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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

REFORMA RELIGIOSA: Por que Ocorreu no Século XVI

INTRODUÇÃO[1]

            Quando o filósofo ateu Friedrich Nietzsche (1814 – 1900) “decretou” a morte de Deus e relegou a religião a um lugar de ostracismo na “nova sociedade” que estava sendo “construída”, ele jamais poderia imaginar, nem em seus piores pesadelos que em pleno século XXI a religião estaria tão presente e impregnada na Sociedade Moderna e Pós-Moderna.
            Na verdade, o secularismo é quem está numa posição cada vez mais defensiva, enquanto a religião reconquista seus espaços e sua relevância na convivência social, onde a redefinição de mundo esta inoculado pelo espirito religioso. As empresas que haviam extirpado todo e qualquer vestígio de religiosidade em suas entranhas, agora em pleno século XXI convidam teólogos e cientistas da religião para fazerem palestras a seus funcionários e os estimulam a desenvolverem suas religiosidades, pois se constatou que a dimensão religiosa é fundamental para uma vida saudável, equilibrada e o que mais interessa as empresas, produtivas.
            Portanto, tratar da Reforma Religiosa ocorrida no distante século XVI, exatamente 496 anos, e resgatar suas motivações e propostas, deixou de ser um exercício inócuo de historiadores e cientistas religiosos, para se tornar uma reflexão relevante e propositiva, nestes dias em que as igrejas desafiam abertamente o neopaganismo das sociedades consumistas e quando o cristianismo amplia diariamente suas fronteiras em todo o globo terrestre. As palavras de Fernandez-Harmesto são oportunas aqui:
Há uma geração, a história do cristianismo poderia ser encarada como algo que só interessava aos colecionadores de antiguidades; agora, integra necessariamente a agenda de qualquer pessoa que queira se preparar para o futuro. (1997, p. 09).
            Ainda que por muitos séculos se olhasse para esta Reforma Religiosa apenas como um divisor de águas entre o cristianismo católico romano e o cristianismo denominado reformado, a tendência atual é perceber neste movimento religioso cristão elementos que acabaram por permear as mais variadas tradições religiosas espalhadas pelo mundo inteiro. Portanto, tratar sobre um dos mais importante e fundamental acontecimento do Cristianismo Ocidental, a chamada Reforma Religiosa e/ou Protestante do Séc. XVI é uma tarefa hercúlea.
            Evidentemente que não podemos tratar deste evento tão somente como um acontecimento que foi produzido e repercutiu apenas no seio da Igreja Cristã. Este movimento religioso iniciado no século XVI tornou-se uma revolução de proporções inimagináveis extrapolando totalmente a esfera religiosa eclesiástica interagindo e influenciando todas as esferas da sociedade humana: religiosas, sócias, geográficas, econômicas e políticas e ultrapassando as barreiras do tempo ainda repercute de forma poderosa nestes primeiros anos do século XXI.
            O nosso propósito, limitado pelo espaço deste artigo, é procurar vermos o contexto desta Reforma Religiosa Protestante, bem como destacar, restritamente, alguns de seus eminentes personagens e suas ideias básicas e sua herança para nós brasileiros.

            A pergunta que dá título ao artigo é um bom ponto de partida para compreendermos este imenso movimento religioso – Por que aconteceu a Reforma no século XVI? – Por que não ocorreu antes? Houve movimentos fortes pelas mesmas reformas como as propostas pelos Valdenses (séc. XII); as propostas reformistas de John Wycliffe (séc. XIV) e a figura pujante de um John Huss e Savonarola (sec. XV), mas todos estes e centenas de outros foram completamente dizimados e/ou calados pela Igreja Católica Romana com seus braços políticos e econômicos dos Imperadores e Reis. O que torna ainda mais relevante a questão proposta: Por que deu certo com Matinho Lutero, Calvino e seus companheiros? O que estava acontecendo nos dias destes reformadores do século XVI, para que pudessem levara adiante suas propostas? É o que pretendo demonstrar, ainda que de forma diminuta pela brevidade do espaço aqui proposto.
                                                                                                                                                                               
 “Mas quando chegou o tempo certo, o tempo determinado...” (Gálatas 4:4a – Bíblia Viva)

Nos dias de Lutero e seus companheiros reformistas, “um mundo esta morrendo e outro procura nascer; e, como é de regra no mundo da natureza, a morte e o nascimento fazem-se sempre acompanhar de dor”. (Daniel-Rops, 1996, p. 56-57). O século XVI gesta e dá à luz um Novo Mundo, uma Nova Realidade!
Ao redor de 1500, os fundamentos da velha sociedade medieval estavam ruindo. Uma nova sociedade emergindo com dimensão geográfica mais abrangente e transformações nos padrões políticos, econômicos, intelectuais e religiosos, estava surgindo. [como acontece hoje c/ Internet na virada do século XXI]

Mudanças Geográficas
O conhecimento medieval sofre mudanças a partir de 1492, com a descoberta do Novo Mundo [“Descoberta da América e depois do Brasil e até 1600 com o expansionismo europeu.”]. As rotas abertas até a Índia vai impulsionar o comércio estagnado europeu de forma exponencial, acelerando o processo de desenvolvimento da sua incipiente industrialização.

Mudanças Políticas 
O conceito medieval de estado universal deu lugar ao novo conceito de nação-estado; com o declínio da Idade Média, os Estados passaram a se organizar em bases nacionais; eram nações-estados fortes, com poder central, servida por uma força militar e civil; este crescente e irreversível espírito nacionalista vai se opondo e resistindo ao domínio de um governo religioso universal; as nações estão completamente empenhadas em sua independência e soberania. Este novo peso na balança do poder, orientadora das relações internacionais, teve papel importante nas questões religiosas do século XVI e de princípios do XVII.

Mudanças Econômicas
Antes da Reforma, a economia dos países da Europa era baseada na agricultura. Com a expansão européia para o Novo Mundo, o ressurgimento de novas cidades, a abertura de novos mercados e a descoberta de novas fontes de matéria-prima, teve início uma nova era comercial, liderada pela ascendente classe média mercantil, comumente denominada de burgueses por causa de seu acumulo de bens e capitais e não mais pela nobreza feudal que estava falida. Este quadro vai se alterar apenas com advento da Revolução Industrial em meados do século XVIII. Nesta nova economia o dinheiro passou a ser fundamental e o conglomerado bancário passou a ser o definidor das politicas nas públicas. Portanto, não era mais do interesse desta classe média mercantil emergente, o envio de divisas a uma Igreja Universal sob a liderança do Papa em Roma. No Norte da Europa, esta reação tem papel importante na Reforma.

Mudanças Sociais
Na sociedade medieval havia uma organização horizontal, onde se morria na classe social em que se nascia. Quem era filho de servo, teria pouca chance de mudar a sua condição, a não ser que fosse servir na Igreja. Com o expansionismo europeu, por volta de 1500, as pessoas comuns começam ascenderem, por força do comércio, a escala social. A servidão vai desaparecendo, dando lugar a uma nova classe social formada por proprietários livres, pela pequena nobreza da cidade, e pela classe mercantil. É essa nova classe média emergente que apoio e dão sustentação as mudanças introduzidas pela Reforma no noroeste da Europa.

Mudanças Intelectuais
O Renascimento e/ou Renascença provocou uma transformação intelectual na Europa, que favoreceu e impulsionou o grande movimento reformista protestante. O interesse pela volta às origens levou os humanistas cristãos ao estudo da Bíblia em suas línguas originais, o hebraico e o grego. E quanto mais se voltava para os originais mais se escancarava as diferenças entre a Igreja Romana atuante e o padrão de Igreja estabelecida no Novo Testamento. Outro aspecto importante foi a ênfase renascentista no indivíduo que foi inoculado no ensino protestante de que a salvação era uma questão estritamente pessoal, a ser resolvida entre Deus e o indivíduo, sem qualquer intermediação ou intervenção do sacerdote (igreja). Ainda é preciso destacar o espírito crítico do Renascentismo que foi amplamente utilizado pelos reformadores para justificar a crítica feita contra a organização eclesiástica, à hierarquia, aos sacramentos, por comparação com as Escrituras. Além de justificar o estudo da Bíblia no "original" como documento básico da fé cristã.

Mudanças Religiosas
No início do século XVI, a Igreja atravessava uma de suas piores crises, principalmente por causa da corrupção, da falta de instrução e da libertinagem em que o clero estava mergulhado. O clero era formado, em sua maioria, por indivíduos ricos (que compravam cargos, como os de bispo ou arcebispo) ou por padres quase sem nenhuma instrução, que abraçavam o ofício apenas para escapar dos impostos cobrados da população, fugir da guerra ou da miséria.
O alto clero, a começar pelo Papa, explorava a crendice popular praticando a simonia, ou seja, o comércio de artigos religiosos, equiparação de bem espiritual a valores materiais, tráfico de bens espirituais, obtenção ou cessão de benefício ou prebendas eclesiásticas por meio de presentes, suborno ou munificência. Entre os produtos comercializados encontravam-se tíbias do jumento montado por Jesus ao entrar em Jerusalém, pedaços do manto da Virgem Maria, frascos contendo ar da gruta de Belém e uma série de outras relíquias totalmente artificiais e descabidas. É preciso considerar, que grande parte desse clero corrupto levava uma vida de luxo e ostentação, desconhecia os fundamentos da doutrina cristã e não tinha instrução nem preparo suficientes para orientar os fiéis. Já no século XIV, na Inglaterra, John Wycliffe, citado anteriormente, defendia ideias que seriam reconhecidas e endossas plenamente pelo movimento reformista tais como: a posse do mundo por Deus, a secularização dos bens eclesiásticos, o fortalecimento do poder temporal do rei como vigário de Cristo e a negação da presença corpórea de Cristo na eucaristia. Assim, no início do século XVI, a uniformidade religiosa medieval vai dar lugar à diversificação religiosa, resultando na formação de igrejas protestantes nacionais (luteranas na Alemanha, reformadas [calvinistas] na Suíça, anglicana na Inglaterra).
Deste modo, entre a descoberta da América, por Colombo em 1492, e a fixação das 95 teses na porta da igreja de Wittenberg, em 1517, por Lutero, muitas transformações foram ocorrendo, mudando a sociedade medieval estática, para uma sociedade moderna com padrões dinâmicos.

O que quer dizer: “Reforma Protestante”
O termo foi consagrado pelo tempo, porque os Reformadores procuravam voltar à pureza original do Cristianismo do N.T. Os reformadores estavam interessados no desenvolvimento de uma teologia de acordo com o Novo Testamento (Bíblia), crendo que isto seria possível a partir do momento que a Escritura se tornasse a autoridade máxima e única da Igreja.

As Primeiras Igrejas Protestantes
Ainda que não fosse o propósito original e nem primário das lideranças reformistas, uma consequência inevitável deste movimento religioso reformador foi uma crescente e ininterrupta proliferação de igrejas autônomas, visto que, apesar de esforços dos maiores expoentes do movimento reformista,  não se encontrou um fator unificador. Ainda que seja correta a observação feita Fernandez-Armesto de que o movimento reformista do século XVI:
... não rachou uma Igreja monolítica; não introduziu heresias inéditas; não gerou as primeiras igrejas nacionais. Em vez de ser um novo ponto de partida na história da Igreja, derivou de tradições vindas de longa data, uma forma de diversidade já antiga. A Igreja pós-reforma ficou mais diversificada do que antes, mas essa diferença foi em grau, em vez de ser em espécie. (1997, p. 21).

o fato é que esta Reforma Religiosa explicitou e multiplicou esta tendência diversionista da igreja cristã desde seus primórdios, como tão bem descreve Dreher ao afirmar que a Igreja “fragmentou-se em Igrejas Territoriais, que em seu interior muitas vezes souberam manifestar pouco da liberdade evangélica” (1996, p. 13), de maneira que o surgimento desta pluralidade protestante continuou ao longo dos séculos fomentando outros movimentos de rupturas até os dias atuais. De maneira que o termo “protestante” como bem expressa o Drº João Baptista B. Pereira, tornou-se “o nome genérico e historicamente enraizado, adotado por alguns autores para dar rótulo a um arco de denominações..." (2005. p. 105). Deste modo, podemos dizer de forma bastante simplista que as primeiras Igrejas Protestantes, nacionais ou locais, surgiram ao derredor de um personagem catalizador ou carismático reformista.

Lutero e a Igreja Luterana
Martinho Lutero (1483/1546), monge agostiniano, vivia na cidade de Wittenberg, na Alemanha, cujo ato de afixar suas 95 Teses contra os desatinos teológicos da Igreja Romana, acentuadamente a questão da venda de indulgências, na porta da Igreja de Wittenberg, a 31 de outubro de 1517 e que se tornou o marco fundante desta Reforma Religiosa, jamais desejou formar outra igreja e muito menos que levasse seu nome. Todavia, com o passar dos anos Lutero acaba por desenvolver um programa teológico distinto da Igreja Romana e que após sua morte acabou por transformar-se numa denominação chamada Igreja Luterana. Inicialmente na Alemanha expande posteriormente nos chamados Países Escandinavos, também se faz presente no Brasil, principalmente na Região Sul, onde temos uma forte colônia Alemã e européia em geral.


As Doutrinas Centrais Luteranas
Em 1539 em Augsburgo, foi apresentada a doutrina de Lutero, redigida por Felipe Melanchton, seu principal colaborador. Baseava-se nos seguintes princípios: a única fonte de fé é a Bíblia, livremente interpretada pelos cristãos; o único meio de salvação é a fé em Cristo  e os sacramentos e as boas obras não são válidos como meio de se obter a salvação; a Igreja é a simples reunião dos crentes, que têm todos os mesmos direitos; o culto consiste na pregação feita pelos pastores ou "ministros de Deus".
Além disso, Lutero aboliu o celibato dos padres, o culto de Nossa Senhora e dos Santos, o uso do latim, acabou com os sacramentos, a exceção do batismo e da comunhão, que, entretanto sofreram modificações; negou a autoridade do papa e colocou a Igreja sob o poder do Estado.

Calvino e as Igrejas Calvinistas
João Calvino (1509-1564), teólogo francês é considerado pelas igrejas protestantes, da tradição reformada, como um dos principais expoentes desta Reforma Religiosa. Recebeu instrução para o sacerdócio e estudou Direito. Em 1536, publicou as chamadas “Institutas da Religião Cristã”, obra que o colocou na vanguarda do protestantismo. Neste mesmo ano, visitou Genebra, chamado por Guilherme Farel, para participar do movimento reformista da cidade, do qual foram ambos expulsos.
Em 1541, voltou a Genebra para, novamente, dirigir o movimento reformista. Redigiu o rascunho das novas Ordens — que o Governo modificaria e adaptaria como Constituição — regulamentando, simultaneamente, assuntos religiosos e seculares. Propôs a melhoria das condições de vida dos habitantes através da construção de hospitais e instalação de novas indústrias. É o pai da Escola Pública e da obrigatoriedade dos pais em enviar seus filhos à Escola.
Através da Academia (Universidade) e Seminário que ele fundou em Genebra, inúmeros protestantes vieram de diversos países, em sua grande maioria, exilados de países ainda debaixo da religião romana, que depois retornavam aos seus países inoculados dos princípios teológicos e sistema de Governo, implantados por Calvino em Genebra. Um destes foi John Knox que retornando à Escócia implanta os princípios teológicos e eclesiásticos de Calvino, dando origem dando origem à Igreja Presbiteriana, que se faz presente em todo o território brasileiro há 152 anos – Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), que por sua vez se se subdividiu em diversas outras denominações: Igreja Presbiteriana Independente (IPI); Igreja Presbiteriana Conservadora (IPC); Igreja Presbiteriana Renovada (IPR); Igreja Presbiteriana Unida (IPU).

As Doutrinas Centrais Calvinistas
     Segundo Calvino, a natureza da teologia e de todas as instituições humanas está especificada na Bíblia. Ele procurou aproximar-se da palavra de Deus e exortou a Igreja a recuperar sua pureza original. Dentre seus dogmas incluem-se a soberania absoluta de Deus e a doutrina da justificação por meio da fé. Para Calvino, o ser humano perdeu seu livre arbítrio quando rompeu com Deus ainda no Éden; ele elaborou também uma doutrina da predestinação, onde Deus escolhe de forma independente e sem qualquer mérito aqueles que haverão de ser salvos e condena aqueles que permaneceram em seu estado de alienação dele. Para ele somente a Bíblia se constitui na única norma para uma vida genuinamente cristã, a fé é manifestada somente por meio da Bíblia.

Zwinglio e a Igreja Batista       
O movimento reformista na Suíça teve além de Calvino de origem francesa, outro importante reformador o pastor suíço Ulrico Zwinglio, [1484-1531], ordenado sacerdote romano em 1506. Há poucas diferenças entre o pensamento de Zuinglio e os demais Reformadores. A mais significativa com certeza é em relação ao Batismo, que segundo ele deveria ser unicamente por “imersão”, ou seja, “imergir completamente a pessoa na água”. Daí o nome da denominação de Batista.
            Algumas doutrinas peculiares além do batismo: quanto a Santa Ceia: para ele a Ceia é apenas um Memorial; Sistema de Governo Eclesiástico: Congregacional; enquanto Calvino é representativo (presbíteros) e Lutero é Episcopal (bispo).

A Herança da Reforma Religiosa no Brasil
            O primeiro culto protestante celebrado no Brasil se realizou no dia 10 de março de 1557, no Rio de Janeiro. Foi dirigido pelo pastor Pierre Richier, um dos três primeiros pastores a chegarem ao nosso continente, originados da França, perseguidos na Europa. Mais tarde em 1624, os crentes da frota holandesa, na Bahia iniciaram os cultos e durante sua ocupação mantiveram cultos e construíram templos no Recife. Os primeiros cultos permitidos legalmente no Brasil foram realizados pela Igreja Anglicana, no Rio de Janeiro, em 1810, para os membros da colônia britânica, que se encontravam no país, dentro do Tratado de Livre Comércio assinado por D. João VI, quando de sua permanência no país.
            No dia 19 de agosto de 1835, chegava ao Rio de Janeiro o Rev. Fontain E. Pits, que viera sondar a possibilidade de estabelecer uma igreja metodista no Brasil. Contudo essa tarefa foi reservada ao Rev. R. Justin Spauding, que deu início à organização de uma congregação, a princípio com quatro membros da colônia americana no Rio de Janeiro.
            Com um culto realizado a 27 de julho de 1845 a Igreja Luterana dava início às suas atividades no Brasil. Em 19 de agosto de 1855, em Petrópolis – RJ, o Sr. Robert Kalley fundou a primeira Escola Dominical, dando assim origem a igreja Congregacional Fluminense, de fato a primeira protestante tendo membros brasileiros. No dia 12 de janeiro de 1862, no Rio de Janeiro, o Reverendo Ashbel Green Simonton, fundou a Igreja Presbiteriana do Brasil. No ano de 1881, chegaram ao Brasil, os primeiros missionários batistas, William Bagby, e Z.C. Taylor, que no ano seguinte, ou seja, em 15 de outubro de 1882, fundaram a Igreja Batista em SalvadorBA. Com um número de dezoito irmãos provenientes da Igreja Batista de BelémPA, com liderança de Gunnar Vingren e Daniel Berg, no dia 18 de junho de 1911, na cidade de Belém do Pará, foi iniciada a primeira Igreja Assembléia de Deus no Brasil.



Utilização livre desde que citando a fonte

Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.  
Universidade Presbiteriana Mackenzie



Outro Blog
Reflexão Bíblica



Referências Bibliográficas
AMARAL, Epaminondas M. do. O Protestantismo e a Reforma. São Paulo: Livraria Saleluz, 1962. (Coleção Otoniel Mota I).
ARMESTO-FERNÁNDES, Felipe e WILSON, Derek. Reforma: o cristianismo e o mundo 1500-2000. Trad. Celina Cavalcante Falck. Rio de Janeiro: Record, 1997.
BOISSET, J. História do protestantismo. São Paulo: Difusão Europeia, 1971.
DANIEL-ROPS. A igreja da renascença e da reforma I: a reforma protestante. São Paulo: Ed. Quadrante, 1996, p. 435.
DELUMEAU, Jean. La Reforma. Barcelona: Editorial Labor S/A, 1967.
DREHER, MARTIN N. A crise e a renovação da igreja no período da Reforma. São Leopoldo: Sinodal, 1996. (Coleção História da Igreja, v.3).
FISHER, Jorge P. Historia de la reforma Barcelona: Ed. CLIE, 1984.
JANNI, Ugo. Apologia do Protestantismo. São Paulo: Athena Editora, 1939.
LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma história do cristianismo - volume II: 1500 a 1975 a.D. São Paulo: Editora Hagnos, 2006.
LINDSAY, Tomas M. Historia de la Reforma, v.2, ed. La Aurora e Casa unida de Publicaciones, 1959.
MARTINA, Giacomo. História da Igreja de Lutero a nossos dias I - O período da reforma. São Paulo: Edições Loyola, 1995.
PEREIRA, João Baptista Borge. "Identidade protestante no Brasil ontem e hoje". In BIANCO. Gloecir: NICOLINI. Marcos (orgs.). Religare: identidade, sociedade e

espiritualidade. São Paulo: Ali Print Editora. 2005.









[1] Este material foi preparado originalmente para palestra em Colégios da rede pública na zona leste de São Paulo e posteriormente para alunos dos cursos de teologia em Faculdades de Teologia na cidade de Arujá e São Paulo.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

VOCABULÁRIO DA REFORMA RELIGIOSA [A]


Cabe aqui uma palavra inicial pelo fato de que diante de um movimento tão amplo e de repercussão que transcende o tempo e espaço, é oportuno tomarmos conhecimento de termos que são fundamentais para se compreender o que estava ocorrendo naquela época e que hoje nem sempre é compreendida da mesma forma, pois a linguagem é dinâmica e evolutiva em seu desenvolvimento. Meu singelo esforço visa apenas destacar os termos que estão mais conectados com o período histórico em que ocorreu a Reforma Religiosa, alavancada por Lutero, Calvino e seus contemporâneos reformadores. Lembrando ainda o fato de este evento é a ruptura entre a Idade Média e a Idade Moderna de maneira que muitos termos tem seu sentido melhor compreendido à luz deste contexto.












Abelardo, Pedro (1079-1142). Frances de origem foi um dos mais celebres entre os teólogos e filósofos da Idade Média. Sua obra notável “Sim e Não” produziu uma influência enorme sobre os jovens estudantes, onde Abelardo enumera cento e cinquenta questões que expõe opiniões contraditórias dos chamados Pais da Igreja sobre temas importantes da teologia e filosofia e nesta obra percebe-se uma primazia da razão sobre a fé, que veio a moldar uma nova forma de se fazer teologia (esta obra tornou-se significativa para o desenvolvimento do método escolástico). Sua forma inovadora de pensar teológico produziu um confronto com o todo poderoso Bernardo de Clairvaux (1090-1158) que o acusou de herege e pelo qual veio a ser condenado no concílio de Sens. Na filosofia sua posição era o conceitualismo (chamado realismo moderado e em certa medida antecipa o conceitualismo de São Tomás de Aquino) que se afastava do pensamento plantonista e se aproximava do pensamento aristotélico. Impedido de lecionar na Universidade de Notre Dame (hoje Universidade de Paris) formou seus próprios centros universitários ao redor de Paris (em Melun e posteriormente Corbeil). Infelizmente ele ficou negativamente marcado pelo seu envolvimento amoroso com uma jovem tutelada chamada Heloisa. Naqueles dias o Docente para poder lecionar na França tinha que fazer um voto de castidade. Os protestantes utilizaram Abelardo seus escritos como um símbolo de tudo o que havia de errado com a teologia medieval, principalmente sua ênfase de que a autoridade da Bíblia era maior do que a tradição da igreja.
Absolutismo. Os historiadores atualmente se referem ao período compreendido entre o século XVI e o século XVIII. O termo "absolutismo" ou “legibus Absolutus” foi cunhado na França na década de 1790 para descrever o princípio, ou o exercício, do poder total e irrestrito de governo, onde o sistema político permite que o governante age livremente, acima de quaisquer leis ou acordos estabelecidos. Esse tipo de governança absoluta termina com a Revolução Francesa (Révolution Française, 1789-1799) e a partir de 1840 essa tradição política desapareceu na Europa central. É possível distinguir períodos ou fases do absolutismo: o marco inicial são os governos de Filipe II da Espanha e Ferdinando II da Áustria; uma segunda fase, barroco, tem como marco Luís XIV da França; em um terceiro momento há o que se denomina de absolutismo esclarecido ou despotismo esclarecido, tendo nas figuras de Maria Teresa e José II da Áustria, Frederico II da Prússia e Catarina II da Rússia seus maiores expoentes. A interpretação quanto ao valor desse período de governantes absolutista também é divergente: alemães e italianos compreendem que o absolutismo foi importante para o desenvolvimento e formação do Estado moderno; os ingleses e franceses são resistentes em aceitar esse tipo de governo como sendo positivo para os parlamentos modernos. Na moderna historiografia o absolutismo está restrito ao período do Renascimento e a Reforma Religiosa/Protestante e o Iluminismo e a Revolução. No contexto da Europa é possível perceber as diversas áreas em que os governos absolutistas imprimiram maior influência: na economia, com o mercantilismo; no campo da cultura, mais acentuadamente no segundo período, na arquitetura, nas artes e na música; na militarização de seus exércitos. A partir do século XVI até XVIII há uma estreita relação entre o absolutismo e a história das igrejas cristãs da Europa. Com base na teoria do direito divino dos reis eles passaram a exigir completa submissão das igrejas cristãs em seus territórios. Na França adotou-se o conceito do Galicanismo, em que o rei e não o Papa deveria exercer o direito supremo sobre o catolicismo francês (no Brasil esse conceito foi amplamente defendido por Antônio Feijó); na Inglaterra Enrique VIII implanta o Anglicanismo o rei é o chefe da igreja incluindo católicos e protestantes. A reação surge através dos movimentos como o puritanismo na Inglaterra e jansenismo na França (ganhou força no Brasil com as reformas propostas por Pombal). No luteranismo alemão houve divisão entre os que apoiavam o absolutismo e os que o combatiam. Essas lutas pela liberdade religiosa vieram a se tornar o fundamento das futuras revoluções que defendiam a ampla liberdade para os direitos e liberdades pessoais (bandeira das denominações protestantes), tal como vistas na Revolução Francesa e Americana. Todavia, em países como Alemanha e Suécia a igreja permaneceu como uma instituição estatal, onde seus clérigos recebem salário do governo.
Adiáfora (do grego ἀδιάφορα “coisas indiferente”) extraído do conceito filosófico estoico que se referia originalmente às questões que estariam fora da lei moral, ou seja, ações que a moral não exige e nem proíbe. Conforme registro dos evangelistas Jesus é retratado como desafiantes vários costumes religiosos. Por exemplo, ele considerou as leis relacionadas ao sábado como não fundamentais para a salvação (Mateus 12.1-14; Marcos 2.23-28, Lucas 6.1-11). O apóstolo Paulo adotou a mesma atitude em relação a vários assuntos conforme registrado em suas correspondências com as comunidades cristãs: ele trata as tradições relativas à alimentação (Romanos 14.6; 1 Coríntios 8.8), observâncias de dias especiais (Romanos 14.5-6; Colossenses 2.16), e circuncisão (1 Coríntios 7.19; Gálatas 5.6) como como sendo adiáforas. Idéias Adiaforistas permeou todo o desenvolvimento da igreja primitiva. O primeiro teólogo cristão a empregar o termo foi Clemente de Alexandria em  sua obra "Stromata". Numerosas discussões mais exigentes adiaphora também ocorreu durante a Reforma. Os reformadores do século 16 incluíram as questões de fé e práticas que eles consideravam como sendo toleráveis, na medida em que não eram contrárias aos princípios bíblicos (padrão de fé e prática). Evidentemente que nunca houve um consenso único entre os diversos ramos do protestantismo, pois cada um possuía suas próprias do que deveria ser considerado uma “adiáfora” e certamente tornou-se forte empecilho para uma unificação do protestantismo. Claro, vários teólogos tinham concepções diferentes do que era indiferente. A controvérsia adiaforista eclodiu ainda nos primórdios do luteranismo alemão no que ficou conhecido como Leipzig Intermediário (1548) quando Felipe Melancton (teólogo que sistematizou o luteranismo) e seus seguidores haviam se comprometido com as autoridades civis católicos romanos e listou como sendo adiáforas (indiferentes) as doutrinas católicas da confirmação, a Missa (sem transubstanciação), extrema-unção, a confissão auricular, a veneração dos santos e outros rituais. A reação de outros teólogos luteranos foi imediata e contundente e liderada por Mathias Flacius e seus seguidores em Magdeburg, autodenominados de “verdadeiro (gneiso) luteranismo” rejeitaram este acordo, pois entendiam que tais concessões era um simples sincretismo e descaracterizava totalmente a Reforma Religiosa empreendida a partir de Lutero. A controvérsia continuou até a adoção da Fórmula de Concórdia (1577) e homologada pelos estados alemães em 1580, onde os extremos tanto romanos quanto dos reformistas suíços (calvinistas e batistas) foram rejeitados. O risco é minimizar todas as questões adiaforistas sem examinar cuidadosamente seu valor intrínseco. As questões litúrgicas quando não submetidas aos critérios bíblicos podem conduzir a um antropocentrismo de maneira que o adorador se torna o centro do culto e não Deus o adorado.
Anabatistas (a preposição “ana” significa "novo", assim anabatistas eram aqueles que foram "batizado de novo") e se constitui em uma das tradições que emergiram da Reforma Protestante e/ou Religiosa no século dezesseis. Foram denominados também de Radicais pois desejavam levar ao extremo a distinção em relação ao catolicismo romano. Eles são os “primos pobres” dos movimentos reformistas, uma vez que não foram apadrinhados por poderes políticos ou econômicos, atraindo principalmente os desvalidos periféricos dos demais movimentos reformistas. Como os demais movimentos reformistas entre eles havia toda sorte de ideias e conceitos religiosos: alguns eram panteístas, alguns extremamente místicos, alguns antitrinitários, alguns ensinavam conceitos milenistas extremos, todavia, uma maioria manteve uma teologia bíblica coerente, e zelavam por uma vida cristã espiritual e dedicada a Cristo. Eles receberam a alcunha de “anabatistas” porque não reconheciam como valido o batismo infantil praticado pela Igreja Romana, bem como mantida pelos principais ramos protestantes (ex. luteranos, calvinistas) e exigiam de seus membros que se batizassem novamente. Segundo seus ensinos o verdadeiro batismo exigia uma confissão pública de pecado e fé, de maneira que só poderia ser possível com o exercício adulto do livre arbítrio. Eram radicais também na questão da separação total da Igreja e do Estado e também ensinavam que a igreja representa a comunidade dos salvos. Surgiram na gênese dos movimentos reformistas em Zurique, Suíça (1522), mas rapidamente se espalhou para a região a Moravia e por toda a Alemanha. Por seus aspectos radicais os anabatistas foram perseguidos na Europa, tanto por católicos romanos e por outros grupos protestantes, de maneira que a maioria dos líderes anabatistas foram executados até o final do 16 º século d.C. Mas no norte da Alemanha e dos Países Baixos, um número significativo de anabatistas se reuniram sob a liderança de Menno Simons e sobreviveram à perseguição. Os seguidores de Menno acabaria por formar a tradição Menonita e tornou-se uma tradição anabatista duradoura (outras são: Huteritas, Os Irmãos e os Amish). Os menonitas continuaram a valorizar os ensinamentos de Menno, que incluem pensamentos sobre o pacifismo, espiritualidade e ideias sociais. Anabatistas, através da tradição Menonita, são conhecidos por sua separação do mundo (incluindo a recusa do serviço militar), o pacifismo, o discipulado radical, e simplicidade de vida.
Anglicana, Igreja. É a Igreja oficial da Inglaterra (anglo = inglês) que foi estabelecida pelo rei Henrique VIII em (1534) através do “Ato de Supremacia” e diferentemente de outros lugares onde a ruptura com a Igreja Católica Romana ocorreu primariamente por questões teológicas, na Inglaterra as razões serão eminentemente politicas. Henrique VIII nunca se distanciou das doutrinas católicas romanas, pelo qual ele havia recebido do próprio Papa Leão X o título de “Defensor da Fé” por seu escrito “Os Sete Sacramentos da Doutrina Ortodoxa” em resposta ao escrito de Lutero “O Cativeiro da Babilônia”. Mas as razões nacionalistas e politicas acabaram por colocar o rei e a igreja romana em oposição. Henrique VIII tinha uma verdadeira obsessão em ter um herdeiro masculino para o trono mantendo a dinástica Tudors, o que sua primeira esposa Catarina de Aragão não conseguiu lhe proporcionar. Assim, o rei resolve solicitar o divórcio junto à Igreja o que lhe é negado pelo Papa Clemente VII; depois de reiterada solicitação Henrique VIII resolve romper com a Igreja Romana e estabelecer uma Igreja da Inglaterra, subordinada ao trono inglês. O simples desejo do rei em se casar novamente não seria suficiente para uma decisão tão traumática como esta, aliados do desejo dinástico de Henrique VIII foi o crescente espírito nacionalista dos ingleses e o caudaloso rio humanista que a mais de um século fluía suas águas na Inglaterra representada na figura de John Wiclef e seus discípulos que receberam a alcunha por parte dos católicos romanos de lolardos (lollards) significando “semeadores de joio” conforme o termo latim “lolium”. A Igreja Anglicana optou com Elisabeth I, resgatando ideal de seu pai Henrique VIII, por uma terceira via reformista: adotou alguns princípios teológicos reformados (luteranismo e calvinismo), mas manteve quase que intocada a liturgia romana, suas vestimentas e estrutura episcopal de governo eclesiástico. Este meio termo desgostou tanto os radicais católicos quanto os reformistas. Em decorrência disso diversos grupos religiosos separatistas surgiram na Inglaterra entre eles os presbiterianos, congregacionais, metodistas e batistas que tem suas denominações estabelecidas no Brasil, via trabalho missionário americano realizado no final do século XIX. Além do fato que a Igreja Anglicana é a primeira a se estabelecer no Brasil e a primeira a construir um templo não católico no país.
Ato de Supremacia (1534). Este foi o ato legal que estabeleceu o rei da Inglaterra (Henrique VIII) como "o único chefe supremo da Igreja na Inglaterra (Anglicana)”. Em seu afã em se divorciar da primeira esposa e casar-se novamente Henrique VIII acaba rompendo com o Papa (Clemente VII) e a Igreja Romana que se constituía em empecilho aos seus propósitos e estabelece uma Igreja da Inglaterra que estaria debaixo da autoridade do rei inglês e não mais do Papa romano, de maneira que esta nova ruptura dentro do cristianismo europeu ocidental é chamada por historiadores como a “Segunda Reforma”. Após sua morte, durante o curto período da regência de sua filha Maria Tudor este Ato foi suspenso (1555) e o catolicismo papal foi restaurado, mas com sua morte precoce e a ascensão de Elizabeth I ao trono o Ato de Supremacia foi restaurado (1559) e ela politicamente amenizou o titulo de “Chefe Supremo” para “Governador Supremo” que vigora até hoje. Na Igreja da Inglaterra e/ou Anglicana o rei tem a autoridade temporal da igreja e nomeia seus dirigentes (bispos, padres) e eles são sustentados pelo Estado.

Ato de Uniformidade (1549, 1552, 1559, 1662) Em decorrência direta da ruptura com o catolicismo a Igreja da Inglaterra teve que definir seus princípios de fé e liturgia o que não era tão simples, pois muitos desejavam manter a doutrina e liturgia romana e outros desejavam uma ruptura total com o romanismo, como ocorria nos países predominantemente reformados (como a Suíça de Zwinglio e Calvino). Os reis através do Parlamento irão impor sucessivas normas litúrgicas à Igreja Anglicana, conforme suas concepções e/ou influências católicas ou reformadas: o primeiro Ato foi promulgado em 1549, no reinado de Eduardo VI, sucessor de Henrique VIII, com influência reformada; o segundo foi promulgado em 1552 , no reinado de Maria Tudor que retorna aos princípios católicos romanos; o terceiro em 1559 , após a ascensão de Elizabeth I que restaura a edição de 1552 e acrescenta algumas formas primitivas de culto e o diferencial é que sofre uma maior influência do calvinismo do que do luteranismo; o quarto Ato efetuado em 1662, após a restauração da monarquia inglesa com Charles II, resgata os princípios originais de 1549; em 1706 na união dos parlamentos da Inglaterra e Escócia (calvinista) o Ato de Uniformidade é bastante modificado e atualmente pouco resta dos Atos originários mediante o processo contínuo de remoção de discriminações religiosas e sociais.





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Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião
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Historiologia Protestante
Reflexão Bíblica


domingo, 27 de outubro de 2013

CRONOLOGIA COMENTADA DA REFORMA RELIGIOSA DO SÉCULO XVI (A partir do nascimento de Martinho Lutero)


1483 - Lutero (1483-1546) nasceu no dia 10 novembro, na cidade de Eisleben (que recebeu o nome de Lutherstadt Eisleben em homenagem ao seu mais ilustre cidadão) na região da Saxônia (Alemanha). Ele recebe o nome de Martinho em homenagem a Martin de Tours, cujo festival ocorria no dia 11 de novembro, data de seu batismo na Igreja de São Pedro e São Paulo.
1484 - Apenas dois meses após o nascimento de Martinho Lutero, nasce outro dos grandes personagens da Reforma Protestante, Ulrico Zwínglio (01 de janeiro). Ainda que separados apenas por alguns meses, ambos os reformadores iniciam suas atividades reformistas paralelamente - enquanto Lutero inicia suas atividades reformadoras na Alemanha, Zwínglio vai desempenhar um papel semelhante entre os treze Cantões Suíços.
1491 - O nascimento de Inácio de Loyola (24 de dezembro) se constitui em um fato relevante nos acontecimentos posteriores à Reforma Protestante. Será Loyola o mentor e promotor de uma das mais influentes ordens católicas (Companhia de Jesus e/ou Jesuítas) que desempenharam a função de combater as ideais reformistas em todos os lugares.
1492 - Ocorre a eleição do Papa Alexandre VI (11 de agosto). Nascido Rodrigo Borja, infelizmente em seus poucos onze anos de pontificado, ficou mais conhecido por suas depravações e nepotismo do que por suas ações positivas. Foi ele que excomungou o pregador dominicano Jerônimo Savonarola; foi o árbitro entre Espanha e Portugal que resultou na Bula Inter Coetera, dividindo o Novo Mundo entre Portugal e Espanha, posteriormente alterado em favor de Portugal para incluir as terras brasileiras, no chamado  Tratado de Tordesilhas; foi grande protetor das Ordens religiosas; apesar de seu comportamento pessoal reprovável não elaborou nenhum dogma contrário às Escrituras.
Neste ano temos ainda um dos mais expressivos acontecimentos históricos – Colombo chega na América (12 de outubro). Poucos acontecimentos desempenharam um papel de transformação em todas as esferas da sociedade humana, pois, o mundo jamais será o mesmo depois deste acontecimento.
1498 - Ano da morte de Jerônimo Savonarola (21 de setembro de 1452 — 23 de maio de 1498), italiano de Florença, então centro maior da Renascença, faz parte daquela linhagem de cristãos católicos como S. Bernardo, Arnold de Brescia, de Gerson ou Wycliffe, Huns e Jerônimo de Praga, que inconformados com o declínio e desmandos da Igreja exigiam mudanças e/ou reformas, portanto, se constituindo nos precursores de Lutero, Calvino, Zwinglio, que efetivaram a Reforma Religiosa do século XVI. Diferentemente dos outros nomes aqui citados, Savonarola esta envolto em um manto de controvérsias quer por parte da Igreja Católica Romana, quer entre as igrejas Reformadas. Padre da ordem dos Dominicanos ele foi martirizado por bula papal (Alexandre VI - Rodrigo Bórgia) acusado de diversas heresias extraídas de seus escritos e sermões, foi torturado por vários dias, enforcado e seu corpo queimado. Ele é amado por católicos e protestantes, na mesma proporção de que é odiado por ambos os lados da questão religiosa. Uma de suas obras mais popular é O Triunfo da Cruz.
1500 - Nascimento de Charles de Habsburgo [Carlos V] (20 de fevereiro). Herdou um dos maiores impérios “sobre a qual o sol nunca se punha”, mas, ao mesmo tempo, ele foi vítima de seus conflitos. Um de seus maiores desafios foi enfrentar o crescente movimento reformista iniciado pelo monge Lutero na Alemanha. Ele vai intermediar diversos esforços para conciliar os católicos e luteranos, em 1529 Charles V tenta impor sua posição católica romana (segunda Dieta de Speyer), mas o único resultado foi o "Protesto" dos Príncipes alemães, que deu a origem da alcunha “protestantes” aos dissidentes; uma nova tentativa de conciliação é feita (Dieta de Augsburg), em 1530, mas uma vez mais fracassa; até que em 1555 foi estabelecido a “Paz de Augsburg”, em que fica estabelecido que os territórios luteranos e católicos têm o direito de escolher livremente qual a religião que viria a seguir.
Os cristãos constituem 19% da população mundial. As imprensas estão se multiplicando em toda a Europa, em torno de 40 e com 8 milhões de volumes impressos, sendo em grande parte obras cristãs.
Temos neste ano o importante fato histórico da chegada oficial dos portugueses nas novas terras americanas do Brasil. Com a chegada da esquadra de Cabral os portugueses avocam para si os direitos de domínio sobre este vasto continente, inicialmente chamado de “Terra de Vera Cruz”, posteriormente denominado de Brasil, do qual vai usufruir por muitos séculos e implantando aqui um catolicismo que ainda hoje se faz majoritário. Depois de duas invasões protestantes frustradas, franceses e holandeses, somente no final dos oitocentos os protestantes iniciaram um processo de implantação de suas denominações no Brasil.
1505 - Lutero ingressa no mosteiro agostiniano em Erfurt, chamado também de Mosteiro Negro, por causa dos trajes pretos que eles usavam, e aqui o jovem Lutero vivera seus próximos seis anos. Fundado pelos monges que adotaram a Regra de São Agostinho construíram o templo e demais dependência do mosteiro no século 13, entre 1276 e 1340 e em seu apogeu no séc. XV esta ordem agostiniana chegou a possuir 2.000 mosteiros e 30.000 monges.  O mosteiro em Erfurt tornou-se um centro do catolicismo, com sua importante Faculdade de Teologia e uma das mais importantes bibliotecas da época. Na verdade Lutero, por exigência do pai, iria cursar a academia de Direito, mas um incidente em meio a uma grande tempestade quando um raio caiu nas proximidades onde ele estava e não o atingiu, foi tomado por ele como um sinal divino então, sem o conhecimento do pai, ingressa neste mosteiro. Ele foi ordenado sacerdote em 1507 e começa a estudar teologia na Universidade de Erfurt. Hoje este mosteiro mantém uma exposição permanentemente do grande reformador incluindo a cela monástica que ele ocupou e uma biblioteca com livros raros da Reforma.
1509 - Este ano detêm duas referências importantes para a Reforma. A primeira é o nascimento de João Calvino (Jean Cauvin - Noyon Picardia, 10 de julho) uma região ao norte da França e 95 km de Paris. Seus pais Gerard Cauvin e Jeanne le Franc de Cambrai, que faleceria quando ele tinha apenas três anos de idade. Nesta época Lutero já havia pregado suas primeiras conferências na Universidade de Wittenberg. Calvino era 26 anos mais jovem que o reformador alemão, o que fazia dele parte da chamada segunda geração da Reforma Protestante.
             Um segundo evento relevante neste ano é a ascensão ao trono inglês de Henrique VIII. Enquanto Lutero, Calvino e tantos outros estão empenhados na Reforma Religiosa em diversos países, a Inglaterra inicialmente permanece católica romana. Entretanto, o rei Henrique VIII vai entrar em rota de colisão com o Papa Clemente VII, pois o rei em sua fixação por um herdeiro masculino para o trono inglês desejava divorciar-se de sua primeira esposa, Catarina de Aragão, que não lhe podia dar um descente, para casar-se com Ana Bolena à qual ele já estava se relacionando. Com a inicial negativa papal o rei resolver romper com a Igreja Romana e estabelecer uma Igreja da Inglaterra, que veio a ser denominada de Igreja Anglicana. Alguns historiadores chamam este momento de Segunda Reforma e para nós brasileiros ela é significativa, por dois motivos: primeiro porque a Igreja Anglicana será a primeira igreja protestante a se estabelecer no Brasil e a construir um templo não católico; segundo no seio do anglicanismo surgem diversos grupos dissidentes, um dos quais o presbiterianismo [batistas, congregacionais e metodistas], que fora plenamente estabelecido na Escócia com João Knox. Posteriormente, não encontrando espaço para se desenvolver dentro da Inglaterra estes dissidentes atravessam o mar e se estabelecem na Nova Inglaterra, que veio a se constituir nos Estados Unidos da América. São estas igrejas americanas que enviarão os primeiros missionários para estabelecerem o presbiterianismo no Brasil.
1512 - Lutero obteve o grau de doutor em Teologia (19 de Outubro) e tornou-se professor da Universidade de Wittenberg [Wurtemberg]. Ministra conferências sobre a Bíblia na Universidade, especializando-se nas epístolas paulinas de Romanos, Gálatas e Hebreus [então considerada paulina]. É neste momento que Lutero começa a se incomodar com as discrepâncias crescentes entre a Igreja Romana e a teologia bíblica paulina, razão pela qual haverá de formular suas 95 teses que haverão de impulsionar o movimento da Reforma. Neste mesmo ano é eleito sub-prior do convento de Wittenberg.
1513 - Este ano torna-se especialmente significativo na vida de Lutero e do movimento de Reforma que haveria de ser iniciado em breve, pois ele prepara e leciona um curso sobre a epístola paulina de Romanos. Também é nomeado para "Vigário de Distrito" tendo jurisdição sobre onze casas da Ordem dos Agostinianos.
Nesse mesmo ano inicia o Pontificado de Leão X (1513-1521 -Giovanni de Medici, filho de Lourenço o Magnífico). Ele foi um grande patrono das artes e durante seu pontificado teve inicio a Reforma na Alemanha. Tudo indica que ele não compreendeu a gravidade da situação, e a única solução que tentou foi a excomunhão de Lutero.
Ainda neste ano nasce John Knox o reformador escocês, nas proximidades da cidade de Haddington (a 20 kms a leste de Edimburgo). Filho de uma família distinta seu pai se chamava William Knox e sua mãe Sinclair. Nunca renegou suas origens rústicas mesmo quando alcançou uma posição de destaque na história de seu país.
1515 - Lutero é escolhido como vigário do distrito de Gotha da ordem dos Agostinhos, passando a ter sob a sua autoridade onze conventos. No ano seguinte publica a Teologia Alemã.
1516 - Erasmus de Roterdã publica um Novo Testamento grego com sua própria tradução latina. Sua editio princeps tornou-se um marco importante, pois seu trabalho filológico dos textos bíblicos gregos acabou por trazer à tona uma série de equívocos encontrados na velha senhora (Vulgata Latina); o próprio Lutero usou a segunda edição do trabalho de Erasmus para produzir sua tradução do Novo Testamento em alemão; a terceira edição do texto grego de Erasmo tornou-se a base textual para a versão mais popular da Bíblia em inglês a King James (Tyndale 1525); Antonio Brucioli para o italiano e Francisco de Enzinas para o espanhol, utilizaram o texto de Erasmo para suas versões.
1517 - INICIO DA REFORMA: As revoltas Lollardos na Inglaterra, tendo como base os ensinamentos de John Wycliff, as revoltas hussitas (John Huss) na Boêmia, e outras revoltas religiosas propondo reformas mais ou menos radicais da Igreja, diminuíram o prestígio das diversas hierarquias eclesiásticas. Soma-se a crescente e escancarada corrupção e as práticas mundanas da igreja renascentista. O desenvolvimento da crítica acadêmica como a de Desidério Erasmo de Roterdão, cujas edições críticas do Novo Testamento grego (1516) e da Patrística, revelaram graves deficiências nos textos eclesiásticos oficiais; acrescido ao surgimento de um forte sentimento nacional alemão, aliado ao desenvolvimento da xenofobia, sobretudo na Alemanha e em Inglaterra; o desenvolvimento da economia capitalista,  que levou à criação de uma classe média que via o catolicismo como um empecilho ao desenvolvimento. A enorme riqueza fundiária da Igreja, acumulada durante séculos, despertam os interesses de príncipes falidos e ambiciosos, ávidos em secularizar esses latifúndios eclesiásticos.
Em 31 de Outubro Lutero afixa na porta da igreja do castelo de Wittenberg as 95 Teses contra o abuso da absolvição ou indulgências, sobretudo pelo monge dominicano Johann Tetzel. A roda da Reforma Protestante começa a girar.
1518 - Lutero é convocado a Augsburgo pelo Cardeal Tomás de Vio de Gaeta. Lutero recusou abjurar, e apelou para o Papa. Mediação do camerlengo papal Karl von Miltitz.

1519 - Começo da REFORMA NA SUÍÇA, dirigida por Ulrich Zwingli (Zuínglio), onde concomitantemente com Lutero, denunciou as indulgências e outros abusos da hierarquia cristã, tendo causado uma grande impressão em Zurique com a promulgação de suas 67 teses. Em 1521 denunciou a contratação de mercenários, e em 1522 condenou os períodos de jejum e abstinência, bem como a pratica do celibato e ele próprio se casou em 1524. A cidade de Zurique, seguindo os seus ensinamentos, aboliu a confissão auricular em 1524 e fechou os mosteiros. Apesar de serem contemporâneos, Zwingli e Lutero atuaram sempre independentes.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião
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