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quinta-feira, 3 de outubro de 2013

INSERÇÃO DO PRESBITERIANISMO NO BRASIL (1)

A cidade do Rio de Janeiro vista da baia da Guanabara
gravura de Henry Chamberlain

Contexto Brasileiro

O Presbiterianismo estabelece-se no Brasil eclesiasticamente, após alguns esforços pessoais, em 1859 com a chegada do missionário americano Ashbel Green Simonton dando origem a Igreja Presbiteriana do Brasil.
Nos cinquenta anos que antecedem a chegada de Simonton, principalmente nos dez últimos, o Brasil experimenta uma profunda e continua metamorfose em todas suas esferas sociais, que haverão de transformar e alterar definitivamente sua trajetória histórica e principalmente no que concerne à religião. Podemos dizer que estes anos se constituíram em um período de maturação, para a inserção definitiva do protestantismo presbiteriano na história e na vida dos brasileiros, que perdura até os dias atuais, com todas suas implicações nas mais distintas esferas sociais.
           Quando Simonton chega ao Brasil o protestantismo já se fazia presente no contexto social e na mentalidade de grande parte dos brasileiros. Afora as duas frustradas e distantes tentativas de um protestantismo invasor pelos Franceses e depois pelos Holandeses, já possuem uma relativa bibliografia a ser consultada (MATOS, 2008, pp. 84-93; LESSA, 1938, p. 11ss.; SCHALKWIJK, Frans Leonard, 2004, obra clássica sobre a invasão holandesa).

As Primeiras Aberturas ao Protestantismo
            Desde 1808 com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, debaixo da proteção inglesa, e a simultânea abertura dos portos brasileiros aos países amigos, o país se abriria definitivamente para outras nacionalidades e evidentemente suas respectivas religiões.
            O “Tratado de Comércio e Navegação” (1810) em seu Artigo XII (REILY, 1993, pp. 40-41), firmado por Dom João VI com a Inglaterra, vai permitir a prática religiosa anglicana [igreja estatal inglesa] possibilitando assim, de maneira inédita, que pregações protestantes sejam feitas legalmente no país, ainda que restrita aos estrangeiros.
            Em 1818 imigrantes alemães se instalaram na cidade de Friburgo, no Rio de Janeiro, e posteriormente expandiram pela região sul do país (RIBEIRO, 1973 capto 4; DREHER, 1984, p. 38s.; WITT, 1996). Em decorrência direta desta opção pela imigração europeia, de cunho protestante, em detrimento de outras populações, de origem católica, em 1824 a primeira Constituição Brasileira é promulgada e insere em seu Artigo 5°:


A Religião Católica Romana continuará a ser a Religião do Império. Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo.

As Sociedades Bíblicas e a Colportagem
As Sociedades Bíblicas, tanto a Britânica quanto a Americana[1] - começam a enviar seus “agentes” e “colporteurs”[2] que viajam milhares de quilômetros por todo o Brasil distribuindo [vendendo] Bíblias, bem como outros panfletos contendo a mensagem evangélica protestante. Como afirma Matos: “As primeiras organizações protestantes que direcionaram os seus esforços para suprir as necessidades espirituais dos brasileiros não foram as igrejas, mas as sociedades bíblicas”. (2008, p. 101).[3]
A expansão extremamente rápida e profícua do protestantismo no Brasil é devedora em alto grau às atividades continua da denominada colportagem, que foi exercida inicialmente pelos primeiros missionários[4] e posteriormente por centenas de leigos brasileiros que percorreram todo o país, saindo dos grandes centros urbanos e chegando aos lugares mais distantes e às vilas mais acanhadas, oferecendo bíblias e comunicando a mensagem evangélica pela perspectiva protestante. O professor Calebe Soares, que conta em detalhes o desenvolvimento desta atividade no Brasil, registra que o esforço incessante dos colportores tornou-se logo cedo motivo de preocupação por parte das lideranças católicas, conforme se percebe nas palavras do padre Agnelo Rossi ao fazer uma definição dos colportores:
Tradução do vocábulo anglo-gálico colporteurs. São os propagandistas viajantes que, de povoação em povoação, de casa em casa, vão desenvolvendo uma propaganda ativíssima com a venda de Bíblias e opúsculos evangélicos, e com a distribuição de folhetos de propaganda. Ordinariamente, são homens peritos em convencer, com termos sonoros e lábia invulgar. Servem muitas vezes de meio utilíssimo para fundação de novos centros protestantes. Observadores perspicazes, eles sondam o terreno onde sua propaganda é mais ou menos eficaz e informam as seitas sobre as possibilidades dos locais percorridos.  (1939, pp. 146-47, Apud SOARES, 1996, p.15 - Itálico meu).
            Alguns destes primeiros observadores perspicazes estrangeiros escreveram suas reminiscências sobre o país e despertaram um crescente interesse por parte de seus concidadãos em relação ao Brasil. Um dos mais populares foi escrito por um missionário metodista americano Daniel P. Kidder – “Reminiscências de Viagens e Permanências no Brasil” (1972) que vai influenciar muito um pastor presbiteriano, James C. Fletcher, que atuara de forma efetiva no país por mais de dez anos e que atualizando as informações anteriormente editadas por Kidder, vai editar um novo livro com o título de “O Brasil e os Brasileiros” que terá sua primeira edição em inglês em 1857 e reedições atualizadas em 1866, 1867 e 1868, sendo que nas últimas edições foi inserido um capítulo especialmente voltado para os possíveis imigrantes sulistas do pós-guerra civil americana, tendo também algumas edições em português. (VIEIRA, 1980). Os livros de Kidder e Fletcher, conforme Ribeiro vai fixar na mente dos norte-americanos uma imagem bastante positiva do Brasil e principalmente em ser “acessível aos protestantes” e “como ‘país de Missão", ao quais as igrejas protestantes deviam enviar missionários. (1981, p. 14).









Referências Bibliográficas 

DREHER, Martin Norberto. Igreja e Germanidade. São Leopoldo: Sinodal/EST, 1984.
GUEDES, Ivan Pereira. O protestantismo na cidade de São Paulo – presbiterianismo: primórdios e desenvolvimento do presbiterianismo. Alemanha: Ed. Novas Edições Acadêmicas, 2013.
KIDDER, Daniel P. Reminiscências de viagens e permanências no Brasil [1842]. Tradução de Moacir N. Vasconcelos. São Paulo: Livraria Martins/ Edusp, 1972.
_______________ e FLETCHER, James C. O Brasil e os brasileiros (esboço histórico e descritivo). São Paulo: Companhia Editora Nacional. 1941.
LESSA, Vicente Themudo. Annaes da Primeira Egreja Presbyteriana de São Paulo – Subsídios para a História do Presbiterianismo Brasileiro. São Paulo: Ed. Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, 1938.
MATOS, Alderi Souza de. Erasmo Braga, o protestantismo e a sociedade brasileira – perspectivas sobre a missão da igreja. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2008.
REILY, Duncan Alexander. História documental do protestantismo no Brasil. 2ª impr. rev. São Paulo; ASTE, 1984.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico (1822-1888): aspectos culturais da aceitação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973.
_________________. Protestantismo e cultura brasileira – aspectos culturais da implantação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1981.
RIZZO, Maria Amélia. Simonton – inspirações de uma existência. São Paulo: Editora Rizzo, 1962.
ROCHA, João Gomes. Lembranças do passado – Ensaio histórico do inicio do trabalho evangélico no Brasil, do qual resultou a fundação da Igreja Evangélica Fluminense pelo Dr. Robert Reid Kalley. Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Publicidade Ltda, vol. 1, 1941.
SCHALKWIJK, Frans Leonard. Igreja e Estado no Brasil holandês (1630 a 1654), 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2004 (1986).
SOARES, Caleb. Januário Antônio dos Pés Formosos. Campinas (SP): Luz Para o Caminho, 1996.
WITT, Osmar Luiz. Igreja na migração e colonização. São Leopoldo: Sinodal, 1996 148 p. -- (Série Teses e Dissertações; 8) 1. Brasil — Rio Grande do Sul - Igreja Luterana. I. Título.       II. Série.
VIEIRA, David Gueiros. O protestantismo, a maçonaria e a questão religiosa no Brasil. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1980.



[1] A Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira foi fundada em 1804 e a Sociedade Bíblica Americana em 1816. A Britânica e Estrangeira enviou diversos representantes que percorreram não só o Brasil, mas toda a América Latina e a Sociedade Americana enviaram missionários que passaram a residir no Brasil.
[2] Ao menos no Brasil criou-se uma distinção técnica entre “agente” e “colporteurs e/ou colportor”. O primeiro tinha nível superior e era o representante nacional da instituição; o segundo  se caracterizou como o distribuidor e vendedor ambulante de impressos protestante e geralmente tinha formação escolar primária. (Rocha, s/d, vol. 1, p. 199).
[3] As sociedades bíblicas eram entidades mundiais que tinham como finalidade a divulgação integral ou parcial da Bíblia na língua vernácula de cada povo. Antes mesmo de estabelecerem agências no Brasil, iniciaram um trabalho de divulgação e propagação das idéias protestantes no país nas primeiras décadas do século XIX, expedindo Bíblias e Novos Testamentos através da embaixada inglesa, por portadores diretos, por comerciantes, pelos comandantes de navios que zarpavam dos Estados Unidos. Em 1842, a BFBS e a ABS se fundiram no Brasil e, seis anos mais tarde, foi organizada a Sociedade Bíblica do Brasil. (Reily, 1984, pp. 54, 59).
[4] Simonton nas anotações em seu diário entre 22 de outubro de 1860 a 14 de fevereiro de 1861 menciona ao menos oito referências relacionadas à Bíblia. Registra a abertura de um depósito de Bíblias no Rio de Janeiro, a distribuição de Bíblias por meio de colportores de Campinas e Sorocaba e registra a ousada conversa que teve com dois padres na casa do major Paulino íris, em Itapetininga, SP, sobre este tema delicado para o pensamento católico da época, falando da necessidade de colocar a Bíblia nas mãos do povo, uma tradição muito forte dos protestantes desde a Reforma, no principio do século XVI. (RIZZO, 1962, p. 72-76).


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