns, realça a importância da história cristã:
“A história da Igreja será apenas um enfadonho exercício acadêmico de recordação dos fatos se não se descobrir o seu valor para o cristão. Os antigos historiadores tinham grande apreço pelos valores pragmáticos, didáticos e morais da história, o que não caracteriza a maioria dos historiadores modernos. O estudante consciente dos valores apreendidos no estudo da história da Igreja Cristã tem bons motivos para se interessar por essa área particular da história humana (CAIRNS, 2008, p. 18 – Itálico meu).”
            Mas como tantas outras áreas da nossa vida cristã, poucos de fato dão qualquer importância ao estudo sério desta matéria, como tão bem revela outro de nossos historiadores:
“O preconceito mais comum é que a história não tem grande importância, e que a única razão para estudá-la é que alguém fez dela uma exigência no currículo. É certo que alguns trazem consigo as histórias de algum herói ou heroína de sua própria tradição: trazem histórias ou talvez passagens da vida de Lutero, de Calvino ou de Susanna Wesley. Outros possuem algumas opiniões sobre os episódios mais tristes da história da igreja: da inquisição, das cruzadas, de Alexandre VI etc. Mas o fato é que a maioria sabe pouco da história da igreja, sabe que sabe pouco e não acha importante saber mais (GONZÁLEZ, 2011, p. 17).”
            Desta forma, quando nos dispomos a conhecer a nossa história, torna-se algo muito significativo e que certamente em muito contribuirá para edificação de nossas vidas e por consequência direta para edificação da igreja a qual fomos colocados para servir.
Definição
            A palavra história vem de um vocábulo grego que significa pesquisa, informação, narração. O historiador se assemelha ao tecelão que vai entrelaçando os mais diversos fios dando-lhes forma e colorido. Assim, o historiador é aquele que tece os fatos históricos dando-lhes uma forma que possa expressar o que aconteceu, à luz do que está acontecendo e servir de indicação dos próximos acontecimentos. Por isso se diz que ao conhecer sua história, a pessoa conhece a si mesma e se prepara melhor para viver o restante de sua vida.
Origem da História da Igreja Cristã
A nossa História tem início onde todas as demais histórias – no livro de Gênesis. A Criação do Mundo e do Ser Humano é o marco zero da História. Ao se esquecer deste fato, os historiadores e suas “histórias” perdem os referenciais e por consequência acabam por fazerem analises e conclusões equivocadas.
            A perfeita ilustração deste fato está na literatura bíblica do Primeiro Testamento. Ao estabelecerem o Cânon de seus livros religiosos os judeus os dividiu em três blocos: Lei, Profetas e os Escritos. A nossa versão segue a Septuaginta (versão grega) que utiliza outro critério: Lei (Pentateuco); Históricos, Poéticos e Profetas.
            A Bíblia Hebraica subdivide a segunda parte em Profetas Anteriores e Posteriores. O que chamamos de livros Históricos, eles classificam de Profetas Anteriores – pois para eles a HISTÓRIA somente pode ser interpretada (compreendida) à luz da VONTADE (propósito) DE DEUS.
            Desta forma, não apenas o que está registrado e preservado nas páginas da Bíblia, mas TUDO o que aconteceu no Mundo é História, portanto, está relacionado à Vontade e Propósito de Deus. Uma pessoa que compreendeu esta verdade como poucos foi o apóstolo Paulo. Quando ele escreve sua epístola aos Gálatas: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de uma mulher, nascido sob a Lei” (4.4). Para o Apóstolo a primeira vinda de Jesus ocorre no tempo/espaço Histórico exato – nem antes e nem depois. Segundo Paulo Deus havia preparado o Mundo para a inserção do Filho/Salvador na História Humana. Vejamos alguns poucos exemplos:
Preparação Através dos Judeus: Desde o princípio de sua história os israelitas foram instrumentos de Deus para preparação de Jesus Cristo (Messias) e da Sua Igreja. É preciso deixar claro que a Igreja não é um acidente de percalço, ou seja, ela não surgiu porque os israelitas não entenderam o propósito de Deus. A Igreja sempre foi parte integrante do Projeto Redentivo de Deus, como agência do Reino de Deus, na propagação da mensagem evangélica a todo o Mundo. Assim sendo, os judeus contribuíram de forma expressiva para que a Igreja pudesse cumprir seus propósitos:
Diáspora Judaica: A diáspora judaica, principalmente após o chamado “cativeiro babilônico”, espalhou comunidades judaicas por todo o mundo conhecido daqueles dias e mesmo com a reconstrução da cidade e do Templo em Jerusalém, a grande maioria optou por permanecerem nos países onde se haviam estabelecido. Nessas comunidades eles preservaram seus textos religiosos e sua mensagem da expectativa messiânica.
Uma religião monoteísta: três séculos antes de Cristo, toda região do Mediterrâneo já tomava conhecimento de que havia somente um Deus verdadeiro. A religião judaica era de cunho espiritual e não filosófico como as religiões greco-romanas. Eles não se propunham a provar a existência de Deus, apenas lhe prestavam o culto conforme lhes havia revelado.
A esperança messiânica: Muitos séculos antes dos imperadores romanos se avocarem de “Senhor” e tentarem pelo poder bélico implantarem seus “reinos”, os israelitas, através de seus Profetas, já ensinavam que um Messias (Senhor/Rei) viria para governar sobre todos os povos e nações. Mas diferente dos imperadores romanos, o Messias governaria com Justiça e Misericórdia. Onde houvesse uma família judaica ou uma sinagoga, a mensagem messiânica se fazia ressoar. Quando Jesus veio já encontrou a expectativa messiânica estabelecida. E esta esperança messiânica estava tão consolidada que muitos dos seus discípulos após a sua morte e ressurreição esperavam para seus dias a concretização do reino messiânico [Atos 1.6]. O próprio Apóstolo Paulo escreve sobre essa expectativa eminente da Volta gloriosa de Cristo e da manifestação do Reino.
Uma Religião Ética: Diferentemente das religiões em geral, o judaísmo ensinava que o pecado se manifestava de dentro para fora (coração/mente) e não de fora para dentro (corpo/matéria – dualismo: alma é boa, corpo é mau). O judeu era ensinado a manifesta sua fé através de suas ações e não o contrário.
A Septuaginta e/ou Antigo Testamento: A tradução dos textos hebraicos para a língua grega cuja versão recebeu o nome de “Septuaginta” foi fundamental para a preservação e internacionalização da mensagem veterotestamentária. Fora da Palestina, que utilizava a versão aramaica, os judeus utilizavam a versão grega. Talvez seja essa a razão pela qual os estrangeiros, que compreendiam o idioma grego, foram grandemente atraídos para a religião judaica. Os missionários cristãos utilizaram-se desta versão para comunicar a sua mensagem evangélica, de maneira que as primeiras comunidades cristãs tinham na Septuaginta sua única bíblia.
A Sinagoga: foi uma instituição, se não filha da diáspora, mas certamente popularizada pelas comunidades, primeira em cativeiro, e posteriormente pelas que estavam espalhadas pelo mundo. Na Sinagoga as Escrituras judaicas eram lidas e estudas, de maneira que foram copiadas e preservadas. Mesmo na Palestina e em Jerusalém as Sinagogas continuaram sendo amplamente utilizadas como local especifico para suas reuniões religiosas e sociais. Durante seu ministério Jesus utilizou bastante as Sinagogas para proclamar sua mensagem evangélica e está também foi a estratégia do apóstolo Paulo quando realizou suas viagens missionárias por todo Império Romano, sendo que, em algumas ele foi duramente perseguido (ex. Tessalônica), mas em outras ele foi bem acolhido (ex. Beréia). Nessas Sinagogas havia sempre um número expressivo de não judeus, que desanimados com suas religiões, encontravam na mensagem hebraica uma esperança para suas vidas. As primeiras comunidades cristãs foram formadas em sua grande maioria por estes prosélitos ou amigos da Sinagoga. Segundo o historiador Earle E. Cairns ela foi a casa de pregação do cristianismo nascente.
Preparação Através dos Gregos: A Soberania de Deus sobre a História é claramente manifestada no estabelecimento de Impérios, assim como também como causa direta de suas quedas. Poucos impérios influenciaram tantos, em tantos lugares, por tanto tempo. Ainda hoje o mundo ocidental sofre, talvez tenuamente, os efeitos do chamado helenismo. As contribuições da civilização grega para a implantação e expansão do cristianismo tem sido estudas exaustivamente, perfazendo milhares de páginas de pesquisas e ainda muito a ser pesquisado.
Helenismo: As conquistas de Alexandre o Grande a partir de 334 a.C., quando desembarcou em Trôade, até sua morte, na Babilônia em 323, demarca o momento da introdução do pensamento grego nas terras bíblicas. Suas conquistas transformaram vida no Oriente Próximo e a cultura helenística espalhou-se rapidamente por todos esses países. O comércio internacional progrediu vigorosamente sob o novo clima cultural e político.
Helenismo, que é o substantivo derivado do verbo “ellenizo” (falar grego), originalmente significava o uso adequado da língua grega. Na Grécia do século IV, era uma exigência para distinguir o grego do estrangeiro, pois os estrangeiros tinham se tornado tão numerosos que se tornou uma influência corruptora do idioma dos próprios gregos. Por esta razão a retórica fazia parte integrante do currículo acadêmico no Liceu de Atenas, que era dividida em cinco partes denominadas de “virtudes da dicção”, cuja a primeira e básica era o Helenismo, ou seja, a gramatica e correta utilização da linguagem grega sem qualquer corrupção barbara.
Posteriormente, fora da Grécia o termo foi adquirindo um sentindo cultural mais amplo de adoção do estilo de vida grego. Com o desenvolvimento do cristianismo, helenismo passou a incluir também um sentido religioso abarcando todas as manifestações cúlticas não apenas dos gregos, mas de todas as religiões não cristãs (pagãs), sendo esse o sentido que os chamados Pais da Igreja, principalmente de origem grega, fazem uso deste termo em suas obras polemistas, onde defendem e fazem distinção entre o cristianismo e as demais religiões.
Idioma Grego (Koinê): Sem dúvida alguma a maior contribuição do helenismo foi popularizar a língua grega. O grego Koinê (popular) tornou-se a língua comercial-cultural de âmbito internacional (o inglês dos nossos tempos).
Como a maioria dos judeus, após a diáspora, permaneceram vivendo foram da Palestina, houve a necessidade de se efetuar uma tradução da Bíblia Hebraica para a língua grega, que recebeu o nome de Septuaginta e/ou Versão dos Setenta (LXX), e que foi amplamente utilizada nas Sinagogas espalhadas por todo o Império Romano.
O cristianismo, apesar de iniciar na Palestina, nasce permeado pelo helenismo. A literatura cristã, ainda que fosse escrita por judeus, com exceção de Lucas, utilizou-se da língua grega para comunicar sua mensagem e desta forma se universalizar. O foco irradiador deste cristianismo helenizado foi a cidade de Antioquia, substituindo Jerusalém (o centro judaico) e onde pela primeira vez os seguidores de Cristo são denominados de cristãos (christianoi).
O apóstolo Paulo compreendia muito bem o processo transcultural helenista e utilizou-se dele para expandir o cristianismo, partindo sempre das sinagogas espalhadas por todo o mediterrâneo, onde o grego era falado e a Septuaginta era utilizada, por isso a razão de se encontrar tantos prosélitos nessas sinagogas. Suas inúmeras correspondências, portanto, suas argumentações, foram elaboradas nesse contexto helenista e na língua grega, o que se pode comprovar pela sua utilização das citações da Septuaginta e não dos textos hebraicos.
Entretanto, torna-se precipitado concluir que Paulo e os demais escritores neotestamentários foram totalmente absorvidos pela mentalidade e conceitos gregos, ao contrário, o pensamento deles continuou hebraicamente concreto e não filosoficamente abstrato como no pensamento grego.
Preparação Através dos Romanos: De acordo com diversos historiadores, como nenhum outro povo até então, coube aos romanos desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. Deste modo, a partir do século I a.C. até o século IV d.C., os Imperadores romanos governaram o mundo antigo, criando como em nenhum outro período histórico as condições favoráveis para a inserção e expansão do Evangelho de Cristo e consequentemente da Igreja Cristã. Segundo o historiador Cairns o grande e imponente Império Romano sempre esteve à serviço aos desígnios de Deus:
A contribuição política anterior à vinda de Cristo foi basicamente obra dos romanos. Esse povo, seguidor do caminho da idolatria, dos cultos de mistérios e do culto ao Imperador, foi usado por Deus, a quem ignoravam, para cumprir a sua vontade. Os Romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um senso de unidade da humanidade sob uma lei universal. Esse senso de solidariedade do homem no império criou ambiente favorável à aceitação do evangelho que proclamava a unidade de espécie e que a todos era oferecida a salvação que os integra num organismo universal, a Igreja, o corpo de Cristo. (2008 p.31).
E ainda segundo Cairns (2008) podemos nomear as seguintes contribuições dos romanos:
O Domínio Mundial de Roma: Em seu apogeu eles conquistaram todos os povos entre Roma e o Egito, portanto, circundaram o Mediterrâneo. É dentro deste amplo espaço geográfico, o mundo romano, que a partir de 50 d.C. que o Cristianismo durante os três primeiros séculos da era cristã surgiu e se expandiu. Atualizando a geografia do Império incluía o sul da Europa do Reno e do Danúbio, grande parte da Inglaterra, o Egito e toda a costa norte da África, e uma grande parte da Ásia desde o Mediterrâneo à Mesopotâmia.
Fronteiras Abertas: Com o pleno domínio político-econômico, as fronteiras nacionais foram rompidas. Os Romanos, como nenhum outro povo até então, desenvolveram um sentido da unidade da espécie sob uma lei universal. Ainda segundo Cairns (2008, p. 32), essa unificação foi possível graças à administração centralizada que Roma outorgava aos povos sob seu domínio. Existiam províncias diretamente subordinadas ao senado, ao Imperador. Um cidadão romano transitava livremente por todo o Império sem qualquer restrição – Paulo tinha seu passaporte de cidadão romano.
Construção de Estradas: Para manter um Império tão vasto os romanos precisavam estruturar duas áreas fundamentais – estradas e comunicação. Investiu nas grandes estradas que já existiam e abriu inúmeras outras que as interligavam. Tanto bélica quanto comercialmente o ganho foi gigantesco. O mar já não era a única opção para se viajar; as pessoas aprenderam a se locomover de uma cidade para outra ou de um país para outro muito mais rápido do que qualquer outra época anterior – o comércio e a comunicação intercontinental tornam-se regulares, organizados e protegidos pelos "Grandes Poderes" - foi a primeira experiência de uma globalização – as estradas eram uma espécie de fibra ótica, interligando todo o Império. Fontana (2012) destaca esse aspecto:
A administração romana tornou fáceis e seguras às viagens e as comunicações entre as diferentes partes do mundo. Os piratas, que estorvavam a navegação, foram varridos dos mares, por terra, as esplêndidas estradas romanas davam acesso a todas as partes do império. Essas vias de comunicação eram tão policiadas que os ladrões desistiram dos seus assaltos.
Sistema de Comunicação Postal: Outro fator importante era a agilidade das correspondências. Ao longo das principais vias foram estabelecidos postos de correios, onde os “carteiros” trocavam seus cavalos para que as correspondências chegassem mais rapidamente ao destinatário. Aqui também ficava sempre uma guarnição de soldados, de maneira que além da agilidade havia também segurança. Paulo e seus companheiros transitavam por todas essas vias e certamente pernoitavam nesses postos. E ninguém utilizou mais e melhor esse sistema de postagem do que o apóstolo dos gentios.
Liberdade Religiosa: Os Romanos seguiram a mesma política dos gregos e mantiveram sua religião, mas permitiam que os demais povos conquistados mantivessem suas próprias religiões, desde que não trouxessem transtornos políticos ao Império. Os cristãos somente foram perseguidos quando acusados de inimigos do Estado (ex. Daniel na Babilônia).
Desenvolvimento das Cidades: Ainda que o conceito de cidade (polis) seja grego, foram os romanos que de fato iniciaram um projeto de urbanização, estabelecendo e construindo cidades por todo o império. Os romanos implementaram as trocas comerciais, fomentaram a circulação da moeda, trouxeram o arado de madeira, as forjas, os lagares, os aquedutos, as estradas e as pontes. As povoações, até aí predominantemente nas montanhas, passaram a surgir nos vales ou planícies, habitando casas de tijolo cobertas com telha. Tudo isso fomentou a formação de cidades cada vez maiores e mais urbanizadas. Roma, com uma população aproximada de um milhão de pessoas, era a cidade mais importante do império, tanto em termos políticos como econômicos, apesar de grande parte da riqueza ter fluído para o centro, as províncias também prosperaram. O Império trouxe uma época de paz que permitiu o crescimento econômico de cidades como Éfeso, Pérgamo, Esmirna, Sardes e Mileto; portos como Dion, Pela, Tessalônica e Kassandreia prosperaram; cidades como Antioquia, Alepo, Palmira, Damasco e Jerash cresceram a ponto de tornarem-se os principais centros comercias da Síria Romana.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Blog
Historiologia Protestante
http://historiologiaprotestante.blogspot.com.br/


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Referências Bibliográficas
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ROSTOVTZEFF. Mikhail. História de Roma. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1961.
VEYNE, P. Quando nosso mundo se tornou cristão (312-394). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.