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sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

PROTESTANTISMO EM IMAGENS - Baia da Guanabara e cidade do Rio de Janeiro

     Quando os primeiros missionários começaram a chegar ao Brasil, caminhando para o fim do século XIX, eles tiveram o privilégio de visualizarem e posteriormente desbravarem um país extraordinariamente belo e enigmático.
     Por mais de três séculos desde que os portugueses o colocaram no Mapa Mundial (22 de abril de 1500)[1], o Brasil ficou completamente fechado aos demais países europeus.[2] Portugal manteve até onde pode o imenso país escondido dos olhos cobiçosos dos demais reinos e impérios que os circundava.[3] Forçado a um primeiro movimento de povoamento das novas terras brasilianas, já com a liderança do rei D. João III,[4] lança-se o projeto das Capitanias Hereditárias, das quais vingaram apenas três: Pernambuco, São Vicente e Bahia. Estabelece-se então o Regime Colonial, mas é somente depois das investidas mais contundentes dos franceses (1555 – Rio de Janeiro) e posteriormente dos holandeses (1624 – Bahia e 1630 - Pernambuco) que Portugal resolveu assumir a necessidade de estabelecer cidades e povoar as terras do novo continente.
      Se a intenção inicial de Portugal era “fechar” o Brasil, depois das experiências invasoras de França e Holanda, qualquer estrangeiro passou a ser visto como inimigo da coroa. Até mesmo indivíduos eram observados e acompanhados e qualquer dúvida sobre a conduta deles era suficiente para extradita-los.[5] O Brasil ficou incomunicável com o restante do mundo.
     Esta situação somente será alterada por um acontecimento inesperado, causado pela desvairada empreitada napoleônica de estabelecer na Europa um único Império. Acossado por Napoleão e seu exército implacável, D. João VI e a família real e uma imensa corte de aproximadamente 10 a 15 mil pessoas deixam Portugal em direção do Brasil. Os poucos anos em que a Corte portuguesa permaneceu no país foi suficiente para mudar totalmente a história brasileira. A começar pelo fato de que depois de tantos séculos o Brasil abre-se para o mundo e paulatinamente os estrangeiros vão se achegando e tomando conhecimento da grandeza deste imenso país continental. Entre estes estrangeiros estão os primeiros missionários protestantes que inicialmente vem para sondar as possibilidades da implantação da religião de cunho protestante e posteriormente os primeiros missionários que aqui desembarcam com o propósito de estabelecerem suas denominações evangélicas na “Terra Brasilis”.[6]
     Estes pioneiros missionários protestantes normalmente desembarcavam na Baia da Guanabara (RJ) então principal porto brasileiro e também por ser a cidade carioca sede do Governo e capital do Brasil. Abaixo transcrevo a descrição feita por João Maurício Rugendas, desenhista de primeira grandeza, que vindo ao Brasil acompanhando uma malfadada Expedição Cientifica nos dias do Primeiro Reinado, acabou por viajar por todo o país às suas próprias custas e produzindo mais de 400 desenhos, dos quais ele ao retornar para a Europa seleciona 100 e o faz publicar em edição luxuosa, em 1835, em francês e alemão, na litografia de Engelmann, em Paris.[7] Sua descrição da Baia da Guanabara, juntamente com seus desenhos, nos arremessa àqueles primeiros momentos em que os missionários que aqui chegavam ficavam pasmados e impactados pela beleza e grandeza que se advinham do país que eles desejavam tanto alcançar com sua mensagem evangélica protestante.
     Peguemos uma carona com Rugendas e vamos adentrar a Baia da Guanabara e à cidade do Rio de Janeiro como que pela primeira vez, para sentirmos a mesma sensação que tiveram Daniel P. Kidder (1838)[8], James Cooley Fletcher (1851)[9] e sua família, Dr. Rev. Robert Reid Kalley (1855)[10] e sua esposa Sarah Kalley, o jovem Ashbel Green Simonton[11] e posteriormente sua esposa Helen Murdoch , Alexander Latimer Bleckford[12] e sua esposa Elizabeth W. Simonton, Francis Joseph Christopher Schneider, George Whitehill Chamberlain[13] e posteriormente sua esposa Mary Ann Annesley, e cada um daqueles que desembarcaram aqui naquele momento histórico inigualável quando o Brasil está se abrindo plenamente para a religião evangélica protestante, para nunca mais se fechar.

A baía do Rio de Janeiro é de forma oval e regular, com inúmeros golfos e promontórios. Seu maior comprimento, de sul a norte, é de cinco léguas e sua maior largura, de oeste a leste, é de quatro.
Entra-se na baía, vindo do oceano, por um canal mais estreito, ou melhor, por uma espécie de vestíbulo não menos irregular, cuja saída para a baía tem mais ou menos uma légua de largura, ao passo que do lado do mar a entrada é de mil braças. É essa embocadura exterior da baía do Rio de Janeiro que a primeira prancha deste caderno representa; foi ela desenhada em pleno mar, a pequena distância da terra.
À esquerda, o olhar se fixa na estranha pirâmide de pedra do Pão de Açúcar, cuja configuração fica gravada na lembrança de todo marinheiro que tenha navegado uma única vez que seja ao longo dessa costa. Ao pé do Pão de Açúcar, distinguem-se, numa faixa de terra avançada, as baterias de São Teodósio que, desse lado, defendem a entrada. Em face vê-se a fortaleza de Santa Cruz; finalmente, entre ambas, a pequena Ilha de Lajes, igualmente fortificada, que divide a embocadura da barra em dois canais dominados inteiramente pelo tiro de seus canhões. No fundo, entre o forte de São Teodósio e a Ilha de Lajes, percebe-se a de Villegagnon, coberta também de obras de defesa,
e mais ao longe a Ilha das Cobras. Quanto à cidade, ela se esconde atrás dessas duas ilhas e do Forte de São Teodósio. Logo depois dessa entrada, a costa se retira e se afasta de ambos os lados para formar duas enseadas profundas. A esquerda, que acompanha a costa ocidental, tem o nome de Botafogo; limita-se, ao norte por uma ponta eriçada de colinas (Morro do Flamengo) para trás da qual a costa toma uma direção bastante reta para o norte, até um outro promontório menor e também cheio de rochedos (Morro de Nossa Senhora da Glória), assim chamado por causa da capela nele construída. Daí por diante a costa se dirige primeiramente para o norte, em seguida faz uma ligeira curva para leste, formando, na Ponta do Calabouço, um ângulo agudo; por trás desta ponta segue, durante um pequeno espaço, a direção de noroeste, até formar um ângulo obtuso no (Morro de São Bento). Aqui começa a baía propriamente dita, retirando-se a costa para este.
A costa oriental forma, logo depois da entrada, representada na nossa primeira prancha, uma enseada profunda e irregular chamada Saco; há em seguida, uma faixa de terra rochosa e duas pontas. A do sul, chamada Ponta de Nossa Senhora da Boa Viagem, tem uma capela; a do norte apelida-se Ponta da Gravata. Este promontório, juntamente com a Ponta do Calabouço, situada bem de frente, forma a entrada da barra interior, que logo vemos alargar-se de ambos os lados. A costa da baía é montanhosa, tal qual a deste canal ou vestíbulo anterior, e não raro os rochedos se estendem até o mar.
Todavia as montanhas da costa oriental são, em geral, menos altas e de formas menos espantosas e pitorescas que as da costa ocidental, onde sobressai principalmente a enorme massa de rochedo do Corcovado. Inúmeros rios desembocam na baía e formam baixios arenosos e pantanosos e, ao longe, erguem-se as pontas buriladas da Serra dos Órgãos e da Serra da Estrela. Há na baía muitas ilhas, em sua maioria rochosas e pouco extensas. A maior está próxima da costa ocidental: chama-se Ilha do Governador. Fortificaram-se algumas à entrada da baía, destinando-se à defesa da cidade do lado do mar e à proteção dos diversos ancoradouros. Citaremos, entre estas, a Ilha de Laje, na entrada, a de Villegagnon e a das Cobras de que já falamos.
A cidade do Rio de Janeiro, está situada na costa ocidental, precisamente no ângulo que, desse lado, fecha a garganta da baía para o interior. A parte mais antiga da cidade, e também a maior, está construída sobre uma pequena planície irregular, encaixada entre duas filas de colinas rochosas e sem ligação entre si. A fila meridional atinge a Ponta do Calabouço e comporta a Fortaleza de São Sebastião; a fila setentrional termina no Morro de São Bento. É entre esses dois pontos que atracam comumente; aí se acham os cais, o paço do Palácio Imperial e, defronte do Morro de São Bento, a pequena distância a Ilha das Cobras. A oeste, essa parte da cidade é separada por uma grande praça, Campo de Santana, do bairro mais moderno de igual nome. O oeste desse arrabalde alguns riachos, juntamente com um braço de mar ou baixio, formam uma espécie de pântano, Saco do Alferes, o qual separa essa parte da cidade dos bairros mais afastados de Mata-Porcos e Catumbi. Atravessa-se Mata-Porcos numa estrada em forma de dique e passa-se a ponte de São Diogo para chegar ao Castelo Imperial de S. Cristóvão, meia milha adiante.
Talvez não exista no mundo uma região como a do Rio de Janeiro, com paisagens e belezas tão variadas, tanto do ponto de vista da forma grandiosa das montanhas como dos contornos das praias. Em virtude da multidão de enseadas e promontórios, há uma variedade infinita de panoramas, tanto para o lado da cidade como para as montanhas, tanto para o lado da baía e suas ilhas como para o mar alto. Não são menores a riqueza e a variedade da vegetação. Alguns grupos de árvores dessas florestas primitivas, que cobriam outrora as colinas e as encostas das montanhas, permaneceram na vizinhança imediata da cidade. Nos vales mais longínquos e nos flancos menos abruptos dos montes, esses grupos transformam-se em bosques extensos encimados por rochas nuas.  Mais perto da praia, as colinas e os vales enchem-se de plantações de café e chácaras esparsos, cercados de bosques deliciosos e floridos de árvores e arbustos dos trópicos.
Enfim, esboçando melhor o panorama da vegetação desse país, observam-se, cá e lá, alguns grupos de palmeiras esguias e de fetos. Os baixios a oeste da cidade, do lado do Saco do Alferes, inundam-se no momento da maré e na estação das chuvas, e o mangue as invade assim como invade o recôncavo da baía e a embocadura dos rios. Aliás, os terrenos ribeirinhos no Rio de Janeiro são mais ou menos incultos; apenas se encontram algumas plantações esparsas em frente da cidade, entre a Ponta da Gravata e o Armazém. Aí se situam as aldeias Praia Grande, São Domingos e, mais adiante, a Vila de São Lourenço, habitadas pelos descendentes da população primitiva do país.

A cidade e a baia, vistas do lado da serra. O espectador está colocado perto do grande aqueduto da Carioca, numa das colinas que vão do Corcovado à praia.



A cidade vista da plataforma do Convento de Nossa Senhora da Glória.


Uma vista tomada da colina de Nossa Senhora da Glória, mas do lado oposto, isto é, para o sul, para o bairro do Catete, que passa à esquerda, por trás do Morro do Flamengo, para atingir a praia do Botafogo. À direita, ergue-se o Corcovado, embaixo do qual se forma o vale das Laranjeiras. À esquerda, o Pão de Açúcar põe fim à série de rochedos que cerca o Botafogo.



Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Reflexão Bíblica


REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
DUSSEL, E.D. 1492 – O Encobrimento do Outro – a origem do mito da modernidade. Petrópolis: Vozes, 1993.
FORTES, Pedro Henrique Ribas. Olhares franceses sobre a terra brasilis. Monografia (História) Universidade de Tuiuti do Paraná, Paraná, 2010. [Orientador: Geraldo Pieroni]. Disponível em: http://www.utp.br/historia/Tcc/Revista4_historia/PDFS/Pedro.pdf.  Acesso em 26/12/2013.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1987
POMBO, Rocha. História do Brasil. São Paulo: Edições Melhoramentos, 11ª ed., 1963. [Revista e atualizada por Hélio Vianna].
RUGENDAS, João Maurício. Viagem Pitoresca através do Brasil. [trad. de Sérgio Milliet]. São Paulo: Martins, Ed. da Universidade de São Paulo, 1972.
VARNHAGEN, Francisco Adolfo de. História geral do Brasil: antes de sua separação e independência de Portugal (volume V). Revisão e notas de Rodolfo Garcia. São Paulo: Melhoramentos, 1956.


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A Transferência da Família Real Portuguesa
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[1] Rocha Pombo, um dos nossos primeiros historiadores, diante da questão se foi Cabral o primeiro que chegou a esta parte do novo mundo, e se teve o propósito de descobrir terras neste lado do Atlântico, ele responde: “[...] torna-se já impertinente a discussão; pois o feito do navegante português é o único que tem autenticidade histórica”. (1963, p. 23).
[2] “Estranha e desconhecida, a Terra Brasilis passou em grande parte despercebida durante os primeiros cinquenta anos da descoberta”. (FORTES, 2010, p. 330).
[3] “Alguns dias depois, a 1º de maio [1500], repetiu-se a cerimônia [Missa] com muito aparato em terra firme, no alto de uma colina, onde se levantou uma grande cruz de madeira, à frente da qual se erigiu um altar, onde foi celebrada a missa oficial, pregando fr. Henrique de Coimbra. Pela primeira vez, naquelas paragens que nasciam para a história, salvou a artilharia; enquanto Cabral tomava posse formal da Terra, em nome do seu soberano [Dom Manuel], dando-lhe o nome de Ilha da Vera Cruz (1 de maio). [...] E para que o rei não assuste a Europa levantando logo todo o pano, fala-se ainda de ilha, como sempre se fazia, e como sem dúvida se combinara ao sai de Lisboa” (POMBO, 1963, p. 22 – grifo do autor). Uma visão mais critica desta postura portuguesa (Brasil) e espanhola (América) é apresentada e discutida de forma peculiar por Enrique Dussel em “1492 – O Encobrimento do Outro”;
[4] “Quando D. João III assumiu o reinado, viu-se uma mudança nos olhares direcionados ao Brasil” (FORTES, 2010, p. 331).
[5] O caso do naturalista e geógrafo alemão Alexander von Humboldt que explorava a região amazônica é ilustrativa desta aversão portuguesa pelos estrangeiros (HOLANDA, 1987, p. 12). E o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen informa sobre correspondências dos governadores do Maranhão e da Paraíba alertando para o perigo dos estrangeiros (p. 82)
[6] Este é o nome pelo qual o Brasil torna-se conhecido no mapa mundial em seus primeiros dias.
[7] A obra foi publicada originalmente em fascículos. Posteriormente foram reunidos em livro em 1835, com uma edição em alemão e outra em francês.
[8] Missionário metodista, um dos primeiros colportores de bíblias no país, e autor de um livro sobre o Brasil, que influenciou muitos outros para virem ao país – “Reminiscências de viagens e permanência no Brasil”, publicado em 1845.
[9] O primeiro missionário presbiteriano a desenvolver atividades no país, a partir do livro de Kidder produziu varias edições em inglês e português do livro “O Brasil e os Brasileiros” que se tornou um clássico sobre o país.
[10] Foi o primeiro missionário a estabelecer uma igreja protestante brasileira – Igreja Congregacional Fluminense. E sua esposa traduziu diversos hinos que formaram o primeiro e único hinário das igrejas evangélicas no Brasil por muitos anos.
[11] Foi o primeiro missionário presbiteriano estabelecer a denominação no país, começando pelo Rio de Janeiro. Ele e sua esposa morreram muito jovens, ela por complicações pós-parto e ele acometido de doença tropical. Ambos estão sepultados em São Paulo, no Cemitério Protestante, na Rua da Consolação.
[12] Deu prosseguimento ao trabalho inicial de Simonton, estabelecendo a Primeira Igreja Presbiteriana na cidade de São Paulo, e em diversas cidades do interior do Estado paulista.
[13] Ele sua esposa iniciaram uma pequena escola primária em sua casa, posteriormente tornou-se a Escola Americana, Colégio e veio a se constituir em uma das maiores Universidades do país – Universidade Presbiteriana Mackenzie.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

LIBERDADE PARA AS INDÚSTRIAS - Documento

D. João VI no Brasil

     Após a assinatura da Carta Regia, conhecida também por Abertura dos Portos, de 28 de janeiro de 1808, primeiro ato jurídico de D. João VI ainda na Bahia, abrindo nossos portos as Nações Amigas, teve especial destaque um alvará assinado por ele, agora já no Rio de Janeiro, em 1º Abril de 1808 permitindo pela primeira vez no Brasil que indústrias pudessem serem estabelecidas, pois até aquele momento o país era tão somente um país para exploração agrícola e que vivia regulada pelo pacto colonial [1] que mantinha plena dominação da Metrópole sobre a Colônia, com todas as vantagens para a primeira.

     Este alvará vai revogar o anterior de 1785, assinado pela rainha D. Maria I, que proibia o estabelecimento de fábricas industrias no Brasil, [2] desta maneira João VI remove todas as leis proibitivas que até então haviam reprimido a atividade industrial de seus súditos 
brasileiros, e dava-lhes legalmente plena liberdade para toda espécie de industria e fabricações. Tudo muito bonito, mas desde aqueles dias e até hoje no Brasil, primeiro se faz a Lei [decreto, projeto, promessas de campanhas] e depois vai se preocupar com a viabilidade ou praticidade. 
     Na teoria o alvará era muito bom, mas na prática completamente inútil, por ao menos duas razões: primeiro, não havia o capital financeiro necessário e nem ao menos uma politica econômica para viabilizar os possíveis projetos industriais, pois o detentores do dinheiro no país eram os latifundiários agrícolas estabelecidos sobre uma economia escravista; segundo, a Inglaterra até então a grande "parceira" comercial de Portugal, não tinha qualquer interesse em fornecer máquinas e equipamentos para formação de um parque industrial no Brasil, pois o objetivo era transformar os brasileiros em mercado consumidor e não em um concorrente produtor.
Mas apesar de naquele momento o alvará ter produzido um resultado inócuo, ele torna-se importante pois juntamente com o anterior se constituem nos primeiros passos em direção a autonomia plena do país, que somente ocorrerá em 1822  com o ato da Independência, mas que certamente não ocorreria, na época e forma como veio a ocorrer, sem que estas primeiras aberturas fossem efetuadas.
       A grande maioria dos historiadores, principalmente os ligados à econômica, são extremamente críticos deste documento, todavia, naquele momento histórico, totalmente fragilizado politica e economicamente, o governo português não tinha outra alternativa a não ser ceder às imposições inglesa. 

     Para o protestantismo que começara a ser implantado de forma efetiva apenas no final do século XIX, estes primeiros passos de abertura comercial se constituem também em marcos importantes, pois na medida em que o país vai se abrindo comercial e economicamente para as demais nações, a religião não católica vai se fazendo presente cada vez mais entre os brasileiros. A estrada será longa, mas os primeiros passos aqui foram dados.



Alvará de 1.° de abril de 1808.


Eu o Príncipe Regente faço saber aos que o presente Alvará virem: Que desejando promover, e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as Manufaturas, e a Indústria, que multiplicam, e melhoram, e dão mais valor aos Gêneros, e Produtos da Agricultura, e das Artes, e aumentam a população dando que fazer a muitos braços, e fornecendo meios de subsistência a muitos dos Meus Vassalos, que por falta deles se entregariam aos vícios da ociosidade: E convindo remover todos os obstáculos, que podem inutilizar e frustrar tão vantajosos proveitos: Sou Servido abolir, revogar toda e qualquer proibição que haja a este respeito no Estado do Brasil, e nos meus domínios Ultramarinos, e Ordenar, que daqui em diante seja lícito a qualquer dos Meus Vassalos, qualquer que seja o País em que habitem, estabelecer todo o gênero de Manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo seus trabalhos em pequeno, ou em grande, como entenderem, que mais lhes convém, para o que Hei por bem derrogar o Alvará de cinco de janeiro de mil setecentos oitenta e cinco, e quaisquer Leis ou Ordens que o contrário decidam, como se delas fizesse expressa, e individual menção, sem embargo da Lei em contrário.

Pelo que: Mando ao Presidente do Meu Real Erário, Governadores e Capitães Generais, e mais Governadores do Estado do Brasil, e Domínios Ultramarinos, e a todos os Ministros de Justiça, e mais Pessoas, a quem o conhecimento deste pertencer, cumpram, e guardem, e façam inteiramente cumprir e guardar este meu Alvará como nele se contém sem embargo de quaisquer Leis, ou Disposições em contrário, as quais Hei por derrocadas para este efeito somente, ficando aliás sempre em seu vigor. Dado no Palácio do Rio de Janeiro em 1.° de abril de 1808.

                                                    Príncipe Regente D. João.






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Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas
D'EÇA, Vicente Almeida. A abertura dos portos do Brasil. Portugal: Sociedade de Geografia de Lisboa,  1908.

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Abertura dos Portos às Nações Amigas
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Protestantismo no Brasil: Primeiras Aberturas Legais
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__________________________
[1] As relações econômicas pautavam-se por trocas comerciais, que eram sempre favoráveis aos interesses portugueses. Assim, a metrópole comprava matérias-primas da colônia por valores baixos e fornecia-lhe produtos manufaturados por preços elevados. Esse tipo de critério aplicava-se a todas as metrópoles europeias e a suas colônias. 
[2] EXTINCÇÃO DE FABRICAS NO BRAZIL - Aviso de 5 de janeiro de 1785, dirigido ao vice-rei do Estado do Brasil, remettendo-lhe o alvará da mesma data que extingue todas as fabricas e manufacturas de ouro, prata, seda, algodão, linho, e lá, existentes no mesmo Estado. [...] « Quanto ás fabricas e manufacturas e indubitavelmente certo que sendo o Estado do Brasil o mais fértil e abundante em fructos e producções da terra, e tendo os seus habitantes, vassallos desta coroa, por meio da lavoura e da cultura, não só tudo quanto lhes é necessário para sustento da vida, mas muitos artigos importantissimos para fazerem, como fazem, um extenso e lucrativo commercio e navegação; se a estas incontestáveis vantagens ajunctarem as da industria e das artes para o vestuário, luxo, e outras commodidades precisas, ou que o uso e costume tem introduzido, ficarão os ditos habitantes totalmente independentes da sua capital dominante. É por consequencia indispensavelmente necessário abolir do Estado do Brasil as ditas fabricas e manufacturas. » (apud SILVA, 1864, p. 308 - grafia da época).


FICHÁRIO [Documentos 002]
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

PRIMÓRDIOS DA PRIMEIRA IGREJA PRESBITERIANA DE SÃO PAULO

   
Largo São Bento com a Líbero Badaró
onde funcionou a Primeira IPB e a Escola Americana
(futura Universidade Mackenzie)
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     O Rev. Alexander L. Bleckford ao tomar a decisão de fixar residência em São Paulo tem como objetivo aumentar os esforços de estabelecer a primeira Igreja Presbiteriana na cidade. Sua limitação com a língua portuguesa era ainda maior do que a de seu companheiro de missão Ashbel Green Simonton, mas sua determinação e dedicação são aliadas muito eficazes. Conforme informações de Carl Joseph Han ele manteve um “Diário do Trabalho Missionário na Cidade de São Paulo” (1989, p. 171), que Lessa esclarece ter sido redigido de forma bem concisa e com alguns equívocos fáceis de serem corrigidos (1938, p. 31) no período de 09 de outubro de 1863 a 25 de dezembro de 1868.
     No dia 18 de outubro de 1863, um domingo, Blackford realiza um culto falado em inglês, no salão de descanso e leitura de ingleses, na Rua da Constituição, hoje Florêncio de Abreu, sendo o texto bíblico utilizado 1 Timóteo 2.5, tendo um público ouvinte de catorze pessoas. ((Journal Record of Mission Presbyterian, Nº 9/10/1868 a 25/12/1868, Apud CLARK, 2005, p. 105).

     Somente em 29 de novembro de 1863, ele vai realizar o primeiro culto em português, na residência de um crente advindo do Rio de Janeiro e membro da Igreja Evangélica do Dr. Kelly, chamado W. D. Pitt[1] e morador na Rua da Boa Vista numero 5, tendo um pequeno público de sete ou oito ouvintes, estando também presente o Rev. Chamberlain.[2]


     Este início tão modesto não desanimou Bleckford, ao contrario, a partir de dezembro de 1864 ele passa a realizar as reuniões na Rua Nova de São José numero 01, atual Líbero de Badaró, já com a realização de dois cultos dominicais e uma reunião de estudos bíblicos às quartas feiras. Um dos participantes chamado Gaston em seu relato de 1º de outubro de 1865 faz uma descrição destas primeiras reuniões:


Há reuniões regulares, domingo de manhã com pregação e domingo à tarde palestras práticas, ou exercícios de Catecismo. Alguns dos jovens, pareceu-me, respondiam prontamente, e seus modos indicavam considerável inteligência. Era muito evidente que a maioria dos presentes a cada reunião (dominical) pertencia à classe social mais humilde; (abud RIBEIRO, 1981, p. 127).


     A data oficial para a fundação da Primeira Igreja Presbiteriana de São Paulo é 5 de março de 1865, com a recepção por profissão de fé de seus primeiros seis membros, como era pratica daqueles dias. As pessoas recebidas foram: Manoel Fernandes Lopes Braga, Miguel Gonçalves Torres, Antonio Trajano, José Maria Barbosa da Silva, Anna Luiza Barbosa da Silva e Olympia Maria da Silva. Os quatro homens eram de nacionalidade portuguesa, e as duas senhoras brasileiras.[3]


     Destes primeiros presbiterianos da cidade de São Paulo merece destaque os nomes de Miguel Gonçalves Torres e Antônio Trajano que vieram a serem respectivamente os primeiros alunos do denominado Seminário Primitivo, iniciado por Simonton e Blackford, e futuros pastores da Igreja Presbiteriana do Brasil. O que parecia ser um começo tão modesto, na verdade viria a ser um grande marco no avanço para o estabelecimento do presbiterianismo brasileiro, pois em poucos anos São Paulo se constituiria no centro mais prospero do presbiterianismo nacional e receberia os maiores volumes de recursos financeiros das Juntas Missionárias. Olivetti poeticamente se refere a este primeiro momento:


     Aqueles missionários (Blackford e outros) e aqueles primeiros membros comungantes constituem um importante elo da corrente milenar dos que andaram ou andam na esteira dos passos de Deus. E constituem uma importante etapa da obra de reforma evangélica, da linha calvinista e presbiteriana, em nossa terra. Dou graças a Deus pela vida e pelo serviço daqueles irmãos na fé. (2000, p. 28)


     Em dezembro de 1864 ocorre uma mudança significativa de endereço, para uma casa mais ampla, na esquina do Largo de São Bento com Rua São José, 1, hoje Líbero Badaró. Aqui ocorreram fatos marcantes da história do presbiterianismo paulista e brasileiro conforme podemos perceber no registro feito pelo jornal Visão, órgão oficial da Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, em seu primeiro exemplar, de março a maio de 2001, na página numero 1:



Lembra que ali nasceram a Primeira Igreja; a Escola Americana (célula mater da Universidade Presbiteriana Mackenzie); o primeiro presbitério. Ali foi ordenado o ex-padre José Manoel da Conceição, e foi onde morreu e foi velado A. G. Simonton, e de lá saiu o triste cortejo que desceu a Cásper Líbero, subiu a São João, entrou na Avenida Ipiranga e subiu a Consolação, para sepultar o pranteado pastor no Cemitério dos Protestantes. (Apud, SOARES, 2009, p. 187)

     Neste importante endereço foram pastores: Rev. Alexander Latimer Blackford (1863-1867) quando teve que retornar ao Rio de Janeiro para assumir o pastorado daquela igreja com a morte precoce de Simonton; Rev. George W. Chamberlain (1867-1876), e John Betty Hovell de agosto de 1875 a dezembro de 1876, devido a viagem do Rev. Chamberlain aos Estados Unidos para completar seus estudos teológicos (SOARES, 2009, pp. 187-188). Em 22 de agosto de 1888 assumira o pastorado da Primeira Igreja o Rev. Eduardo Carlos Pereira, com apoio explicito do Rev. Chamberlain (TEMUDO, ano, p. 308), em detrimento do Rev. Modesto Carvalhosa (TEMUDO, ano, p. 309), o que futuramente trará suas consequências.







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Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
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Referências Bibliográficas

CLARK, Jorge Uilson. Presbiterianismo do Sul em Campinas: primórdio da educação liberal. Tese (Doutorado) Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Educação: Campinas, 2005. Disponível em:http://www.bibliotecadigital.unicamp.br/document/?code=vtls000351752&opt=4. Acesso em: 21/05/2013.
LESSA, Vicente Themudo. Annaes da Primeira Egreja Presbyteriana de São Paulo – Subsídios para a História do Presbiterianismo Brasileiro. São Paulo: Ed. Primeira Igreja Presbiteriana Independente de São Paulo, 1938.
OLIVETTI, Odair. Igreja Presbiteriana de São Paulo (1900-2000) – na esteira dos passos de Deus. São Paulo: IPUSP/Editora Cultura Cristã, 2000.
RIBEIRO, Boanerges. Protestantismo no Brasil monárquico (1822-1888): aspectos culturais da aceitação do protestantismo no Brasil. São Paulo: Pioneira, 1973.
SOARES, Caleb. 150 Anos de paixão missionária – o presbiterianismo no Brasil. Santos (SP): Instituto de Pedagogia Cristã, 2009.


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As Primeiras Aberturas ao Protestantismo
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Os Primeiros Convertidos e as Primeiras Igrejas Protestantes Brasileiras
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O Trabalho Desenvolvido por Ashbel Green Simonton e Seus Companheiros

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Primeiros Contatos - Invasões Francesa e Holandesa
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A Transferência da Família Real Portuguesa
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Independência e a Primeira Constituição Brasileira 

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[1] Veio a se constituir em um dos melhores auxiliares do Reverendo Blackford em S. Paulo era inglês e foi aluno na Escola Bíblica de Sara Kalley e posteriormente atendendo um pedido do Dr. Kalley veio para o Brasil, (10 de maio de 1855) e tornou-se valioso auxiliar em Petrópolis. Com a saída do Dr. Kalley do Brasil ele vai morar em São Paulo.
[2] Chamberlain, nascido em 13 de agosto de 1839 em Waterford, Pensylvania, fizera curso no Delaware College e no Union College. Não tinha vindo ao Brasil como missionario, nem pregador. Conta elle que, partindo de sua terra em junho de 1862, tinha em vista obter melhoras para a sua vista estragada pelos estudos. Aconteceu, porém, trazer uma carta de recommendação para o Reverendo Blackford, do Rio, e logo no dia da chegada, 21 de julho, travou com elle relações que muito vieram influir no seu destino. [...] De novembro a agosto do anno de 1865 colaborou com o Reverendo Blackford em São Paulo, tendo acompanhado a Brotas o Reverendo Simonton em março e abril. Em agosto e setembro fez muitas viagens pelo interior, regressando ao Rio, onde por seis mezes ficou como auxiliar de Simonton, substituindo-o em quanto este missionario havia ido a S.Paulo para a organização do presbyterio do Rio de Janeiro. [...] (LESSA, 1938, p.26 e 27 – grafia da época).
[3] Neste mesmo período, forma-se um novo trabalho nas proximidades de São Paulo, na Vila de Brotas (atual cidade de Brotas), que em novembro desse mesmo ano, se constituirá na terceira Igreja Presbiteriana. Foi nessa ocasião que o reverendo Blackford conheceu o padre José Manoel da Conceição, que mais tarde se tornou o primeiro pastor presbiteriano ordenado no Brasil.

domingo, 1 de dezembro de 2013

ABERTURA DOS PORTOS ÀS NAÇÕES AMIGAS - Documento

TEXTO AMPLIADO
Quando uma pequena parte da esquadra portuguesa, escoltada pelos navios de guerra ingleses, que trazia a família Real e praticamente toda a Corte portuguesa ao Brasil, se separou com D. João VI e a rainha mãe D. Maria,  aportando primeiramente na Bahia em 24 de janeiro de 1808, enquanto os demais navios seguiriam o plano de viagem pré-ordenado em direção ao Rio de Janeiro, dava-se o maior e mais significativo divisor de águas da historiografia brasileira.
Ainda que relegado ao ostracismo e ceticismo no que se refere às datas simbólicas brasileiras, este advento demarca o início das mais significativas transformações sociais e econômicas que a até então Colônia brasileira havia experimentado em seus quase trezentos anos de existência. Naquele momento as pessoas envolvidas jamais poderiam prever que os singelos atos promovidos por D. João VI, na Bahia e posteriormente no Rio de Janeiro, haveriam de repercutir tão intensamente na história brasileira e nem nos sonhos (ou pesadelos) mais extravagantes se imaginaria que viesse a desembocar, em apenas doze anos, no movimento que culminaria com a independência do Brasil (1822).
Foi nesta rápida estadia, de aproximadamente trinta dias, na Bahia que D. João assina o primeiro documento oficial no Brasil, denominado de “Carta Regia”, que permitirá de forma inédita que navios outros que não português pudessem aportar em território brasileiro, tornando-se o marco da inserção brasileira nos movimentos econômicos internacionais, obrigando a jovem Colônia a se transformar de abobora em Metrópole, como em um conto de fadas à imaginação tupiniquim.
Entretanto, nada disso ocorre motivado apenas pelos interesses próprios de D. João VI e da Corte portuguesa, mas como cumprimento de um acordo prévio estabelecido com os ingleses que em contrapartida haviam feito a escolta da família real de Portugal ao Brasil, pois eles possuíam naquele momento a única frota capaz de impor respeito diante dos navios franceses de Napoleão que povoavam os mares, e cujo os exércitos simultaneamente estavam desembarcando nos portos portugueses e assumindo simbolicamente o trono lusitano.
O decreto real de Abertura dos Portos, ainda que fosse destinado à todas as nações amigas, beneficiava naquele momento apenas o comércio inglês, que por longo tempo predominara nas relações comerciais brasileiras. No aspecto prático, o documento rompia o chamado “pacto colonial”, que exigia que todos os produtos comercializados com a Colônia pagassem taxas alfandegárias à Portugal.
Este decreto de 1808 (conforme abaixo comentado) simbolicamente haverá de ficar impregnado na mentalidade comercial brasileira, de maneira que os termos “abertura”, “protecionismo” e “competitividade” são avocados invariavelmente pelos mais diversos segmentos da economia brasileira em todos os tempos. Parafraseando um adágio popular: “deixamos de ser colônia, mas o espírito de colônia nunca nos deixou”.
É também por esta pequena incisão legal, primariamente comercial, que se iniciara o processo de implantação dos segmentos cristãos protestantes no Brasil. Inserido no decreto real está a primeira abertura legal para que pudesse haver expressão religiosa não católica no país, rompendo um monopólio religioso de mais de trezentos anos. Os ingleses serão os primeiros a usufruírem deste dispositivo, mas em poucas décadas outros estrangeiros também faram uso desta pequena, mas irreversível liberdade religiosa.

Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Me. Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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                         Carta Regia de 28 de janeiro de 1808.


Conde da Ponte,[1] de Meu Conselho, Governador e Capitão General da Capitania da Bahia, Amigo. Eu o Príncipe Regente[2] vos Envio muito saudar, como aquele que Amo. Atendendo a representação, que fizeste subir à Minha Real Presença sôbre se achar interrompido, e suspenso o Comércio desta Capitania com grave prejuízo dos Meus Vassalos, e da Minha Real Fazenda[3] em razão das críticas, e públicas circunstancias da Europa[4], e Querendo dar sôbre este importante objeto alguma providência pronta, e capaz de melhorar o progresso de tais danos: Sou Servido Ordenar interina, e provisoriamente, enquanto não Consolido um Sistema geral, que efetivamente regule semelhantes matérias, o seguinte. Primo: Que sejam admissíveis nas Alfândegas do Brasil[5] todos e quaisquer Gêneros, Fazendas, e Mercadorias transportadas, ou em Navios Estrangeiros das Potências, que se conservam em Paz, e Harmonia com a Minha Real Coroa, ou em Navios dos Meus Vassalos, pagando por entrada vinte e quatro por cento; a saber: vinte de Direitos grossos, e quatro do Donativo já estabelecido, regulando-se a cobrança destes Direitos pelas Pautas, ou Aforamentos, por que até o presente se regulam cada uma das ditas Alfândegas, ficando, os Vinhos e as Aguardentes, e Azeites doces, que se dominam Molhados, pagando o dobro dos Direitos, que até agora nelas satisfaziam. Segundo: Que não só os Meus Vassalos, mas também os sobretidos Estrangeiros possam exportar para os Portos, que bem lhes parecer a benefício do Comércio,[6] e Agricultura,[7] que tanto Desejo promover, todos e quaisquer Gêneros, e Produções Coloniais, à exceção do Pau-brasil,[8] ou outros notoriamente estancados,[9] pagando por saída os mesmos Direitos já estabelecidos nas respectivas Capitanias, ficando entretanto como em suspense, e sem vigor todas as Leis, Cartas Regias, ou outras Ordens, que até aqui proibiam neste Estado do Brasil o recíproco Comércio, e Navegação entre os Meus Vassalos, e estrangeiros. O que tudo assim fareis executar com zelo e atividade, que de vós Espero, Escrita na Bahia aos 28 de janeiro de 1808. [Grafia da época].        


                      Príncipe — Para o Conde da Ponte.




[1] Seu nome completo era João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes Brito (1773-1809), sexto conde da Ponte, governou a capitania da Bahia entre 1805 e 1809, e foi o responsável pela recepção da família real portuguesa no Brasil em 1808. Tornou-se conhecido pela forma autoritária como tratava os escravos e por defender que, qualquer tipo de união entre os cativos, fosse em quilombos ou em irmandades, poderia levar a rebeliões e deveriam, portanto, ser energicamente reprimidos. Apesar das posições arbitrárias com relação aos cativos, o conde foi também o responsável pela implementação do Teatro de São João em Salvador. A obra foi iniciada em 1806, ainda durante seu governo e o Teatro foi inaugurado em 13 de maio de 1812, portanto, mais de um ano antes da inauguração da mais importante casa de espetáculos da corte, o Real Teatro de São João, aberto em 12 de outubro de 1813.
[2] D. João (1767-1826), segundo filho de d. Maria I e d. Pedro III, de maneira que somente torna-se herdeiro imediato da Coroa com a morte do primogênito d. José em 1788. Ele assumiu a regência do Império português em 1792, no impedimento de sua mãe, considerada louca. Durante seu governo Portugal foi invadido pelos exércitos francês de Napoleão Bonaparte em 1807, levando à transferência da família real e da Corte para o Brasil, tendo partido às pressas em novembro daquele mesmo ano, aportando em Salvador em janeiro de 1808. Ainda no Brasil, com a morte de d. Maria I1816, tornou-se d. João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves. Para não perder o direito de reinar, em 1821, retornou com a Corte para Portugal, deixando no Brasil seu filho Pedro como regente. Mesmo à distância teve uma influência ativa no processo da independência do Brasil (1825) oferecendo orientações ao jovem príncipe que a partir de então assumira o trono brasileiro.
[3] Este órgão governamental foi criado em 1761, durante o reinado de D. José I, resultante de uma profunda reforma econômica efetuada pelo ministro Martinho de Melo e Castro. O objetivo primário era minimizar os poderes do até então todo poderoso Conselho Ultramarino, mas trouxe um forte impacto tanto para Portugal quanto para suas colônias, pois modernizou-se os métodos de contabilidade introduzindo novas formas de elaboração de escrituração e balanços periódicos. Foi introduzida nas colônias as Juntas da Fazenda, que eram órgãos descentralizados e responsáveis pelos custeios militares, civis e eclesiásticos (todos os clérigos eram pagos pela coroa portuguesa), bem como todas e quaisquer despesas extraordinárias.
[4] D. João faz referência às invasões francesas por toda a Europa, onde desde 1799 Napoleão desencadeou guerras com praticamente todas as grandes potências, culminando com o “Bloqueio Continental” em 1806. Todo e qualquer navio não aliado da França deveria ser abatido. D. João VI usa a tática da neutralidade, mas com a aliança França-Espanha (1807), os exércitos franceses marcham para invadir Portugal sob o comando do general Junot (novembro de 1807), obrigando a Família Real embarcar às pressas na calada da noite nos navios que os transportariam para a colônia brasileira, escoltados pelos navios ingleses. Somente em 1811, após sucessivas batalhas entre as tropas francesas e os exércitos anglo-lusitanos, e após a grande vitória na batalha do Buçaco, os franceses se retiraram dos domínios portugueses.
[5] Eram órgãos da administração fazendária ou Fazenda responsável pela arrecadação e fiscalização dos tributos provenientes do comércio de importação e exportação. Com a chegada da Corte portuguesa e a abertura dos portos brasileiros implementou-se muitas e significativas mudanças. Deste modo, todos os gêneros, mercadorias ou fazendas que entrassem no país transportado em navios portugueses ou em navios estrangeiros (que não estivessem em guerra com Portugal) pagariam por direitos de entrada 24%, mas os ingleses haviam conseguido incluir em seu acordo bilateral a diminuição dessa taxa para 15%, o que causou uma revolta enorme nos comerciantes portugueses. Os denominados gêneros molhados deveriam pagar o dobro desse valor. Em relação à exportação, qualquer produto colonial (com exceção dos produtos "estancados", como o pau-brasil ou outros) pagaria nas alfândegas os mesmos impostos cobrados nas demais colônias.
[6] Aqui se rompe um monopólio rígido mantido pelo governo português desde seu controle sobre as fronteiras litorâneas brasileiras. No pacto colonial, que estava sendo desfeito, dava privilégios unicamente à Portugal e aos portugueses. Ainda que na pratica, desde o século XVII inúmeras concessões foram sendo introduzidas, dos quais os ingleses sempre se aproveitaram acintosamente. A posição privilegiada dos ingleses será ampliada com a assinatura em 1810 do Tratado de Navegação e Comércio que perpetuara as vantagens econômicas deles sobre os demais países no comércio com o Brasil e Portugal.
[7] A agricultura brasileira naquele período se caracterizava pelas lavouras monocultoras escravagistas voltadas para exportação. A chegada da Corte portuguesa vai criar a necessidade de uma diversificação agrícola e criação de animais para abastecimento interno. Uma das muitas ações emergenciais efetuadas por D. João VI foi o decreto da formação do primeiro curso de agricultura na Bahia em 1812 e posteriormente em 1814 cria-se uma cadeira acadêmica de botânica e agricultura, no Rio de Janeiro, para o qual foi nomeado o Frei Leandro do Sacramento. São os primeiros passos para se conhecer o potencial da fauna e flora brasileira e a exploração das riquezas naturais de forma cientifica.
[8] Nossa menina dos olhos de ouro, que recebeu o nome científico de Caesalpinia echinata, dada pelo cientista Jean-Baptiste Lamark em 1789, no século XVIII, mas que os índios tupis chamavam de Ibirapitanga. Estas árvores cobriam todo o litoral brasileiro desde o Rio de Janeiro até o Rio Grande do Norte. Torna-se o primeiro produto de exportação pelas suas qualidades de corante e construção naval e instrumentos musicais, e que permaneceu na pauta exportadora até metade do século XIX. Foi durante séculos o “ouro verde” dos portugueses, por isso a preocupação por parte do governo em manter intacto seu monopólio. 
[9] O termo se refere ao monopólio real quanto a comercialização de determinados produtos. Quando não realizados pela Coroa havia regras rígidas para exportação: quantidade máxima, preços tabelados e autorização régia para comercialização deles. No século XVIII os estancos mais relevantes para Portugal eram o sal, tabaco, ouro e as pedras preciosas, que periodicamente eram taxados com o quinto.




Utilização livre desde que citando a fonte
Guedes, Ivan Pereira Mestre em Ciências da Religião.
Universidade Presbiteriana Mackenzie
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Referência Bibliográfica

D’Eça, Vicente Almeida. A Abertura dos Portos do Brasil — Ensaio Histórico. Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa, 1908.

Documento Original - http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br/Media/Abertura%20dos%20portos.pdf

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