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quinta-feira, 4 de maio de 2017

Um Protestante e a Primeira História Geral do Brasil - Robert Southey


            A História do Brasil foi sendo escrita sectariamente na media em que seus fatos históricos estavam sendo produzidos. Coube a um historiador e poeta de origem inglesa – Robert Southey – escrever aquela que seria a primeira historia geral do Brasil (Varnhagen produziu sua obra posteriormente). Sua relevância está no fato de que sua obra sobre o Brasil, em três volumes, tornou-se a um primeiro esforço para uma sistematização crítica e objetiva dos fatos da história colonial. A obra de Southey abrange desde o descobrimento até a chegada da família real portuguesa no Brasil (1808).[1]
            Esse historiador inglês nasceu na cidade de Bristol em 1774. Depois de suas desventuras no setor comercial, por razões familiares e um flerte com a carreira eclesiástica anglicana, interrompida por sua expulsão do colégio Westminster School por satirizar os professores e administradores da instituição educacional. Finalmente ingressou na Universidade de Oxford e ali conclui seus estudos, também inicia uma amizade duradoura com Robert Lovell e Samuel Taylor Coleridge que vieram como ele a serem reconhecidos por suas obras literárias[2].
Em 1795 seu tio Herbert Hill, pastor anglicano, vai assumir a função de capelão na comunidade inglesa em Lisboa e leva com ele o irrequieto sobrinho então a idade de 21 anos.[3] É aqui na capital portuguesa que o jovem Southey vai definir sua carreira como escritor e historiador e assume paralelamente sua paixão pela história portuguesa e por consequência do Brasil sua importante colônia americana, mas cuja história era quase que totalmente desconhecida.
            Seu propósito original era escrever uma história geral de Portugal,[4] aproveitando-se da extraordinária biblioteca montado pelo tio contendo preciosas fontes primárias da história portuguesa e, por conseguinte, da sua colônia brasileira. Não conseguiu empreender seu objetivo primário, mas acabou por elaborar a primeira obra histórica sobre o Brasil.[5]
            Em 1813 ocupou o cargo de secretario do Erário, na Irlanda. Após deixar essa função foi residir em Koswcik, a partir de quando se dedica à Literatura e á Historia. Além de sua família assume responsabilidade junto à família de seu amigo Lovell, que havia se casado com a irmã de sua esposa, de maneira que sua situação econômica torna-se muito limitada. Em 1813 foi nomeado “Poeta Laureado”, responsável oficial em escrever peças literárias sobre a família real, passando a receber uma ajuda de custo do governo de trezentas libras.  Mas somente a partir de 1835 passou a receber um suplemento financeiro de mais trezentas libras, que lhe proporcionou um pouco mais de tranquilidade financeira[6].
O fato de um poeta se dedicar a escrever História não tem nada de excepcional, visto que tantos outros assim o fizeram. O peculiar de Southey é que ele vai dar atenção a uma remota colônia portuguesa até então quase totalmente desconhecida dos ingleses. Dedicou com afinco grande parte de seu tempo para resgatar do limbo historiográfico este povo que consistia na maior parte da América ao Sul. Evidente que seu propósito original era muito mais ambicioso, pois como indica em seus esboços desejava escrever não somente sobre a nação portuguesa, mas todas suas demais colônias no continente africano. Todavia, do projeto maior restou apenas suas anotações[7].
            Principalmente após sua estadia em Portugal ele passa a ter um interesse permanente pelas literaturas de viagens[8] e em varias ocasiões resenhou livros de ingleses que estiveram no Brasil, como o de Thomas Lindley;[9] lê as obras de John Mawe, de Andrew Grant,[10] de Henderson;[11] mantém contato pessoal a inglesa Maria Graham,[12] com William May, James Gooden; incentiva e orienta a elaboração do material produzido por John Luccock[13] e de Henry Koster,[14] pelo qual nutria sincera amizade.
            E apesar de jamais ter visitado o Brasil demonstra ter uma percepção muito lucida das realidades brasileiras, que se podem aperceber na sua História do Brasil, tais como a questão da mestiçagem, da expansão geográfica, das questões relacionadas ao meio ambiente, a questão sensível dos indígenas e do sistema escravagista, que seriam aprofundadas e arraigadas na historiografia nacional somente a partir de Capistrano de Abreu, Sílvio Romero e Euclides da Cunha. 
            Sua percepção histórica assemelhava-se à “escola histórica” alemã, de Herder[15] acentuadamente, visto que estava à sua disposição na biblioteca do amigo Coleridge, que posteriormente foi incorporada à sua própria biblioteca. Também pode se perceber a influência de diversos pré-românticos ingleses, que permeavam a mente intelectual da Grã Bretanha do século XIX.
            Suas fontes são principalmente o vasto acervo de livros e manuscritos sobre os temas luso-brasileiros construídos ao longo dos anos por seu tio materno, o capelão Hill, que atuou nas igrejas anglicanas no Porto e em Lisboa; por suas breves estadias em Portugal; por seus contatos Koster e Luccock que por vários anos moraram no Brasil; pelo padre João Ribeiro; o conde dos Arcos, último vice-rei do Brasil, que posteriormente foi governador da Bahia e que lhe enviou ao menos duas importantes obras sobre o Brasil: uma cópia da Gramática de Anchieta e por empréstimo, o Valoroso Lucideno de frei Manuel Calado. Além desses outro colaborador continuo foi o comerciante John May.
            Com extrema habilidade literária, que tinha de sobra, Southey vai evitando as generalizações e abstrações, imprimindo em seus textos um movimento natural, de maneira que o leitor torna-se participante dos acontecimentos, o que aumenta e amplia o interesse do leitor por um assunto do qual não está familiarizado – um país tropical no final do mapa da América do Sul.
            Evidentemente que uma obra constituída de três robustos volumes produziu admiradores e críticos. Mas nos parece que os favoráveis foram mais do que os desfavoráveis. Uma expressão muito entusiasta vem do amigo Walter Scott, escritor entre outros da conhecida aventura de Ivanhoé, que apreciou deliciosamente a leitura empolgante das aventuras e desventuras das centenas de personagens que compõe a obra histórica de Southey, e que nas palavras do amigo “acordou um tipo de sensação que em mim eu já imaginava coisa morta”.
            Apesar de compartilharem uma afinidade quanto à imaginação histórica,[16] a obra de Southey mantém sempre a sobriedade e o apresso pela exatidão dos fatos, que são características do historiador criterioso. Em seu meticuloso escrutínio sujeitava todas as informações à crítica e solicitando a opinião de outros que em determinadas áreas tinham mais conhecimento do ele.
            O escritor inglês está inserido em um mundo europeu encharcado de revoluções, entre as quais havia vivenciado a francesa em particular, e percebe que tais movimentos nem sempre produzem o que tão alvoroçadamente se propõe. Suas mudanças de concepções politicas serão alvo constante de critica por parte dos liberais e dos radicais ingleses, que viam nele um apostata que havia se vendido por uma pensão real.[17] Todavia, suas posturas politicas são bem definidas e abalizadas e com uma percepção extremamente avançada ele já está antevendo e criticando o que vem sendo fonte de perturbação para muitos desde então: a sensação de que a sociedade está esmagando o individuo.  
É com essa percepção experimental pessoal que ele faz a leitura dos diversos movimentos revolucionários que demarcam a história inicial brasileiro. É dentro desta compreensão que se deve procurar compreender suas críticas ao movimento da Inconfidência Mineira e seu mentor Tiradentes, ainda que o autor deixe bem claro sua total discordância e repudio à bárbara e ultrajante sentença imposta ao inconfidente.[18] Southey abordava o progresso das sociedades referendando que o movimento ideal da história dava-se por estágios - excluindo possíveis benesses nas revoluções -, que gradualmente iriam substituindo rudes hábitos em prol de refinadas maneiras. Desta forma ele adverte que se o país conseguisse evitar ou minimizar os flagelos da Revolução, cujo exemplo próximo era a fragmentação da América Espanhola, o país haveria de experimentar tempos de glória. Para ele as Revoluções somente traziam anarquia e guerra civil e divisão, de maneira que o Brasil se transformaria em um conglomerado de “nações” mesquinhas e hostis que acabaria por leva-las ao barbarismo com muita miséria e sangue derramado.
            Além de ter constatado os efeitos nocivos da Revolução francesa ele esta vivenciando na própria pele os efeitos corrosivos da Revolução Industrial em seu próprio país, que dentre outras coisas está corroendo as instituições sociais, o que lhe permite olhar para a história da jovem colônia brasileira e deslumbrar algumas peculiaridades quanto a formação mestiça da sociedade brasileira, bem como apontar alguns dos vícios que já estão, e infelizmente permaneceram até hoje, permeando as relações entre a sociedade civil [atualmente empreiteiras, banqueiros, sindicatos] e o Estado (Império) ainda nos dias coloniais. Evidentemente que suas observações críticas não soaram bem nos ouvidos sensíveis daqueles que desde sempre usufruíram dos benefícios desta ligação umbilical nefasta.
            Ele vê com entusiasmo a vinda da corte portuguesa para o Brasil, sua obra termina justamente nesse momento histórico. Entende que com a presença da realeza serão alavancadas as mudanças, e de fato elas ocorreram, pois as reformas administrativas e judiciárias que foram efetivadas acabaram por garantir a coesão social e o tão desejável progresso da colônia. Sua percepção de nacionalidade ideologicamente conservadora vem de encontro às concepções imperiais portuguesas, até porque a Inglaterra é a grande referência de um Império moderno e progressista.
            A obra de Southey contem muitas das características que serão amplamente percebidas nas obras históricas posteriores produzidas por historiadores brasileiros: as dificuldades de aceitar as mudanças, uma visão euro centrista, a defesa de um poder executivo (imperial e posteriormente republicano) centralizador e autoritário e quando necessário despótico; uma desvalorização da colônia quanto sociedade em prol de uma identidade europeia. Mas nada disso é completamente estranho, visto haver uma pressão diplomática da Grã-Bretanha sempre forte sobre Portugal e suas colônias.
            Desta forma a concepção histórica de Southey se amalgama tranquilamente com os ideais que serão desenvolvidos pelos construtores do então futuro Império e posterior República do Brasil. Ainda que diversas de suas preposições não encontrassem ressonância entre as elites brasileiras, como por exemplo, a civilização dos índios e os riscos crescentes da escravidão e aumento maciço de escravos africanos.[19] Os primeiros por que não se ajustavam ao sistema agrícola e o segundo justamente por que se constituíam na mão de obra fundamental para a expansão do então rico “agronegócio” colonial.
            É preciso lembrar que até o momento da Independência e, portanto o inicio da construção de uma identidade nacional para o novo Império que nasce, predominava um sistema de localismo anárquico, de modo que os novos idealizadores da nacionalidade concordam em grau, gênero e número com a ideologia inglesa de Estado-Nação como um projeto ideal, contido na obra elaborada pelo historiador inglês.
            Outros aspectos menos implícitos no trabalho de Southey como o positivismo e o idealismo alemão, encontram ressonância na historiografia brasileira em obras como a de Gilberto Freyre[20] e Oliveira Viana, que refletem as matrizes ideológicas da historiografia e construção da nacionalidade brasileira.
            Como muitos autores anglo-saxônicos Southey tinha enormes reservas e críticas ao catolicismo. Apesar de que a ‘History of Brazil’ faça elogios ao empenho dos jesuítas[21] a favor da proteção dos indígenas, em geral a maneira como se realizou a colonização portuguesa é condenada, em especial a escravidão e os seus efeitos, bem como sua religião católica romana ilustrada e impregnada de sincretismo.
      A obra de Southey, meticulosamente elaborada é publicada em três tomos entre 1810 e 1819.[22] Em 1822 a obra viveu uma segunda edição e na Grã-Bretanha ficou como obra referência acerca da historia brasileira durante todo o século XIX[23]. Mas essa obra não lhe trouxe significativo ganho financeiro, em relação ao primeiro volume recebeu menos do que por um único artigo escrito para a revista Quartely Review  e pelo segundo, não chegou receber nem metade do que era pago para escrever um prefácio. Em carta ao amigo John May reclama dessa discrepância editorial onde o trivial era mais valorizado do que obras muito mais elaboradas, que exigem muito mais tempo, conhecimento e pesquisa.  
            No Brasil, a obra de Southey foi apreciada principalmente por causa da sua minuciosidade. Em 1840 foi publicado um extrato em tradução portuguesa de qualidade muito ruim, e no mesmo ano de 1840, Southey foi nomeado membro honorário do IHGB.[24] Em 1862 a Livraria Garnier, Rio de Janeiro, lançou a primeira edição completa em seis volumes, com a tradução de Luís Joaquiam de Oliveira e Castro e anotações feitas pelo Cônego Dr. J. C. Fernandes Pinheiro. Uma segunda edição brasileira veio através da Livraria Progresso Editora, Bahia, seguindo fielmente a edição carioca, entre 1948 a 1954. Uma terceira edição em português foi efetivada pela Editora Obelisco, São Paulo, com anotações de J. C. Fernandes Pinheiro, Leonardo Arroyo e Brasil Bandecchi (1965). Esta edição paulista contém inúmeras ilustrações e mapas, bem como fac símiles de documentos, que não são encontradas nas edições anteriores, sendo elaborada graficamente por Pedro J. Fanelli.
            Alguns fatores negativos fizeram com que a obra de Southey fosse mais falada e comentada do que vendida no Brasil. Apesar de ser admirador da obra produzida pelos jesuítas, em relação aos índios, como Anglicano de convicção, manteve críticas contundentes quanto à religião católica romana implantada no país com seu clericalismo de baixo nível e suas cerimônias sincretistas, de modo que, conforme Maria Graham (Journal of a Voyage to Brazil, p. 13) não seguiu a própria regra de que “nem sempre a veemência contra o erro é o melhor caminho para se descobrir a verdade”. Mas além desse outro fator muito negativo para a popularidade do trabalho de Southey é que poucos brasileiros tinham o conhecimento da língua inglesa e entre a primeira edição inglesa e a primeira em português (1862) se passaram mais de trinta anos, quando nesse interim outras obras já haviam sido escritas e editadas no país, como a obra de Porto Seguro (1854) que trazia novos documentos da Torre do Tombo, que Southey não teve acesso, de maneira que a primazia do historiador inglês foi ofuscada. Soma-se ao fato de que naquela época o numero de leitores no Brasil era irrisório, bem como extremamente rara as livrarias nos grades centros urbanos.  
Por ocasião da sua morte elogiaram os seus méritos pela história, geografia, indústria e agricultura do Brasil. Dois anos antes, um membro do IHGB já tinha recomendado a exatidão e imparcialidade do trabalho de Southey. Da mesma forma, mais de 30 anos depois da publicação em inglês, Varnhagen, o futuro autor da almejada ‘História Geral do Brasil’, fez elogios à cientificidade da obra, consistindo no estudo meticuloso das fontes e na quantidade vasta de notas de rodapé, considerando o livro o melhor de seu gênero no seu tempo (VARNHAGEN, 1844).[25]
            Uma característica peculiar da obra de Southey é que ele abrange não apenas a História do Brasil, ampliando suas pesquisas em direção aos demais países da América do Sul, denominada de América Hispânica. Para muitos críticos é um defeito, pois acaba misturando informações e confundindo os leitores, produzindo um efeito caleidoscópico; mas para outros sua obra torna-se mais rica e, portanto mais relevante, pois faz as interpolações históricas com toda a região e não isolando o Brasil como se fosse o único país da região.
            Era um bibliófilo cuja biblioteca crescia a cada ano chegando a 14.000 volumes. Nunca fez uma viagem em que não trouxesse na bagagem preciosos livros. Os livreiros de Londres o conheciam muito bem e ele dizia que os livros eram alimento, bebida e roupagem para si e para seus familiares. Em todos esses volumes encontram-se marcações e anotações destacando sempre tudo que lhe chamava atenção. E dizia que velhos livros e velhos amigos são a grande riqueza de um homem e nisso ele foi mais rico do a maioria das pessoas.
            Robert Southey morreu em 26 de março de 1843 e o centenário de sua morte foi comemorado no Brasil principalmente pelos Institutos Históricos do Brasil e de São Paulo. Ele notabilizou-se como um especialista em literatura, história e história contemporânea de Portugal e Espanha, o que rendeu inúmeras publicações em notáveis periódicos britânicos: Monthly Magazine, Critical Review, Annual Review, Quartely Review e Edimburgh  Annual Register. Entre suas obras mais conhecidas estão as biografias de Nelson e John Wesley; Joana d’Arc (1796), Poesias (1797), Cartas de Espanha e Portugal (1797), Palmeirim de Inglaterra (1807) Cartas de Espriello (1807), Maldição de Keama (1811), Poemas Para os Soberanos Aliados (1814), Rodrigo o Último dos Gôdos (1814), Sir Thomas Moore, Colóquios de Estado e da Sociedade (1832) e As Vidas dos Almirantes Britânicos (1839), sendo que muitas delas são obras de mais de dois volumes.
Uma história muito conhecida por nós, mas que poucos sabem que Southey é seu autor é a história de Cachinhos Dourados (A História dos Três Ursos, Os Três Ursos, Cachinhos Dourados e os Três Ursos) que é uma história infantil primeiramente registrada em forma de narrativa pelo autor e poeta inglês e publicado pela primeira vez num volume de seus escritos em 1837.
Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
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Reflexão Bíblica
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Referências Bibliográficas
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CARNALL, Geoffrey. Robert Southey and his age – the Development of a Conservative Mind. London: Oxford University Press, Amen House, 1960.
CASTANHEIRA, Maria Zulmira. “Speaking in Portuguese and Writing in English”. Representações de Portugal na obra de Robert Southey. In__ SARMENTO, Carla (org.). Diálogos Interculturais. Porto: Vida Económica, 2011, p. 143-151, p. 144.
DIAS, Maria Odila da Silva. O fardo do homem branco: Southey, historiador do Brasil. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1974.
DIAS PINTO, Alexandre. “Rewritting the origins of the national master narrative in Robert Southey’s ‘Fabulous History [of Portugal]”. GASKILL, Gerald Bär Howard (Eds.). Ossian and National Epic. Berlin: Peter Lang, 2012.
HAUSSER, Christian. A caminho de uma história nacional: a pré-história da ‘História Geral do Brasil’ na primeira metade do século XIX. Revista Expedições: Teoria da História & Historiografia, V. 4, N.2, Agosto-Dezembro de 2013 [Universidade Estadual de Goiás; original em alemão, tradução Eduardo Henrique Barbosa de Vasconcelos].
HUMPHREYS, R. A. Robert Southey and his History of Brazil. Londres: Hispanic and Luso-Brazilian Council, 1978.
PRATT, Linda. Robert Southey and Contexts of English Romanticism. Burlington: Ashgate, 2006.
RAMOS, André da Silva. Robert Southey e a Experiência da História de Portugal: Conceitos, Linguagens e Narrativas Cosmopolitas (1795-1829). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto, Mariana, 2013.
SOUTHEY, Robert. History of Brazil. Londres: Longman, Hurst, Rees, and Orme, Paternoster-row, 1819.
SOUTHEY, Robert. História do Brasil, 3ª ed. Tradução de Luiz Joaquim de Oliveira e Castro. São Paulo: Obelisco, 1965. [seis volumes].
SPECK, W. A. Robert Southey: entire man of letters. New Haven and London: Yale, University Press, 2006.
VARELLA, Flávia Florentino. Reunindo o passado: contextos discursivos e linguagens historiográficas na History of Brazil de Robert Southey. Tese de doutorado em História, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.
VARELLA, Flavia. “Reunindo o Passado: Erudição e Narrativa na History of Brazil de Robert Southey”. In__ Cadernos de resumos & Anais do 5º. Seminário Nacional de História da Historiografia: biografia & história intelectual. Ouro Preto: EdUFOP, 2011, pp. 1-15.
VARELLA, Flávia, OLIVEIRA, Maria da Glória e GONTIJO, Rebeca (Org.). História e historiadores no Brasil: da América Portuguesa ao Império do Brasil : c. 1730-1870. [recurso eletrônico] Dados eletrônicos. - Porto Alegre : EDIPUCRS, 2015.
VARNHAGEN, F.A. Historia Geral do Brazil. Madri, Imprensa da V. de Dominguez, 1857.




[1] A importância dos escritos de Robert Southey (1774-1843) nos últimos anos tem sido retomada com vigor por estudiosos de diferentes disciplinas e nacionalidades (PRATT, 2006; DIAS PINTO, 2007; VARELLA, 2012; CASTANHEIRA, 2011; RAMOS, 2013).
[2] Eles se conheceram (Robert Southey, Robert Lovell e Samuel Taylor Coleridge) em 1794, quando os três jovens entusiastas estavam morando em Bristol, começando suas carreiras poéticas e planejando a fundação de uma colônia pantisocrática - uma forma de organização social utópica em que todos são iguais em posição social e responsabilidade - nas margens do rio Susquhanna, nunca realizado. Posteriormente haveriam de ratificar seus laços de amizade casando-se com três irmãs, tonando-se assim concunhados.
[3] Antes de viajar casou-se secretamente com a jovem Edith Fricker, que permaneceu morando com as irmãs e utilizando o nome de solteira até o retorno de Southey.
[4] Dizia Southey, em carta a Miss Seton (13-6-1804) que a obra se dividiría em três volumes sobre a Europa, Ásia e África, dois ou três volumes sobre as conquistas na Ásia e um volume sobre o Brasil.
[5] Há fortes indicações que foi seu tio que o direcionou a escrever sobre o Brasil, a partir de 1806, diante da cada vez mais eminente transferência da Corte portuguesa para a Colônia americana. O tio percebe o aumento significativo do interesse inglês pelas coisas do Brasil e coloca à disposição do sobrinho sua vasta biblioteca com documentos inéditos que havia recolhido ao longo de quase 25 anos. O tio acreditava que Southey poderia conseguir subsídios junto ao governo inglês para escrever e editar a obra, mas foi frustrado pelo desinteresse demonstrado pelo então Lorde Grenville, primeiro ministro do Reino Unido, que alegou interesse maior nas outras partes da América do Sul.
[6] Southey recebeu algumas pensões em sua vida. A primeira delas foi concedida pelo seu amigo Charles Wynn no valor de £160 por ano, que em 1807 foi substituída por uma pensão do governo no valor de £200 por ano. Juntamente com o título de Poeta Laureado, recebido em 1813, Southey também ganhou uma pensão do governo. Em 1835, Southey ganhou uma nova pensão de £300 ao ano do primeiro ministro Robert Peel, que o tornou financeiramente independente do dinheiro que ganhava com o que escrevia (SPECK, 2006, p. 119 e 230).
[7] Em agosto 1822 Southey escreveu que sua 'História de Portugal' estava substancialmente concluída até a ascensão de D. Sebastião em 1557, e seu genro disse que o manuscrito e materiais adicionais estavam em sua posse, mas nunca chegou a ser publicado.
[8] “Diários e livros de viagens adquirem com o tempo mais valor; são subsídios da história e preservam a memória de muitas coisas, que o historiador deixa de lado, por considerar pouco importante ou trivial, mas que transformam em objetos de curiosidade quando se tornam obsoletos e antigos” (in Dias, 1974, p. 72).
[9] Relatos de viagens, crônicas, entre outros, exerceram um papel crucial na escrita das histórias que buscavam apresentar ao leitor inglês as informações mais acuradas sobre os principais eventos de uma região que despertava cada vez mais a curiosidade europeia – o Brasil e a América Latina. O mesmo haverá de fazer James C. Fletcher em relação aos leitores americanos.
[10] Poucas informações existem sobre a vida e obra de Andrew Grant, nos arquivos ingleses apenas encontramos referência no que diz respeito à Grant a escrita de uma história do Brasil e a menção a sua atividade como físico .
[11] James Henderson era viajante e obteve em 1823 o cargo de cônsul em Bogotá após residir desde 1821 na cidade do Rio de Janeiro. Elaborou além da sua History of Brazil, alguns panfletos avaliando a situação econômica dos territórios da América Espanhola.
[12] Este no Brasil nos anos de 1821-1823 e posteriormente editou uma espécie de Diário dessa sua viagem. Sua relevância está no fato de descrever a vida social do Rio de Janeiro daquela época, bem como pelo fato de constituir um dos raros relatos pela ótica feminina sobre o Brasil. 
[13] Chegou em meados de 1808, no exato momento da chegada da Corte Portuguesa no Brasil e permaneceu no Brasil durante dez anos, realizando negócios e observando a terra e a sociedade tão diferentes de seu país anotou tudo o que viu e, tempos depois, escreveu um livro - "Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil" - onde comentava, admirado, as mudanças na vida das pessoas que aqui moravam, com o estabelecimento da Corte portuguesa.
[14] Esteve no Brasil para tratamento de saúde. Ao retornar à Inglaterra escreve seu livro sobre o Brasil (Travels in Brazil - 1816), mas um título mais apropriado seria “Viagens ao Nordeste do Brasil”, pois que na verdade havia permanecido em Pernambuco e conheceu as províncias setentrionais: Paraíba. Natal, Aracati, Fortaleza, São Luiz do Maranhão, Alcântara e o Sertão legítimo, com seca, léguas sem fim, gado morrendo, solidão, resistência, heroísmo, primitivismo. Foi incentivado e orientado por Southey para escrever seu livro.
[15] Johann Gottfried Herder (1744 – 1803) é considerado o pai das noções relacionadas ao nacionalismo, historicismo e inspirador do movimento e antecipador dos principais temas tratada pela chamada escola histórica alemã. Que se contrapunha a todos aqueles que acreditavam que a realidade era ordenada em termos de leis universais, eternas, objetivas e inalteráveis, que podiam ser descobertas através da pesquisa racional. Herder destaca a singularidade do fator humano e das ciências que tratam desse objeto, para ele o mundo do homem é histórico. Busca-se a partir de então, e integração entre disciplinas que tratam do homem, ou seja, um saber conjunto que permitisse compreender as diversas esferas da vida em sociedade. Há uma enorme preocupação com a realidade. Herder e demais companheiros estão preocupados com a reforma social e a melhoria da qualidade de vida das massas durante os tempos da industrialização.
[16] “Se o historiador quer tratar com justiça os indivíduos cujos atos registra, deve voltar à sua época e, pondo-se onde eles estiveram, tentar, enquanto possível, ver as coisas, como lhe pareciam aos seus próprios olhos, segundo a visão que tinham deles mesmos, à mesma luz, sob o mesmo ponto de vista a através dos mesmos recursos” (Southey in Dias, 1974, p. 71-72).
[17] Abandonaria projetos utópicos para preocupar-se com reformas concretas. Em 1796, pensava nos radicais Joseph Gerrald, Thomas Holcroft, e no filósofo anarquista William Godwin, como nos três primeiros homens da Inglaterra e talvez do mundo. Já em 1817, substituíra-os por Andrew Bell, que inventou na Índia um novo método de alfabetização das massas; por Thomas Clarkson, quaker, que dedicara a vida ao movimento em prol da extinção do tráfico de escravos; pelo socialista Robert Owen, criador de Nova Lanark. Estava consumada a transição do utopismo revolucionário para o conservadorismo de reformadores filantropos, integrados na ordem constituída.
[18] Southey abordava o progresso das sociedades referendando que o movimento ideal da história dava-se por estágios - excluindo possíveis benesses nas revoluções -, que gradualmente iriam substituindo rudes hábitos em prol de refinadas maneiras.
[19] Personagens influentes na cultura brasileira como José Bonifácio e Hipólito da Costa já preconizavam os perigos inerentes do abandono dos indígenas e da crescente africanização do Brasil. O primeiro preocupa-se da questão indígena: “O outro objeto que me tem merecido muita meditação e desvelo são os pobres índios, assim gentios como domésticos; para que a raça desgraçada desta mísera gente não desapareça de todo, é mais que tempo que o Governo pense seriamente nisto: a povoação do país, a religião e a humanidade bradam há muito tempo pot um sistema sábio, ligado e duradouro..” (Revista de História, 37 (55): 224-5). E o segundo escreve sucessivos artigos (1814) chamando atenção para “a necessidade de abolir o tráfico para não continuar a ‘sujar a raça com a importação de negros’” (Correio Braziliense, 33, jan. 1817) e colocando como opção a priorização de imigração de camponeses e colonos europeus para o Brasil (Correio Braziliense, abr. de 1814; nov. 1815).
[20] A presença da cultura britânica no desenvolvimento do Brasil, no espaço, na paisagem, no conjunto da civilização do Brasil é das que não podem – ou não devem – ser ignorada pelo brasileiro interessado na compreensão e na interpretação do Brasil. Gilberto Freyre.
[21] Ele também trata com deferência as obras produzidas por católicos tais como: Acta Sanctorum, que havia pertencido aos capuchinhos de Gaut, as Revelações de Santa Brígida e as Crônicas dos Frades Franciscanos Descalços.
[22] Quando da publicação do primeiro volume, não imaginava que a obra pudesse ficar tão grande. Em suas correspondências declara que reescrevia de duas a três vezes os textos, acrescentando novas informações, recebidas do tio e outros colaboradores, ou melhorando sua redação conforme sugestões de seu amigo John Rickman. Buscou permanentemente dois objetivos: editar o maior numero possível de informações inéditas e evitar a todo custo generalizações superficiais ou precipitadas.
[23] Mesmo após a publicação, em 1819, do terceiro e último volume sobre o Brasil, o historiador inglês manteve seu interesse pelas coisas do Brasil, o que atestam suas numerosas correspondências no decorrer da década de 20 dos Oitocentos. Os conflituosos anos que se seguiram à Independência brasileira motivaram comentários e observações de Southey nos jornais ingleses, que viam nele a pessoa mais bem informada sobre o Brasil.
[24] O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), fundado em 1838, frequentado em profusão por historiadores, poetas e literatos, local onde se travaram batalhas intelectuais acerca da definição do que era próprio e impróprio da história como campo de saber, testemunhou algumas das discórdias e aproximações entre a história e a poesia. Em seu segundo ano de atividade “tratou de galardoar, como podia, o serviço que prestara á história nacional o estrangeiro ilustre, elegendo-o em sessão de 7 de março de 1840 seu sócio honorário”.
[25] Muitos membros do IHGB tem uma relação ambígua com a obra de Southey, como é o caso de Varnhagen que tece duras críticas à obra histórica do inglês, mas usa e abusa do trabalho elaborado pelo antecessor, de maneira que no primeiro volume de seu trabalho histórico (1854) Varnhagen faz 18 citações e no segundo volume (1857), oito citações da obra de Southey. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

John Wycliffe e a Crítica à Igreja Institucionalizada


            Neste ano de 2017 comera-se os 500 anos da chamada Reforma Protestante, ocorrido no século XVI e exaltada em versos e prosas pelas chamadas Igrejas Históricas e/ou Protestante. Todavia, são muito poucos aqueles historiadores e teólogos destas denominações, provenientes daquele movimento original, que realmente colocam o dedo nas feridas abertas que tanto dilaceraram e transformaram a Igreja Cristã em uma instituição moribunda na Idade Média.
            Mesmo quando se referem aos personagens centrais dos movimentos, como Lutero, Calvino, Zwinglio e outros, mas principalmente quando se lembram dos reformadores que os antecederam, mormente denominados de pré-reformadores, nomenclatura equivocada e reducionista, pois todos eles foram tão reformadores quanto seus pares posteriores, os estudiosos se utilizam apenas de partes de suas propostas e ideais que lhes convém para manterem seus atuais pressupostos teológicos eclesiásticos, descartando tudo que não se encaixa em seus pressupostos teológicos eclesiológicos.
            Aguardo ansioso encontrar entre todas as plumas e paetês que serão produzidos no transcorrer deste ano para comemorar essa data expressiva de 500 anos, artigos, livros, debates, conferências e quaisquer outras atividades afins, que realmente tragam à luz as críticas veementes que foram produzidas por estes homens e mulheres que estiveram prontos a darem suas vidas em favor de uma Igreja Cristã bíblica – não apenas no que lhes convinha – mas bíblica em todos os sentidos. Uma Igreja Cristã que verdadeiramente expressasse a mensagem poderosa e transformadora do Evangelho de Jesus Cristo – não de seus próprios evangelhos. Uma Igreja da qual eles poderiam declar em alto e bom som – é uma Igreja Cristã!!
            Se John Wycliffe[1] ressuscitasse hoje e visse a realidade da Igreja atual, certamente chegaria à conclusão que ainda estaria no século XIV ou XV. Quando seus escritos e suas pregações são examinados, não selecionadamente, mas integralmente, verifica-se que muitas de suas críticas e propostas nunca de fato foram acatadas e colocadas em pratica por seus companheiros reformadores dos séculos posteriores. Mesmo após 500 anos da grande Reforma Protestante, a mensagem e as críticas levantadas por Wycliffe continuam aguardando serem contestadas ou praticadas, mas certamente continuam no limbo do silêncio onde foram colocadas durante todos esses séculos.
            Nesse pequeno espaço vou me esforçar por sintetizar um de seus pontos mais críticos e por isso menos atrativo para a cristandade de seus dias e posteriores - a Crítica à Igreja Institucionalizada.
            John Wycliffe (1330-84) foi um dos mais importantes e influentes pensadores da Idade Média. Sua atividade está no período crucial da escolástica tardia, quando as novas ideias e doutrinas ali propostas aceleraram a transição para o modo de pensar moderno. Por ter o privilégio de conviver grande parte de sua vida em um ambiente universitário, aluno, professor e doutor em teologia na Universidade de Oxford, Wycliffe reuniu todas as condições que lhe permitiam uma visão privilegiada bem como a possibilidade de uma produção abundante, além de estar acercado de amigos com os quais compartilha suas ideias e um público avido de ouvir suas propostas – os alunos da academia.  Para uma bibliografia de suas obras em latim e inglês recomendo o excelente trabalho de doutorado em História Social de Leandro Villela de Azevedo, conforme referências bibliográficas no final deste artigo.
            Diante de tantos escândalos e deturpações que a Igreja Cristã de seus dias enfrentava, Wycliffe foi cada vez mais chegando à conclusão de que a genuína Igreja de Cristo não era e não poderia ser expressa na Igreja Institucional, fosse o nome que recebesse – que em seus dias era a Igreja Católica Romana, mas hoje certamente se multiplicam aos milhares.
            Seu ponto de partida foi o poder absoluto que as lideranças eclesiásticas exerciam sobre a vida das pessoas. Quanto mais estudava os textos bíblicos mais se indignava com as atitudes megalomaníacas dos líderes da igreja institucional. Para combater esse conceito eclesiástico de poder centralizador ele vai resgatar e reafirmar a realidade de que Cristo e somente Ele é o centro de todas as coisas, o único e legitimo Cabeça da Igreja Cristã.
            Na media em que os anos vão sucedendo a indignação de Wycliffe somente aumenta diante dos desmandos e desvarios desta casta eclesiástica que dominam e controlam a igreja institucional, sempre visando seus próprios e mesquinhos interesses pessoais e uma autopreservação de seus privilégios que não impunham limites em utilizar quaisquer medidas ou violência para se manterem no poder.
            Em ótica à luz do ensino bíblico é resgatar uma Igreja Cristã não institucional, cujos líderes não seriam ordenados em algum tipo de hierarquia de poder. Para ele a Igreja é um Corpo, a Noiva, um Organismo Vivo sendo preenchido e dirigido pelo Espírito de Cristo.
            É verdade que a visão de Wycliffe deve ser compreendida como sendo eminentemente particular e pessoal, desenvolvida dentro de sua percepção da  genuína vida cristã do período apostólico. Para ele Jesus Cristo é o modelo de desapego às coisas materiais e de todo tipo de domínio sobre os homens e as coisas. Seu objetivo foi totalmente absorvido na pregação da mensagem de salvação e no cuidado para com o próximo. Para Wycliffe está deveria ser a norma para todos os cristãos em todos os tempos, principalmente os que ocupam funções sacerdotais e o próprio Papa. Assim sendo, a Igreja deve ser a expressão da vida de Cristo de modo que seus membros devem imitar a vida de renuncia temporal e pregação do Evangelho.
Esta perspectiva idiossincrática de Wycliffe vai bater de frente com a realidade deprimente da Igreja Cristã do século XII e XIII com suas infinitas hierarquias e crescente opulência (qualquer semelhança com o evangelicalismo brasileiro não é mera coincidência). Para Wycliffe era clara e evidente a distinção entre a Igreja Institucional e a Igreja pós-apostólica e a única saída era retomar o modelo original.
Desde seus dias neotestamentário o cristianismo continha uma diversidade de correntes eclesiológicas, dentre as quais aqueles que defendiam um anti-institucinalismo da igreja. Periodicamente está percepção era defendida mais intensamente ameaçando romper com o status quo estabelecida pelas lideranças eclesiásticas de plantão. O grande modelo era o apóstolo Paulo que em nenhum momento deixou de confrontar as autoridades eclesiásticas representadas nas figuras de Pedro, Tiago e João, aos quais ele mesmo nomeia como sendo as “colunas” da nascente igreja cristã, mas que nunca estiverem além de serem corrigidos quando necessário (Gl 2.6,9).
            Para melhor compreensão das colocações de Wycliffe é preciso resgatar um pouco do histórico desta postura anti-hierárquica, anti-institucional que sempre tentou, sem sucesso, romper as muralhas intransponíveis da Igreja medieval.
            A maioria desses movimentos não chegaram à formular uma teologia sistemática de um cristianismo e/ou uma Igreja não institucional.  Somente os chamados espiritualistas no tempo da reforma estabeleceram um conceito eclesiástico não institucional.
            Já no século XII temos diversos movimentos com características antinstitucionais, dentre os quais se destaca a figura de Pedro de Bruis, pregador intinerante no sul da França que rejeitava o Antigo Testamento, a veneração da cruz e os edifícios da igreja, influenciado pela ideia de rejeição da religião externa e a desmaterialização da adoração.
            Nessa esteira temos os seguidores de Valdes (Waldo) de Lyon, estabelecidos na Lombardia e Sabóia, que não se reconciliaram com a Igreja Romana, reivindicavam, com base no modelo apostólico neotestamentário, o direito de pregar, e em alguns casos até mesmo administrar a eucaristia e a penitência.
            Um personagem ainda mais radical foi Ugo Speroni de Piacenza, que ensinava a seus seguidores uma religião puramente interna, espiritual, pois segundo ele todos os sacramentos e atos externos de adoração são idolatras. Mas, em nenhum momento pediu que se rompesse com a Igreja Romana, pois entendia que mesmo seguindo os ritos eclesiásticos o cristão poderia perseguir uma genuína comunhão interior com Deus.
            Um conceito que foi abundantemente utilizado por todos aqueles que criticavam a superestrutura eclesiástica estabelecida ao longo dos séculos era a ideia da Igreja Invisível. Ainda que tenha sido sistematizada por Agostinho, encontra vestígios ainda no segundo século (Clemente de Roma). Segundo Agostinho a verdadeira Igreja era constituída no céu composta pelos anjos e todos os eleitos predestinados à salvação. O teólogo chama essa igreja invisível de “uma comunidade invisível de amor”, bem como “o corpo de Cristo no sentido próprio”. Ainda segundo Agostinho estará excluído do rol de membros desta Igreja Invisível todos os membros ímpios da Igreja Visível (terrena). Desta maneira, a instituição visível, seja qual nome receba, não pode ser uma encarnação perfeita da Igreja Invisível de Jesus Cristo.
            Em seus dias Wycliffe vai colocar o conceito de Agostinho no centro de sua eclesiologia.[2] Em seus primeiros tratados sobre a Igreja e os sacramentos (1378-1380) ele apresenta a Igreja como sendo nada mais do que “a comunidade invisível de todos aqueles ligados na eternidade pela graça da eleição” (o praedestinatorum congregatio). Desta forma a Igreja terrestre [institucional], em contrate é composta por outra comunidade, também eterna, a dos condenados (presciti). Sendo assim, uma vez que a verdadeira igreja é constituída pelos eleitos que são conhecidos somente por Deus, não há qualquer garantia de que a autoridade exercida na Igreja pelo Papa, prelado ou sacerdote [em nossos dias apostolo, bispo, missionário, presbítero etc...] podem muito bem pertencer à comunidade dos condenados. Em contrapartida, uma pessoa que tenha sido eleita (salva), mesmo que apenas leiga, possui “ipso facto” todas as prerrogativas do ofício sacerdotal (cf. De civili dominio , vol. 1, p. 409; De ecclesia , pp. 71–2).
Assim como consequência, a obediência a qualquer autoridade eclesiástica está subordinada à sua fidelidade aos preceitos da Bíblia (De civili dominio , vol. 2, p. 243; De potestate papae [ On the Power of the Pope — ca. 1379], p. 149; De ecclesia , p. 465). De modo que a fidelidade à igreja verdadeira (invisível) pode implicar a necessidade de se rebelar contra a Igreja visível e seus membros, quando seus pedidos estão em conflito com o ensinamento de Cristo (De civili dominio , vol. 1, pp. 384, 392). Essa foi a maior contribuição que Wycliffe trouxe em relação à religião no décimo quarto século: o deslocamento de uma visão puramente institucional da igreja, concebido em termos da autoridade jurídica e canônica de sua hierarquia, pela fé em Cristo através da participação em sua palavra Bíblia.
Até aqui uma grande parcela de evangélicos estão afirmativamente dizendo amém! Mas quando Wycliffe começa a discorrer sobre as características da verdadeira igreja - viver na pobreza e anunciar a lei de Cristo – certamente encontrara a mesma resistência e condenação que sofreu nos seus dias por parte dos milhares de pequenos papas espalhados por todo o cristianismo atual. Para Wycliffe era uma aberração bíblica as construções das grandes Catedrais, bem como o acumulo de riqueza da igreja e da sua hierarquia. Esse status quo eclesiástico é o oposto daquilo que Jesus propôs em Seu Evangelho.  
Apesar de suas exposições serem corrosivas para as estruturas eclesiásticas estabelecidas o doutor de Oxford em nenhum momento afirmou que a Igreja externa (terrena) era completamente inútil. Pois, segundo ele, a proclamação da Palavra de Deus e a ministração dos sacramentos pressupõem sua existência. Mas é necessário que essa instituição terrestre seja permanentemente corrigida em seus abusos eclesiásticos.
O historiador Lewis Sergeant resume assim a relevância da vida e obra de John Wycliffe para as reformas futuras, principalmente na Inglaterra onde viveu e morreu:
Não só encarnou e vocalizou as aspirações de reforma que encontrou em Oxford nos seus primeiros dias: ele infundiu no movimento tanta energia nova e virilidade que a Reforma na Inglaterra e foi praticamente efetuada no momento da sua morte, e ali não havia nada acrescentar além das manifestações externas e políticas de sua integralidade. . . . Não foi Cranmer, nem Cromwell, nem Henrique VIII e seus dois filhos protestantes, que baniram a autoridade papal da Igreja Anglicana [Inglaterra]. Eles foram os acidentes, ou, no máximo, os instrumentos de uma vitória já realizada. Para o verdadeiro momento da vitória, e para o Reformador eficaz, devemos olhar para trás para o século XIV.
            Assim como nos dias atuais, naqueles antigos dias de Wycliffe a igreja institucional estava mergulhada até o pescoço com toda sorte de desvios doutrinários, por toda sorte de corrupção eclesiástica e exploração da fé popular. Era difícil olhar para dentro da igreja institucional dos dias de Wycliffe e ter qualquer esperança de mudança positiva. Suas lideranças e suas estruturas estavam totalmente corrompidas. Seria diferente hoje?
            Para o reformador inglês está franquia evangélica brasileira, que faz proliferar igrejas totalmente esquizofrênicas quando analisadas do ponto de vista bíblico é a prova contundente de que a igreja visível tem pouco haver com a igreja invisível.
            E mesmo as denominadas igrejas históricas, que estão sempre prontas a criticarem as demais denominações precisa olhar no espelho do Evangelho e perceber o quão distante estão do padrão proposto por Jesus de amor ao próximo e total desapego aos bens materiais (“vai vende tudo que tens, dá aos pobres e siga-me”).
            Em toda História da Igreja Cristã a institucionalização somente afastou a Igreja do padrão simples do Evangelho e a inseriu no mundo complexo do político-econômico.  Foi assim bem antes de Constantino,[3] mas certamente piorou muito depois de sua institucionalização pelo Império Romano. Mesmo a Reforma Protestante do século XVI tinha muito mais de interesses outros do que uma real volta ao modelo bíblico. E nenhuma das reformas fica mais escancarada esses outros interesses, em detrimento de se reinserir a Igreja no padrão bíblico, do que a reforma ocorrida na Inglaterra, cujos interesses de um rei devasso e egocêntrico a produziu.
            Quais os vestígios da genuína Igreja (invisível) na terra hoje? O mesmo dos dias de Wycliffe – muito pouco. Assim como Diógenes, filósofo grego saia em pleno dia pelas ruas de Atenas, com uma lanterna nas mãos, à procura de um homem honesto (dizem que ele passou no Congresso brasileiro), e não encontrava, assim também se procura dentro das instituições vestígios da igreja verdadeira, mas cada dia há menos esperança de se encontrar.
Sucinta Cronologia de Wycliffe
Wycliffe
1330 nasce em Wycliffe-on-Tees
1345 vai estudar na Universidade de Oxford
1360 Mestre da Faculdade Balliol
1365 Diretor de Nova Canterbury Hall
1367 Destituído da direção do Canterbury Hall pelo novo Arcebispo de Canterbury (Langham); Apelo ao Papa Urbano V falha.
1369 Recebe Bacharel em Divindade
1370 Primeira apresentação da sua doutrina sobre a Eucaristia
1372 Recebe Doutorado em Teologia
1372 Inicia o serviço à coroa inglesa
1374 Nomeado Reitor de Lutterworth
1374 Nomeado para viajar a Bruges para negociar com a delegação papal
1374-1376 Desenvolve a Teoria do "domínio"
1377 (fevereiro) O amotinamento encerra o julgamento em St. Paul
(maio) O papa Gregory XI emite cinco bulas contra Wycliffe
(dezembro) Wycliffe concorda em "prisão domiciliar" em Oxford
1379-1380 Publica pontos de vista sobre a Eucaristia
1381 Retirada das manifestações pública para Lutterworth
1381-1384 Trabalho intenso com ajudantes na tradução inglesa da Bíblia
1382 Blackfriars Sínodo condena os escritos de Wycliffe, seguido de purificação de seus seguidores em Oxford
1382-1384 Período prolífico de escrita em latim e inglês
1382 sofre primeiro acidente vascular cerebral
1384 Sofre o segundo derrame; Morre na véspera do Ano Novo
1415 O Concílio de Constança condena Wycliffe em 267 diferentes heresias
1428 Ao comando papal, os restos de Wycliffe são desenterrados, queimados e espalhados no rio Swift.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira
Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
me.ivanguedes@gmail.com
Outro Blog
Reflexão Bíblica
http://reflexaoipg.blogspot.com.br/

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Referências Bibliográficas
AMARAL, Epaminondas M. do. O Protestantismo e a Reforma. São Paulo: Livraria Saleluz, 1962. (Coleção Otoniel Mota I).
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio de Janeiro: Record, 1997.
AZEVEDO, Leandro Villela de. As Obras Inglesas de John Wycliffe inseridas no contexto religioso de sua época: Da Suma Teológica de Aquino ao Concilio de Constança, Dos espirituais franciscanos a Guilherme de Ockham. (Tese Doutorado). São Paulo: Universidade de São Paulo, 2010. [Orientador: Prof. Dr. Nachman Falbel].
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Europeia, 1971.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
DELUMEAU, Jean. La Reforma. Barcelona: Editorial Labor S/A, 1967.
GONZALES, Justo L. Uma história do pensamento cristão – de Agostinho às vésperas da Reforma. Tradução Paulo Arantes, Vanuza Helena Freire de Mattos. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
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[1] Wycliffe, também encontra-se as grafias "Wycliff" e "Wyclif". O nome “Wycliffe”, é a indicação de um local, sendo escrito John de Wycliffe.
[2] Em Agostinho tal divisão é metafórica, mas Wycliffe tornou literal. 
[3] Para Wycliffe Constantino foi instrumento de Satanás para envenenar a Igreja.