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quarta-feira, 2 de novembro de 2016

PROTESTANTISMO E SUA CONTRIBUIÇÃO NA EDUCAÇÃO NO BRASIL [1]

Mackenzie-campus-SP-1869
INTRODUÇÃO
            O nosso tema geral: “TEOLOGIA E SOCIEDADE” foi muito bem escolhido, pois uma Teologia que não esteja inserida na Sociedade, torna-se uma teologia virtual.
            O grande DIFERENCIAL do Evangelho de Jesus Cristo era o fato de que TUDO quanto ele ENSINOU tinha haver com a vida das pessoas (sociedade).
            A proposta teológica de Jesus sempre foi ENCARNADA! Seu Evangelho/Mensagem não era para Anjos, mas para Pessoas / Gente como a Gente.
            A Teologia precisa ser fomentadora de Respostas para as Perguntas que as pessoas e a Sociedade têm formulado. Esse é o grande desafio!
A Teologia tem ido de Encontro com os anseios das pessoas do Sec. XXI???

APRESENTAÇÃO DO TEMA
            O tema que vou apresentar é de cunho Histórico, mas creio ser importante resgata-lo de seu limbo e demonstrar sua relevância.
O PROTESTANTISMO E SUA CONTRIBUIÇÃO NA EDUCAÇÃO NO BRASIL
            O Protestantismo tem se estabelecido efetivamente no Brasil a mais de 150 anos, desde os anos finais do oitocentos, mas quando examinamos os livros de História do Brasil (principalmente os didáticos) pouco ou quase nada encontramos sobre os protestantes – é como se eles fossem invisíveis.
            A culpa desta invisibilidade protestante na História e por decorrência na perspectiva da Sociedade Brasileira não é apenas dos historiadores brasileiros, mas também dos próprios protestantes que sempre se omitiram de se inserirem efetivamente na própria Sociedade. E quando foram chamados, optaram sempre por ficar do lado de fora.
            Minha expectativa é que ao final desses poucos minutos [linhas] de exposição, vocês possam ao menos curiosos a Presença e Relevância dos Protestantes em nosso País.
TEOLOGIA E EDUCAÇÃO
            A Teologia e a Educação são as duas faces de uma mesma moeda.
- A Teologia sempre foi Ensinada desde os tempos mais remotos (oralmente e posteriormente através dos escritos religiosos).
- A função Didática do Sacerdote era parte INTEGRANTE de suas atribuições.
- Avançando no tempo encontraremos as Primeiras Universidades sendo formadas ao redor da Teologia.
-Os Mosteiros são os embriões dos primeiros Centros de Ensino organizado.
- As primeiras Universidades são constituídas e controladas pela Igreja Cristã, para o Bem e para o Mal.
REFORMA PROTESTANTE
            Chegando no Séc. XVI temos um dos maiores Movimentos de Reforma Religiosa ocorrido no Ocidente e que vai MUDAR RADICALMENTE esse lado do Globo Terrestre.
- Podemos falar sem qualquer constrangimento de ANTES e DEPOIS da Reforma Religiosa, também chamada de Reforma Protestante.
- Essa Reforma Religiosa é nada mais, nada menos do que um esforço para que a TEOLOGIA possa responder satisfatoriamente os ANSEIOS das pessoas e da Sociedade Medieval.
- Os teólogos reformistas descem de seus Púlpitos e Cátedras e vão de encontro às pessoas – fazendo o que Jesus havia feito, ou seja, Encarnando a Mensagem Teológica.
- A Teologia torna a fazer parte da vida cotidiana das pessoas.
A REFORMA RELIGIOSA E A EDUCAÇÃO
            Para que isso fosse tornado uma Realidade os Reformadores vão se utilizar abundantemente da EDUCAÇÃO.
- Um dos ideais dos Reformadores era que toda pessoa deveria conhecer os princípios religiosos contidos na Bíblia.
- Como fazer isso, quando 90% da população são analfabetas???
- Os Reformadores não tiveram dúvidas – Escolas para Todos! [não há de novo debaixo do sol, diria o velho Salomão].
- São os Reformadores ainda no século XVI que haverão de implantar a Escola Pública obrigatória.
- Em Genebra (Suíça) na Reforma promovida por João Calvino, os pais cujos filhos não fossem inscritos nas Escolas eram responsabilizados criminalmente diante dos tribunais da cidade.
- Este movimento teológico/educacional vai acontecer em todos os países que adotam os princípios dos reformadores.
ESTADOS UNIDOS AMERICA
            Dando mais um salto histórico chegamos aos Estados Unidos da América. Os reformadores insatisfeitos com a Reforma Inglesa atravessam o Oceano e iniciam a Colonização da América.
- Duas Instituições tornam-se a Base da Sociedade Americana: A Igreja e a Escola.
- Todos os ramos do Protestantismo americano constroem suas Colégios e Universidades, que permanecem até hoje se constituindo em referência para todo o mundo Ocidental e até partes do Oriente.
Nas Universidades americanas haveremos de encontrar pessoas de todas as partes do mundo....até brasileiros .... da zona leste SP....
O BRASIL E A EDUCAÇÃO
            Enquanto os Estados Unidos da América estavam sendo construído sobre os fundamentos da Religião e da Educação, no Brasil apenas a Religião é desenvolvida ... e por esta razão o Brasil fica para trás no que se refere ao Progresso.
Durante quase 400 anos, depois de sua invasão e colonização pelos Portugueses, o Brasil viveu na quase total IGNORÂNCIA. Sua população era quase que completamente ANALFABETA.
Não havia Escolas, apenas Tutores que eram contratados pelas famílias abastadas para ensinarem seus filhos.
Houve sim o esforço dos Jesuítas (210 anos) para desenvolverem seus métodos de ensino no Brasil (criação de escolas elementares, secundárias, seminários e missões que se espalham pelo Brasil), mas que foram amputados pelas ações da política Pombalina que os expulsou do país e confiscou suas Escolas (1759).
Com a queda de Pombal a situação educacional no Brasil, antes precária (5% de letrados), agora torna-se caótica como bem resume Drª Silvia Rita Magalhães de Olinda, em seu artigo: A Educação no Brasil no período colonial: um olhar sobre as origens para compreender o presente[2] - escreve ela:
Com a queda de Pombal, a organização educacional acabou por se esfacelar. O subsídio não chegava para as despesas e os professores passaram a não receber o pagamento por meses e até anos. O quadro era cada vez mais desolador. No fim do período colonial só havia escolas nas cidades e vilas mais importantes. Entre os séculos XVI e meados do século XVIII, o Brasil pôde ser classificado como um país multilíngue, etnicamente diversificado, eminentemente rural e não escolarizado. [negrito meu].
TRANSFERÊNCIA FAMILIA REAL E INDEPENDÊNCIA
            A situação somente começara a melhorar com a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil em 1808.
- Com a presença da Corte há uma necessidade inerente de se melhorar as condições gerais do Brasil, bem como da Educação.
- Em 1822 temos a Independência do país e agora a questão da Educação é inserida na nossa Primeira Constituição (1824) que no artigo 179, item 30, outorga como garantia da inviolabilidade dos direitos civis e políticos dos cidadãos brasileiros, entre outros dispositivos, a garantia da instrução primária gratuita a todos os cidadãos.
A questão é: Quem são os cidadãos? Mais ou menos 20% da população – as elites. Na base da pirâmide nada muda.
OS PROTESTANTES NO BRASIL
            É neste contexto que no final do século XIX começam a chegar ao Brasil os primeiros Missionários Protestantes advindos dos Estados Unidos da América.
- Trazem consigo o ideário binário americano: Religião e Educação.
- Desde as primeiras ações dos protestantes no Brasil a questão da Educação sempre foi colocada como Primordial.
- Nesse momento de implantação do Protestantismo no país os brasileiros tinham uma taxa de mais de 80% de analfabetismo (nas capitais e grandes centros urbanos – no interior 95%)
- Este é um enorme problema para os missionários protestantes:
Como Ensinar os princípios da Teologia Reformada para uma pessoa que não sabia ler e interpretar um texto?
            Veja que algumas coisas não mudaram muito até hoje!!
O conceito moderno de analfabetismo é que toda pessoa que não consiga INTERPRETAR um texto é analfabeta. Isto significa na prática que o Brasil continua sendo um país de analfabetos.
- Todos os ramos do Protestantismo que chega ao Brasil no final do séc. 19 e inicio do séc. 20 tem um lema: Igreja e Escola.
PRESBITERIANOS
            Pegarei como exemplo os Presbiterianos, por ser meu campo de Pesquisa acadêmica.
- Seu primeiro missionário a chegar no Brasil em 1859, o jovem recém-formado em teologia Ashbel Green Simonton, ainda mal dominando a língua portuguesa, inicia uma incipiente Escola Primária, tendo como objetivo alfabetizar as crianças para poderem compreender o ensino evangélico. 
- Mesmo com a morte precoce de Simonton o presbiterianismo continua sua rápida expansão no Brasil.
Em 1870 (apenas 11 anos após a chegada de Simonton), foi fundada a modesta Escola Americana, marco inicial do que é hoje a Universidade Presbiteriana Mackenzie, o Colégio Internacional de Campinas, transferido para Lavras, Minas Gerais, que hoje é o Instituto Gammom; e o Colégio Piracicabano, de origem Metodista que ainda hoje existe em Piracicaba e também se transformou em Universidade.
- Nas duas primeiras décadas do século XX, foram fundadas ainda, várias escolas nas comunidades Presbiterianas, as chamadas Escolas Paroquiais.  
- O objetivo primário era utilizar os princípios cristãos (na perspectiva evangélica/protestante) como base de todas as praticas educacionais, perseguindo o ideal de cristianizar a sociedade brasileira através do processo educacional.
- Isto fica evidenciado na exigência feita a todos os membros da igreja presbiteriana ao apresentarem seus filhos menores para serem batizados se comprometem a “dar-lhes ou mandar dar-lhes a instrução e educação que puderdes” tendo como objetivo: “...para que venham a ler por si mesmas as Sagradas Escrituras (Bíblia)”.
- Em seu livro: Protestantismo e educação brasileira: Presbiterianismo e seu relacionamento com o sistema pedagógico, Osvaldo Henrique Hack,[3] credita aos educadores e escolas protestantes a modernização dos métodos de ensino, contidas na reformulação do ensino público no Estado de São Paulo, efetuada por Caetano Campos na última década do século XIX e que posteriormente tornou-se modelo para todos os demais Estados brasileiros.
- Para os protestantes “ser cidadão” implicava sempre na junção inseparável da religião e educação como instrumentos para capacitação do exercício de uma cidadania integral e construtiva.
- De maneira que a ausência de uma delas seria uma ação mutiladora de uma cidadania plena e fecunda.
- O que pode ser visto por todos nós diariamente nos jornais e telejornais brasileiros;
- Que pode ser constatado no nosso dia-a-dia....
CONCLUSÃO
            Faço minha conclusão propondo a seguinte questão: Se o Protestantismo se tornou tão relevante no Brasil em tão pouco tempo, por que esse Protestantismo não Influenciou e Moldou a Sociedade brasileira??
Creio que a resposta esta no Modelo escolhido e que predominou entre os presbiterianos e creio que nos demais ramos protestantes aqui inseridos.
OS DOIS MODELOS
            Entre os Presbiterianos havia dois modelos propostos e que por pouco tempo caminharam juntos, mas que posteriormente tornaram-se antagônicos, ainda que em um processo mais lento e longo, com toda certeza poderiam terem caminhado paralelamente.
Escolas Paroquiais: esse modelo defendia que ao lado de uma Igreja haveria sempre uma Escola, para atender os filhos da comunidade presbiteriana.
Este modelo é mais universalista, pois todas as crianças independentemente das condições sociais, teriam as mesmas oportunidades educacionais e colheriam seus resultados posteriores.
Colégios e/ou Escolas Padrões: nesse modelo se formariam Escolas de padrão elevado, para se alcançar as elites (através da formação de sua juventude) visando futuramente influenciar a cosmovisão da Sociedade brasileira.
Este modelo é restritivo e segmentário, pois somente as crianças de famílias mais abastadas teriam a oportunidade de uma Educação de boa qualidade e, portanto, somente elas colheriam os resultados posteriores.
FAZENDO UMA OPÇÃO
            A fazerem a opção pela Escola Padrão com seus Colégios e Universidades, o presbiterianismo abriu mão de universalizar a excelência educacional, que viria ao longo do tempo alcançar milhões de brasileiros, possibilitando a todos eles uma ascensão social igualitária.
            Ao abrir mão de suas Escolas Paroquiais, deixando-as à própria sorte, o que as inviabilizou economicamente, o Presbiterianismo perdeu sua maior e mais concreta oportunidade, de mudar de forma radical os desígnios históricos desse País.
            Os Presbiterianos e seus correlatos protestantes optaram conscientemente por permanecerem Coadjuvantes da elaboração da Cidadania brasileira, quando tiveram a Grande Oportunidade de serem os Protagonistas das Transformações sociais que o Brasil precisava e ainda precisa alcançar.
Fica, portanto esta lição para nós hoje!
            Temos uma Grande oportunidade, pois estamos dentro desse Espaço Acadêmico inseridos na Zona Leste de SP, implantando e desenvolvendo um Curso de Teologia. O que vamos fazer?
No que esse Curso de Teologia pode e precisa contribuir para com a Sociedade brasileira, aqui representada pela Zona Leste de SP?
Como poderemos Identificar e oferecer Respostas concretas aos anseios dessa Sociedade de inicio do século XXI?
            A valorização do nosso Curso de Teologia depende das respostas que daremos a cada uma destas questões e outras que ainda serão formuladas.
AGRADEÇO A ATENÇÃO DE TODOS!

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaobiblica.spaceblog.com.br/

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O JOVEM MESTRE – Rev. Richard Shaull
O VELHO MESTRE – Rev. José Borges dos Santos Jr.
O Protestantismo na Capital de São Paulo: A Igreja Presbiteriana Jardim das Oliveiras.

Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Jane Soares de. É preciso educar o povo! – a influência da ação missionária protestante na educação escolar brasileira. CUNHA, Marcus Vinicius (org.). Ideário e imagens da educação escolar. Campinas (SP): Autores Associados; Araraquara, SP: Programa de Pós-graduação em Educação Escolar da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP, 2000. (Coleção Polêmicas do nosso tempo; 73).
FARIA, Eduardo Galasso. Fé e compromisso – Richard Shaull e a teologia no Brasil. São Paulo: ASTE, 2002.
FERREIRA, Julio Andrade. O apóstolo de Caldas. Franca (SP): Renascença, 1950. [Biografia do Rev. Miguel Torres].
GOUVÊA, Herculano de. A primeira turma. São Paulo: Revista de Cultura Religiosa, Abril-Junho, 1922.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
LIMA, M. C. de. Breve história da Igreja Católica no Brasil. São Paulo: Loyola, 2001.
MATOS, Alderi Souza de. O Colégio Protestante de São Paulo. Disponível em: http://www.mackenzie.br/10283.html. Acessado em: 30/09/2015.
MENDONÇA, Antonio Gouvêia e VELASQUES Filho, Prócoro. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 1990.
OLIVEIRA, Marcus Aldenisson de. Antônio Bandeira Trajano e o método intuitivo para o ensino de Arithmetica (1879-1954). Dissertação (Mestrado) - Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Tiradentes, Aracaju, 2013. [Orientadora: Ilka Miglio de Mesquita].
PILLETI, N. História da Educação no Brasil, 6ª ed. São Paulo: Ática, 1996.
PIERSON, Paul Everett. A Younger Church in search of maturiry - presbyterianism in Brazil from 1910 to 1959. San Antonio (Texas): Trinity University Press, 1974.
POMBO, R. História do Brasil, v. 5. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc. Editores, 1959.
RAMALHO, J.P. Prática educativa e sociedade. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1976.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo e cultura brasileira - aspectos culturais da implantação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981.
SILVA, Geoval Jacinto da. Educação teológica e pietismo – a influência na formação pastoral no Brasil, 1930-1980. São Bernardo do Campo: Universidade Metodista de São Paulo, Editeo, 2010.
WEBER, M. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2004.





[1] Palestra proferida I Encontro Interdisciplinar, Faculdade Paschoal Dantas, 2014.
[2] OLINDA, Silvia Rita Magalhães de. A educação no Brasil no período colonial: um olhar sobre as origens para compreender o presente. Feira de Santana (BA): Universidade Estadual de Feira de Santana. Revista Sitientibus, nº 29, p. 153-162, jul/dez, 2003. Disponível em:     http://www2.uefs.br/sitientibus/pdf/29/a_educacao_no_brasil_no_periodo_colonial.pdf. Acesso em: 12/11/2014.
[3] HACK, Osvaldo Henrique. Protestantismo e educação brasileira: Presbiterianismo e seu relacionamento com o sistema pedagógico. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985. 

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